Loyola: governo está indo por um caminho perigoso

Para o ex-presidente do BC, o governo pode reverter clima positivo ao gastar mais e querer criar um fundo soberano.

Luciana Xavier,

29 de novembro de 2007 | 18h58

O maior risco de pressão sobre o dólar hoje é doméstico e não externo, de acordo com o ex-presidente do Banco Central e sócio-diretor da Tendências, Gustavo Loyola. Segundo ele, o governo resolveu mexer em "time que está ganhando" ao se mostrar disposto a gastar mais e ao querer criar um fundo soberano. "O governo está indo por um caminho perigoso e pode reverter a expectativa positiva para o Brasil", avaliou, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo.    Ouça entrevista com Gustavo LoyolaSegundo ele, as notícias do mercado interno, somadas ao aumento do risco de recessão nos Estados Unidos, levaram à alta do dólar nos últimos dias. Loyola disse que as discussões sobre o fundo soberano e o relaxamento da postura fiscal do governo pioraram a percepção de risco do Brasil. Loyola ressaltou, porém, que a tendência natural do dólar continua sendo de queda, como mostra o comportamento do mercado de câmbio hoje. Loyola acredita que, num "cenário normal", é possível que o dólar encerre 2008 entre R$ 1,65 e R$ 1,70. Gustavo Loyola criticou o "relaxamento na postura fiscal" do governo. "O governo assumiu uma postura de aumentar gastos e isso é muito ruim", disse. Segundo ele, há um grupo de economistas dentro do governo que considera a disciplina fiscal menos importante. "Há uma questão de ideologia econômica, que ameaça as conquistas dos últimos anos. A idéia de que é preciso aumentar o tamanho do governo e o papel de liderança no financiamento do setor privado. E a idéia de que empresas do governo têm que ter papel mais forte na economia", comentou. Fundo soberano Loyola criticou ainda a criação do fundo soberano e disse ainda concordar com a declaração dada pelo economista-sênior do Dresdner, Nuno Camara, em entrevista esta semana ao AE Broadcast Ao Vivo, de que o fundo pode atrasar a chegada do grau de investimento para o Brasil. "Não é um verdadeiro fundo criado a partir de riquezas soberanas como em outros países. É um mecanismo para financiar as empresas e deve levar ao aumento do endividamento público ou da própria emissão monetária", afirmou. De acordo com Loyola, a criação do fundo não pode ser vista como risco isolado. "Há outras medidas na agenda muito perigosas como, por exemplo, o projeto de mudança da Lei de Responsabilidade Fiscal, dando maior liberdade aos Estados; a polêmica no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em que se mostra uma intolerância em termos de pensamento econômico e de fato a idéia de se livrar de economistas que pensam na importância da responsabilidade fiscal; e as próprias declarações do presidente da República sobre a necessidade de se aumentar gastos. Tudo isso vai formando um caldo de cultura muito negativa", analisou. Autonomia Para Loyola, o atual presidente da instituição, Henrique Meirelles, não deveria ser favorável à criação do fundo soberano. "Acho que qualquer presidente de Banco Central competente tem que ser contra. Eu, sem dúvida, resistiria muito", afirmou, comentando rumores de que Meirelles estaria sendo resistente à criação do fundo. "Acho que esse fundo, da maneira em que está sendo concebido, interfere na política cambial, pode causar problemas na órbita fiscal e pode causar distorções no processo de alocação de recursos", acrescentou. Para Loyola, o Banco Central tem tido um papel "razoável" dentro do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. "A criação desse fundo significaria, na prática, a perda pelo menos parcial da autonomia do BC na política cambial", disse. Segundo ele, essa perda de autonomia ocorrerá mesmo que não sejam usadas reservas internacionais no fundo. "Esse negócio de usar ou não reservas, isso apenas diz que não se vai usar reservas que já estão constituídas. Mas daqui para frente a constituição do fundo vai exigir que o seu agente (Tesouro Nacional) compre recursos do mercado de câmbio. O Banco Central teria um ´concorrente´", comentou. "Imagina se o BC tivesse que vender dólares. Será que o BC venderia num lado e esse fundo estaria comprando no outro e vice-versa?", questionou. Segundo Loyola, dependendo da meta do fundo, ele poderia "perturbar" o mercado cambial, e, eventualmente, até levando o BC a ter que assumir uma posição contrária, vendendo dólares. "De fato, a preocupação maior que eu tenho é de que isso possa esconder uma medida para diminuir a autonomia do Banco Central", disse. O ex-presidente do Banco Central disse que existe também uma dúvida muito grande sobre se o fundo servirá para financiar empresas dentro do País. "Se isso ocorrer, você cria um moto-perpétuo de emissão monetária ou de dívida. Quando se fala de verdadeiros fundos soberanos, são empresas cujo risco não está relacionado com o próprio país", explicou. CPMF Loyola disse ser a favor da aprovação da prorrogação da CPMF e considera "natural" que o governo tenha um plano B, caso a contribuição não seja aprovada. "Acho que a CPMF é ruim, tem seus defeitos, mas não se pode retirar assim uma fonte de receitas", afirmou. Segundo Loyola, a oposição, no lugar de barrar a CPMF, deveria defender um cronograma de redução do gasto como proporção do PIB ao longo dos próximos anos. "Em algum momento, isso possibilitaria a própria redução da carga tributária. Acho que não se pode fazer uma coisa de forma abrupta, que leve um risco de problemas fiscais", comentou. "Nós sabemos que as despesas são rígidas e difíceis de ser diminuídas de um ano para outro. Tem que ser um programa de médio prazo", acrescentou. No plano B do governo poderiam estar uma elevação do Imposto de Renda e um corte da meta de superávit primário para o ano que vem. A meta atual é de 3,3% do PIB. "Acho que esse plano B tem que contemplar um corte de despesas, e aí vão ser prejudicados principalmente os investimentos, e também o aumento de outros impostos, como IOF, para dar o mínimo de arrecadação", sugeriu. Juros Gustavo Loyola disse ainda que, mesmo com os ruídos causados pelo governo, as expectativas para as próximas duas ou três reuniões continuam as mesmas. "A estabilidade das taxas de juros é a aposta principal", afirmou. A próxima reunião do Copom é na semana que vem, nos dias 4 e 5. A Selic está hoje em 11,25% ao ano. Para Loyola, a inflação está "muito tranqüila" e o Copom poderia voltar a reduzir os juros em meados de 2008, caso não haja nenhuma deterioração do cenário externo. O ex-presidente do BC criticou ainda a possibilidade de o governo anunciar medidas cambais ainda este ano. "É uma tremenda bobagem", avaliou. Segundo Loyola, pessoas ligadas ao governo confirmaram para ele que medidas nesse sentido estão sendo estudadas. "Não há mecanismo administrativo para controlar o câmbio", afirmou. Segundo ele, as intervenções do BC com compras no mercado à vista para conter a queda do dólar ao longo deste ano se mostraram "ineficazes". "Não há como o BC sustentar a moeda. Existe um limite para a eficácia (das ações do BC)", disse.  

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