Lucro das empresas de consumo será corroído pela inflação no 2º trimestre

Na temporada de divulgação de balanços das companhias abertas, que começa na segunda, investidores devem se frustrar com as empresas de vestuário e produtos de limpeza 

Fábio Alves, de O Estado de S. Paulo,

12 de julho de 2013 | 21h50

O lucro das empresas brasileiras ligadas ao setor de consumo no segundo trimestre deste ano deverá refletir com maior magnitude o impacto da alta da inflação nos últimos doze meses, em especial da disparada nos preços dos alimentos, sobre o orçamento das famílias brasileiras.

Na temporada de balanços das companhias abertas, que começa na segunda-feira e se estenderá pelos próximos 30 dias, os investidores poderão se frustrar com as receitas de empresas de vestuário e produtos de limpeza e higiene, por exemplo, e também com o aumento nos pagamentos em atraso de financiamentos de automóveis ou com a aceleração no cancelamento de assinaturas de telefonia celular e de TV a cabo.

"As expectativas para os resultados das empresas ligadas ao consumo ainda estão muito elevadas, portanto há um claro risco, em razão de uma inflação alta e de um crescimento econômico mais baixo, de essas expectativas não serem atingidas no segundo trimestre", diz Jennifer Delaney, estrategista de ações para mercados emergentes do banco UBS em Nova York.

Para ela, inflação alta, forçando a elevação da taxa de juros, e o nível mais fraco da atividade econômica deverão frustrar as metas de crescimento do lucro das empresas neste ano e, por tabela, o desempenho do mercado acionário brasileiro.

Em junho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 6,7% no acumulado de 12 meses, mas o item alimentação e bebidas subiu 12,8% no período. Esse item contribui com um peso de 24,7% sobre o IPCA, o que reflete, a grosso modo, os gastos mensais das famílias brasileiras com esse tipo de despesa. Até junho, no acumulado em 12 meses, alimentação no domicílio ficou 13,6% mais caro, enquanto comer fora de casa ficou 11,2% mais caro.

Para o varejo em geral, a inflação foi de 8,5% em 12 meses até maio. O impacto da inflação sobre a massa salarial e o orçamento dos consumidores já foi captado no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre deste ano, divulgado no dia 29 de maio, quando o consumo das famílias brasileiras cresceu apenas 0,1% sobre o trimestre anterior.

De lá para cá, os indicadores do consumo seguem se enfraquecendo. Na quinta-feira, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as vendas do comércio varejista contabilizaram em maio o menor crescimento para o mês desde 2009, com uma expansão de 4,5% sobre maio do ano passado. Já em relação ao mês anterior, as vendas ficaram estáveis.

A Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), com base no levantamento realizado junto com o Sistema de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), informou na quarta-feira que as vendas no varejo caíram 3,74% em junho na comparação com maio. Em relação a junho do ano passado, as vendas no varejo subiram 0,67%. Foi o terceiro mês consecutivo de desaceleração e o menor crescimento nessa base de comparação desde janeiro de 2012.

Manifestações. No primeiro trimestre deste ano, conforme levantamento feito pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, com balanços de 137 empresas, 53 companhias abertas, ou 38,7% do total, registraram queda no lucro líquido ante o primeiro trimestre de 2012, enquanto 23 delas, ou 16,8%, reportaram prejuízo líquido.

No caso de empresas ligadas ao varejo, os analistas querem saber se as manifestações populares, que acarretaram em fechamento de lojas, ampliaram os efeitos negativos da inflação sobre as vendas. Já quanto aos balanços de instituições financeiras o foco estará em como se comportou no segundo trimestre a concessão de crédito para bens de consumo, em particular o de veículos. "Sem dúvida, os setores ligados a bens de consumo discricionários, como vestuário, linha branca e marrom, serão mais afetados do que os de bens de consumo essenciais, como alimentação e energia", resume Carlos Nunes, do HSBC.  

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