Maioria no BCE discorda de fim imediato da compra de títulos, diz Trichet

Segundo presidente do BCE, as expectativas de inflação para a zona do euro confirmam que o BCE está cumprindo sua principal função, que é assegurar a estabilidade de preços

Priscila Arone, da Agência Estado,

18 de outubro de 2010 | 10h06

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, que afirma ser o único "porta-voz" do BCE, disse ontem que a maioria dos integrantes do conselho da entidade não concorda com a visão de Axel Weber, presidente do Bundesbank - o banco central da Alemanha -, de que a compra pelo BCE de títulos do governo emitidos pelos membros fiscalmente mais fracos da zona do euro precisa ser imediatamente interrompida. Ele já havia expressado a mesma opinião numa entrevista publicada ontem pelo jornal italiano La Stampa.

Na semana passada, Weber afirmou que os riscos de "deixar muito tardiamente" o programa de compra de títulos são muito maiores do que as possíveis implicações de "abandonar (a medida) muito cedo".

Weber é um dos possíveis candidatos - juntamente com o presidente do conselho de Estabilidade Financeira, Mario Draghi - à sucessão do BCE no ano que vem, quando acaba o mandato de Trichet.

Segundo Trichet, as expectativas de inflação para a zona do euro confirmam que o BCE está cumprindo sua principal função, que é assegurar a estabilidade de preços. "Pretendemos cumprir plenamente nossa função", disse ele, acrescentando que as taxas de juros na zona do euro, composta por 16 países, estão "de acordo" com as obrigação da autoridade monetária.

Durante uma entrevista coletiva de imprensa concedida após fazer um discurso na cidade costeira de Rimini, Trichet alertou ainda que a dívida pública acumulada, e não apenas o déficit orçamentário corrente, deve ser levada em consideração para colocar as economias de volta nos trilhos.

É uma "questão essencial que a dívida acumulada também seja considerada e não apenas no caso da Itália", disse. De acordo com ele, o sistema financeiro italiano foi mais resiliente durante a crise do que o de outros países.

Trichet reconheceu que o déficit orçamentário da Itália aumentou menos do que os dos demais países da zona do euro, mas que o déficit público do país, de cerca de 118% do Produto Interno Bruto (PIB), significa que o fortalecimento da governança econômica da União Europeia (UE) vai exigir uma vigorosa consolidação fiscal por parte da Itália.

O presidente do BCE disse não ter intenção de comentar questões referentes à moedas estrangeiras, mas reiterou que "aprecia" a postura das autoridades norte-americanas que afirmam que é do interesse dos Estados Unidos ter um dólar forte em relação às principais moedas flutuantes do mundo.

Trichet também declarou que o reequilíbrio das poupanças e dos superávits da economia global é necessário para evitar problemas futuros. Economias desenvolvidas com grandes déficits em conta corrente precisam estimular a poupança, enquanto economias emergentes com grandes superávits precisam estimular a demanda local. "Um reequilíbrio é necessário, caso contrário abriremos caminho para problemas futuros", disse Trichet, enfatizando que a questão principal é o "ritmo do reequilíbrio". Ele também afirmou que no mundo todo há um grande consenso sobre as estratégias necessárias para isso.

"É importante que não nos coloquemos na mesma posição no futuro", disse ele, referindo-se às rápidas decisões tomadas durante a crise financeira global, que exigiram grandes desembolsos de dinheiro público. "As democracias não podem se arriscar a passar novamente por uma crise semelhante", declarou Trichet.

As informações são da Dow Jones. 

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