Lula coloca em dúvida viabilidade do carro elétrico

Uma semana depois de ter suspendido a divulgação de um pacote de incentivos ao modelo, presidente volta a questionar alternativa

Alexandre Rodrigues, de O Estado de S. Paulo,

31 de maio de 2010 | 23h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva expôs na segunda-feira, 31, dúvidas sobre a viabilidade do carro elétrico. Na abertura do Challenge Bibendum, evento mundial organizado pela Michelin no Rio de Janeiro, Lula exaltou o sucesso de vendas dos carros flex brasileiros, que podem usar etanol e gasolina.

"É carro elétrico para cá, carro elétrico para lá, mas não se sabe ainda se alguém vai produzir em grande escala", disse Lula, que chegou ao Riocentro por volta de 10h30 a bordo de um ônibus movido a hidrogênio, desenvolvido por um laboratório da coordenadoria de pós-graduação e engenharia da UFRJ (Coppe).

Na semana passada, o presidente suspendeu a divulgação de um pacote de incentivos aos carros elétricos pouco antes da cerimônia por causa das divisões no governo sobre o tema. Os ministérios da Fazenda, Meio Ambiente e Ciência e Tecnologia defendem as medidas, mas o Ministério do Desenvolvimento teme que os incentivos possam prejudicar a competitividade do etanol e do biodiesel brasileiros.

"Hoje, quase 100% dos carros vendidos no Brasil são flex. E 60% dos donos desses carros têm preferência pelo etanol que, definitivamente, virou uma parte importante da matriz energética brasileira", discursou Lula.

Ele lembrou que o Brasil foi um dos pioneiros na pesquisa de fontes de energia renováveis, como o etanol, em substituição ao petróleo, e criticou a postura ambiental dos países desenvolvidos. "Os grandes, que sabiam tudo, não sabem o que fazer para parar de jorrar petróleo", disse Lula, numa referência às dificuldades da British Petroleum e do governo dos Estados Unidos de interromper o vazamento de petróleo no Golfo do México.

"Eu acho engraçado como a imprensa trata esse negócio. Imagina se fosse a Petrobrás! Se fosse aqui, na Baía da Guanabara? Imagina o escândalo que o mundo não faria contra nós", disse Lula, arrancando aplausos.

O presidente disse também que o País precisa facilitar mais ainda o acesso ao crédito. "No Brasil já houve tanto calote ao longo da história que hoje só pede empréstimo quem não precisa." Lula acredita que seja possível aliar o incentivo ao crédito à adoção de novas tecnologias para minimizar a emissão de gases que contribuam para o efeito estufa, como uma forma de renovar a frota brasileira de veículos . No discurso, lembrou que já defendia a ideia quando era líder do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista.

Embate

O lançamento do programa de apoio ao carro elétrico se transformou em um embate no governo. Estudo concluído por grupo interministerial previa uma série de incentivos para o desenvolvimento e venda do carro elétrico. Técnicos da Fazenda e da Ciência e Tecnologia sugeriram redução do Imposto de Importação, IPVA e IPI, entre outros tributos. Outra medida seria uma política de compras governamentais que privilegiasse o carro elétrico.

Os benefícios não agradaram os técnicos do ministério do Desenvolvimento. Eles reclamaram que o objetivo do grupo era discutir as alternativas para o futuro da indústria automotiva, mas havia apenas um parágrafo no documento sobre o etanol.

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