Lysenko de volta, no Brasil

Trofim Lysenko (1898 - 1976) foi um geneticista russo que convenceu Joseph Stalin de que a genética baseada nas leis de Mendel e empregada nos países ocidentais era uma ciência "burguesa" e "capitalista", portanto, incompatível com o sistema socialista. Lysenko acreditava que os caracteres adquiridos, de alguma maneira, eram transmitidos aos descendentes, um conceito lamarkiano (Lamark, 1744 - 1829) defendido no século 19. Assim, sementes de trigo submetidas a baixas temperaturas produziam melhores colheitas e transmitiam essas características às gerações subseqüentes. Chegou mesmo a considerar outras noções obsoletas, como a teoria da geração espontânea, dentre outras. Descrevia suas idéias "como a única forma de ciência aceitável, porque é baseada no materialismo dialético e no princípio de mudar a natureza em benefício do povo". Como conseqüência, a biologia soviética foi totalmente politizada e centenas de cientistas perderam suas posições, entre os quais Nikolai Vavilov (1887 - 1943) enviado para a Sibéria, onde morreu. Atualmente, o principal instituto de genética da Rússia tem o seu nome. A conseqüência mais desastrosa do lisenkismo foi o fracasso das colheitas de trigo, em especial no período de 1930 a 1950, que obrigou a Rússia a importar o cereal para evitar uma fome generalizada.Para a obtenção de plantas melhores e mais produtivas, os geneticistas utilizam metodologias desenvolvidas a partir dos progressos da Genética. O geneticista Hermann Muller (1890 - 1967) mostrou que os raios X produzem novos genes, pelo que foi contemplado com o Prêmio Nobel de Medicina em 1946. Assim nasceu uma nova área, a Radiogenética, cujo objetivo é a obtenção de novos genes artificialmente induzidos por radiações ionizantes e não ionizantes, sendo a metodologia denominada de mutagênese. As novas mutações obtidas, como seria de se esperar, são totalmente aleatórias, sendo a quase totalidade representada por genes deletérios originando plantas defeituosas. Eventualmente é obtido um novo gene que confere certas qualidades desejáveis, sendo o mesmo selecionado. Existem mais de 2.000 genes assim obtidos, amplamente empregados na maioria das espécies cultivadas, como cereais, hortaliças, frutas, etc. Considerando que para cada gene desejável são produzidos 100 deletérios, sendo, na verdade, um número muito maior, mais de 200.000 genes dessa natureza têm sido obtidos e liberados no ambiente. É evidente que as plantas portadoras de todos esses genes são avaliadas no campo, durante todo o desenvolvimento, inclusive no florescimento. A mutagênese é bastante difundida, sendo empregada por países como a Suécia, o Japão, a Itália, USA, o Brasil, dentre outros.O quadro abaixo mostra as semelhanças e diferenças entre as duas metodologias em discussão. Nada indica que os genes artificialmente obtidos em uso nas plantas comerciais, embora sem avaliações de biossegurança, sejam prejudiciais à saúde humana ou ao meio ambiente. A Lei No 11.105 de 24/03/2006 trata de OGMs que são obtidos por qualquer técnica de engenharia genética, que envolve DNA/RNA recombinante. A lei em questão exclui explicitamente a mutagênese. Em obediência à legislação em vigor, este OGM deverá ser submetido aos requisitos da Lei de Biossegurança. Nos últimos anos foi obtido por mutação induzida no arroz, um gene que confere a essa planta, resistência a herbicidas da família das imidazolinonas, utilizado com sucesso no controle de plantas daninhas, em especial o arroz vermelho. A técnica do DNA recombinante será útil, transferindo esse gene para outras espécies. TRANSGÊNESE E MUTAGÊNESE - SEMELHANÇAS E DISTINÇÕESCaracterísticasTransgêneseMutagênese   ObjetivoGene conhecidoGene desconhecidoInício19801930Origem do gene incorporadoDeterminadaAleatóriaHerançaMendelianaMendelianaLegislaçãoExigidaNão exigidaAvaliaçõesAgronômica, saúde e meio ambienteAgronômicaAvaliação de biossegurançaExigidaNão exigidaGenes aprovadosCerca de 20Mais de 2.000Genes experimentaisMilharesMais de 200.000Benefício para o agricultorSimSimBenefício para o meio ambienteSimNão avaliadoDano à saúdeNãoNão avaliadoAlergiaNãoNão avaliada Fica evidente, que a oposição aos transgênicos, que se reflete na lentidão dos trabalhos da CTNBio (Comissão Técnica de Biossegurança), com virtual impedimento de qualquer aprovação comercial de novos OGMs, não tem tanto a ver com a natureza do gene envolvido, mas se refere essencialmente à metodologia do DNA recombinante. A similaridade com a era de Lysenko é muito patente.

Agencia Estado,

23 de agosto de 2006 | 12h21

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