Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Magazine Luiza fará segundo programa de trainee exclusivo para profissionais negros

Gigante varejista ainda vê desequilíbrio racial em sua equipe: em cargos de alta gestão, participação de pretos e pardos é de 21,1%

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 20h56

Depois de causar polêmica no ano passado com a iniciativa, o Magazine Luiza decidiu fazer uma segunda edição de seu programa de trainee voltado apenas para profissionais negros. De acordo com a companhia, ainda há desequilíbrio racial em seu quadro, especialmente nos cargos de alta gestão, nos quais a presença de pretos e pardos é de 21,1%.

O censo da varejista, porém, mostrou um cenário melhor do que a companhia esperava. Do time como um todo, 51,8% dos funcionários se autodeclaram pretos ou pardos. Em cargos de liderança em lojas e centros de distribuição, colaboradores negros têm 47,1% das posições de chefia. O porcentual cai para a casa dos 20% quando se consideram os cargos de alta gestão, concentrados nos escritórios.

Para o presidente da companhia, Frederico Trajano, a falta de representatividade nos cargos mais altos da empresa é uma “anomalia”. Por isso, a empresa decidiu repetir a ação afirmativa do ano passado que gerou polêmica e lançar mais um programa de trainee com vagas exclusivas para pessoas negras.

Houve, no entanto, evolução. Quando o primeiro programa foi lançado, o Magazine Luiza se baseou em uma pesquisa por amostragem que indicou 16% de líderes negros na empresa (o crescimento, portanto, foi de 5 pontos porcentuais em um ano). Para Trajano, é possível que mais pessoas tenham se sentido à vontade para se declarar pretas ou pardas após o trabalho de conscientização da empresa.

Segundo Patricia Pugas, diretora executiva de gestão de pessoas, o programa não precisará mais buscar arcabouço legal para se legitimar. No ano passado, a empresa contou até com parecer de Eros Grau, ex-ministro Superior Tribunal Federal (STF), para mostrar que não infringiu a Constituição. Na época, a Defensoria Pública da União chegou a mover ação contra a empresa, mas o Ministério Público do Trabalho pediu a extinção do processo.

Minoria

Este será o décimo primeiro programa de trainee do Magazine Luiza. Dos 30 negros profissionais negros que fizeram parte de alguma das edições e ainda trabalham na companhia, 19 são da última turma, que teve reserva de vagas. Ou seja: nas outras nove edições do programa, só 11 candidatos negros foram contratados.

As negativas em programas de trainee de outras empresas foram acompanhadas de justificativas pouco convincentes para a maior parte dos aprovados na turma de 2021. Foi o caso de Gislaine Cruz: formada em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de São Paulo, ela vendeu bolo na faculdade para arcar com um mês de intercâmbio no Canadá e ter uma experiência internacional no currículo – algo considerado importante para seleção de programas de trainee. Mesmo assim, as negativas eram constantes: “Você é boa, mas seu curso é diferente, não sabemos onde te encaixar”, lembra.

“Eu sempre fui a única negra em todos esses processos. Eu tinha a formação (em uma grande universidade), tinha a experiência internacional, mas isso não era suficiente quando se tratava de um profissional negro”, conta Gislaine. Ela diz que, desde 2017, quando se formou, trabalhou principalmente no terceiro setor e ganhava aproximadamente metade do salário que ganha hoje, como trainee. Ela é uma dos 19 contratados no programa do ano passado, entre 22 mil inscritos.

Os critérios para inscrição não tinham exigências como fluência em inglês ou intercâmbio. Dentre os aprovados, apenas sete têm inglês fluente e há contratados de universidades menos renomadas, algo difícil de ocorrer em outros programas. A turma assumirá cargos de nível sênior no início do ano que vem. Nas vagas para o programa de 2022, o salário é de R$ 6,6 mil, mais benefícios.

Para Fabio Mariano Borges, head de cultura inclusiva na 99 Jobs, que promove o Trainee do Magalu, garantir a inclusão desse grupo traz para a discussão um dos temas que mais geram faíscas na sociedade. 

Borges lembra ainda que há tempo para fazer uma série de ações afirmativas com outras parcelas da população que encontram barreiras para acessar o mercado de trabalho. A 99 Jobs diz ainda que, após a iniciativa do Magalu, em 2020, hoje cerca de 50% dos programas de trainee organizados pela consultoria têm vagas exclusivas ou cotas para pessoas negras.

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