Epitacio Pessoa/Estadão
Professora universitária Jéssica Silva, que há um ano estreou na B3 com um investimento mensal na casa de R$ 600 Epitacio Pessoa/Estadão

Maior parte dos novatos na Bolsa tem salário de até R$ 5 mil por mês

Muita gente começa no mercado aplicando R$ 50; especialistas alertam que é preciso educar investidores para operar com ações

Wesley Gonsalves e Fernanda Guimarães, O Estado de S. Paulo

06 de fevereiro de 2022 | 05h00

A imagem do milionário que “aposta” quantias exorbitantes no mercado financeiro não pode estar mais distante da realidade do novo perfil de investidor na B3, a Bolsa brasileira. Com a redução da idade média das pessoas físicas com conta na Bolsa, o pequeno investidor passou a dominar. Hoje, 56% dos clientes da B3 têm renda mensal de até R$ 5 mil e só aplica R$ 50 no primeiro aporte em suas carteiras.

Como o novo perfil reúne pessoas para quem o dinheiro perdido em um momento de baixa no mercado pode fazer muita falta, o presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), Reinaldo Domingos, faz um alerta sobre a necessidade de diversificação da carteira entre opções de renda fixa e variável. “O investidor precisa separar apenas aquele recurso que sabe que não vai fazer falta e entender quais são seus objetivos de curto, médio e longo prazo”, diz o especialista.

Isso porque, além do incentivo vindo dos bancos e corretoras, uma grande quantidade de produtores de conteúdo sobre renda variável já está capitalizando o nicho de jovens investidores. Diretor da B3 responsável pelo relacionamento com clientes e pessoas físicas, Felipe Paiva explica que a Bolsa está atenta a esse movimento – e tem tentado esclarecer as regras do investimento. “Muitos estão investindo para aprender. A ideia é mostrar que esse investimento é de longo prazo e não é uma corrida de 100 metros”, afirma.

É por isso que muita gente prefere testar o investimento em ações aos poucos. Esse é o caso da professora universitária Jéssica Silva, 31 anos, que há um ano estreou na B3 com um investimento mensal na casa de R$ 600. “Antes, só usava a poupança para guardar meu dinheiro, mas decidi mudar para conseguir ter um rendimento maior no longo prazo”, diz. 

Jéssica contratou assessoria de investimentos por causa da sua falta de experiência. “Meu assessor tem a função de me guiar na hora de decidir em qual empresa investir. Ele me fala o código da ação e só vou e faço a compra”, explica. 

Reclamações 

E há ainda o fato de que nem todos estão cientes das regras do mercado. Entre as principais dúvidas sobre encargos na compra de ações, estão a taxa de corretagem – prática já quase extinta no Brasil – e também a cobrança por custódia dos papéis. 

Outro mecanismo que tem levado investidores a fazer um pedido formal de ressarcimento é a liquidação compulsória. Pouco conhecida entre os novatos no mundo das ações, trata-se de um mecanismo que permite que as corretoras zerem as posições dos clientes quando um determinado patamar de perdas é atingido.

A ordem para encerrar a operação é automática e pode ter custo alto. “O número de pessoas no mercado cresceu muito – e o processo de comunicação desse mecanismo não é trivial”, afirma André Demarco, diretor de autorregulação da BSM Supervisão de Mercados.

Adeus 

Diante dos riscos e regras, há quem decida voltar à renda fixa. É o caso do estudante Yuri Modesto, 22 anos, que chegou a abrir uma conta na B3, mas desistiu da ideia três meses depois. “Não quis continuar pela questão do Imposto de Renda e também porque não tenho noção sobre como fatores externos, como a política, podem influenciar nos resultados (das ações)”, diz. 

País ganhou 2 milhões de novos investidores em ações em 12 meses

A Bolsa brasileira acaba de atingir a marca de 5 milhões de investidores, sendo que mais de 2 milhões compraram sua primeira ação ao longo dos últimos 12 meses. Ignorando a alta dos juros, que acaba de retornar ao patamar dos dois dígitos, o crescimento de pessoas físicas na B3, a Bolsa brasileira, continuou robusto, e a expectativa é de que o ritmo da alta seja mantido. “Antes se falava em guerra entre renda variável e renda fixa. Isso não existe”, diz Felipe Paiva, diretor da B3.

A média de crescimento mensal do total de investidores tem sido da ordem de 4%, mas um impulso extra foi registrado com a abertura de capital do Nubank, que ocorreu simultaneamente em São Paulo e em Nova York, trazendo mais de 700 mil novos compradores à B3. Segundo a Bolsa, mesmo com a volatilidade do mercado no fim do ano passado e o ciclo de alta, a taxa de retenção desse público tem sido elevada: dos que chegam, 80% investem em ações por um longo período. 

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Investidor brasileiro fica mais ‘jovem’

Levantamento da B3 mostra que idade média das pessoas físicas que aplicam em ações recuou quase 11 anos entre 2016 e 2021; atualmente, Bolsa brasileira tem 5 milhões de clientes

Wesley Gonsalves e Fernanda Guimarães, O Estado de S. Paulo

06 de fevereiro de 2022 | 05h00

Em 2020, aos 23 anos, Renan Oliveira fez seu primeiro investimento na Bolsa: comprou R$ 5 mil em ações da Cielo e da Itaúsa. Assim como Renan, trainee em um escritório de contabilidade, cada vez mais jovens brasileiros buscam a renda variável – o que levou a um “rejuvenescimento” do perfil do investidor na B3, a Bolsa brasileira. 

Levantamento feito pela B3, a pedido do Estadão, mostra que a idade média do cliente pessoa física no mercado acionário nacional recuou quase 11 anos desde 2016: a idade média do investidor na Bolsa brasileira era de 48,7 anos; no fim de 2021, ficou em 37,9 anos. 

Mas o que quer o investidor que busca o mercado de ações logo no início da vida financeira independente? Renan Oliveira, que consegue investir cerca de um terço de seu salário, diz que sua meta é de longo prazo. “Meu foco é ter estabilidade financeira no médio prazo e, no futuro, ter uma fonte de renda para quando eu estiver mais velho e quiser me aposentar.”

Hoje, dos 5 milhões de brasileiros com contas na B3, 62% têm menos de 40 anos. E boa parte desse “rejuvenescimento” está relacionada à entrada no mercado financeiro de um contingente de jovens que acabaram de começar a vida profissional. Um total de 600 mil brasileiros com idade até 24 anos já investe em ações, ou 12% do total.

Esse grupo foi justamente o que mais cresceu em termos porcentuais: isso porque a participação dos jovens de até 24 anos no contingente de investidores não somava sequer 1% do total há cinco anos. 

Uma das razões que facilitaram o interesse desse público por papéis de empresas foi a digitalização: com boa parte das negociações migrando para a internet, a renda variável entrou na pauta dos chamados “nativos digitais”.

Especialistas dizem, porém, ver a situação com certa cautela: investidores menos experientes podem se iludir com promessas de ganhos rápidos e que minimizam o risco inerente à Bolsa. 

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