MARCLEO MARTINS/ESTADÃO
MARCLEO MARTINS/ESTADÃO

Livro digital avança, mas enfrenta a barreira da pirataria no País

Segundo as editoras, os e-books representam 11% de todo o conteúdo pirateado na internet, prejudicando o crescimento desse mercado

Lucas Agrela, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2022 | 05h00

O Kindle, leitor digital da Amazon lançado há 15 anos, é considerado um divisor de água no mercado de livros eletrônicos, ajudando em sua popularização. Mas, diferentemente de outros mercados nos quais a tecnologia substituiu formatos antigos, como o Spotify reduzindo as vendas de CDs, o livro impresso ainda se mantém como principal opção dos leitores no Brasil e no mundo. Hoje, menos de 1 a cada dez livros vendidos no País é em formato digital. 

As empresas nacionais já digitalizaram a grande maioria das obras e fazem lançamentos de novos títulos tanto no papel quanto na versão eletrônica. “O e-book chegou a 8,5% do faturamento da empresa em 2021. O número é acima da média de mercado entre as editoras, que está em 6%”, afirma Marcos Pereira, presidente da Sextante

Além da barreira inicial de comprar um leitor eletrônico, que custa entre R$ 380 e R$ 1.300 – fora o custo dos livros –, há o desconhecimento em relação ao aplicativo gratuito do Kindle para celulares e um problema de compartilhamento ilegal de livros digitais. “Ainda temos um nível de pirataria imenso no digital, é como enxugar gelo”, diz Pereira. Os e-books são 11% de todo o conteúdo pirateado na internet.

A situação não é uma exclusividade da Sextante. Na editora Intrínseca, a história se repete. O livro impresso vende muito mais, ainda que o digital tenha passado de 3,7% das vendas em 2017 para 7,1% no ano passado. Para Heloísa Daou, diretora de marketing da Intrínseca, o livro digital vende menos por causa da pirataria, mas, principalmente, pela falta de intimidade do brasileiro com a leitura. “Existe uma valorização grande do livro como objeto. O Brasil ainda não tem uma grande maioria de leitores. Por isso, eles se encantam primeiro com o objeto físico e depois exploram outros formatos”, diz.

As editoras argumentam que o preço mais baixo do digital não pode ser aplicado ao livro como aconteceu com a indústria da música, que hoje tem aplicativos que oferecem acesso a 80 milhões de músicas pelo custo de um único CD. “O livro digital tem um valor menor do que o físico, mas existe quase o mesmo trabalho envolvido. Não há uma diferença enorme para oferecer um livro a R$ 2”, afirma Heloísa. De acordo com o 11.º Painel do Varejo de Livros no Brasil, pesquisa realizada pela Nielsen BookScan e divulgada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros, o varejo registrou a um total de 43,9 milhões de livros comercializados em 2021, com faturamento de R$1,83 bilhão e preço médio de R$ 40,76, ante R$ 37,67 em 2020. 

Percepção

 Desde o lançamento, em 2007, o leitor eletrônico Kindle evoluiu para oferecer recursos que aumentam a percepção de valor do livro digital. Um exemplo disso é a possibilidade do uso de uma fonte especial para leitores com dislexia, que ajuda esse público a ler. A Amazon também integrou o aparelho Kindle ao aplicativo para celular ou computador, sincronizando a última página lida em qualquer plataforma. Até a assistente de voz Alexa faz parte do jogo e pode ler, em voz alta, os livros digitais do usuário.

Para a Amazon o ebook ainda está em evolução e não devemos pensar que ele irá substituir o impresso. “Não é uma questão de um formato contra o outro, mas sim de complementação em nome da democratização da leitura e possibilidades que cada tecnologia oferece”, afirma Ricardo Perez, gerente-geral de livros na Amazon.com.br

Mesmo que ainda seja uma parcela pequena do mercado, o livro digital segue em crescimento. O faturamento do segmento de e-books no Brasil crescerá 15,6% em 2022, ainda 20% do valor do mercado de livros físicos. Apesar de pequeno, o número é acima da média global esperada para o ano, na previsão da consultoria Statista, que é de 15,4%.

Democratização

 O mercado de livros digitais permitiu a publicação de obras sem editoras, abrindo espaço para novos autores. O principal símbolo dessa tendência é a plataforma de publicação oferecida pela Amazon. Desde 2014, os autores que publicaram suas obras no Kindle Direct Publishing já receberam US$ 1,5 bilhão. Os escritores recebem até 70% do valor cobrado pelos e-books.

Um exemplo de livro que fez sucesso nesse formato foi “Este livro não vai te deixar rico”, publicado por um autor anônimo sob o pseudônimo Startup da Real. O livro fala sobre as mazelas do empreendedorismo no País e desmistifica as promessas de sucesso fácil comuns em discursos de startups. 

Com uma estratégia forte de divulgação nas redes sociais, em especial, o Instagram, a obra digital chamou a atenção da editora Planeta Estratégia, que pediu ao autor uma versão revisada e ampliada para que fosse publicada em edição impressa.

“Pode parecer fácil publicar um livro por conta própria, mas há um processo de diagramação que leva um esforço de algumas horas. Fora isso, é preciso ter um público para comprá-lo. Quando publiquei o livro, eu já tinha 20 mil seguidores nas redes sociais”, conta o escritor e profissional de marketing de conteúdo Alberto Brandão, que recentemente saiu do anonimato. 

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