FELIPE RAU/ESTADAO
FELIPE RAU/ESTADAO

‘Mais 800 empresas têm de se reestruturar’

Para Ricardo K., onda de reorganização se dá porque empresas se prepararam para um Brasil que não aconteceu

Entrevista com

Ricardo Knoepfelmacher, sócio da consultoria RK Partners

Cátia Luz e Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2019 | 04h00

Responsável pelas maiores reestruturações de empresas no Brasil, o sócio da consultoria RK Partners, Ricardo Knoepfelmacher, afirma que ainda há no País entre 800 e mil empresas médias que precisam passar por reestruturação. “Imaginávamos que neste momento já estaríamos com uma agenda de crescimento que ajudaria as empresas”, diz Ricardo K. como é conhecido. Ele participou de nada menos do que 115 reestruturações nos últimos anos – incluindo a maior recuperação judicial do País, a da Odebrecht.

Segundo ele, a crise econômica frustrou os planos das empresas, que haviam captado dinheiro caro para os planos de expansão e provocou a avalanche de reestruturações no País. “Elas fizeram planos para um Brasil que não se realizou e a estrutura de capital ficou inadequada”, disse. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Em 2016, o sr. falou que via mais três anos de reestruturação pela frente...

Talvez tenha me enganado. Achei que ia acabar mais rápido. Vejo três questões importantes para as reestruturações dos últimos oito anos. Durante um bom tempo, as taxas de juros eram muito altas e as empresas alavancadas. Elas fizeram planos para um Brasil que não se realizou e a estrutura de capital ficou inadequada. Aí tiveram de fazer grandes reestruturações. Isso abarca empresas médias e grandes. Na infraestrutura, teve a Lava Jato. Apoiamos a operação pela limpeza nas práticas de negócios do Brasil, mas a forma como foi feita teve um efeito colateral nas grandes empresas.

Só a Lava Jato? O ajuste fiscal não teve reflexos?

É claro. A Lava Jato e o encolhimento da agenda de infraestrutura. Não tem obra, a economia não reage. Há aí um fenômeno que não pega só as empresas de engenharia, mas como muitas dessas empresas tinham entrado em concessões públicas, há uma miríade de portos, aeroportos e estradas pedagiadas que tiveram restrições de capital no período e tiveram de ser vendidas. Imaginávamos que neste momento já estaríamos com uma agenda de crescimento que ajudaria as empresas.

Qual a situação hoje?

Estimamos que ainda há uma quantidade entre 800 e mil empresas médias, com dívidas entre R$ 100 milhões e R$1 bilhão, que necessitam de reestruturação. Essas empresas estão com alavancagem acima de 3,5 vezes o Ebitda, que é uma das referências que usamos para ver quão endividada está a empresa e qual a capacidade dela honrar a dívida. Monitoramos isso em 14 setores da economia, muito concentrados no Centro-Sul. No setor de açúcar e álcool, mais da metade das quase 400 usinas ou grupos de usineiros do Brasil estão em dificuldades.

O sr. vê diferença do cenário de 2015/2016 para o de hoje?

Estou mais otimista hoje. Tudo indica que vamos ter uma reforma da Previdência que vai deixar as finanças públicas mais saudáveis. Vejo que algumas ações que estão sendo tomadas agora vão aumentar a confiança do investidor no Brasil. A taxa de juros ainda é alta comparada com a de outros países. Então acredito que o Brasil tende a atrair novos investimentos e que a situação das empresas em geral, com uma taxa de juro menor, tende a ser menos ruim do que em 2015. Naquela época ainda havia os grandes casos para resolver, como Oi, que está terminando, e Odebrecht. Esses casos estão, de alguma forma, provisionados e endereçados.

O sr. falou que as empresas apostavam em um cenário que não se realizou. Elas erraram ou era imprevisível mesmo?

Em geral, é o efeito manada que vemos em alguns setores. Por exemplo, o setor imobiliário residencial passou por uma grande crise que veio de uma bolha onde todas as incorporadoras foram meio que atiçadas ou induzidas a entrar nos mais diferentes mercados e produtos. Todas, talvez com duas exceções, foram nessa estratégia e hoje valem entre 2% e 5% do que valiam quando abriram capital. É impressionante a destruição de valor. Mas hoje vemos que o estoque dessas unidades está acabando e que os preços começam a se recuperar. Cada setor tem suas idiossincrasias e características. Mas muitas erraram seja porque o Brasil não deu certo ou por decisões estratégicas.

Quais os sintomas da necessidade de reestruturação?

Tem alguns sinais. Primeiro são os problemas de gestão, sejam decisões estratégicas mal sucedidas ou controles deficientes. E aí na questão de gestão, talvez um apêndice especial para questões de compliance. Se uma empresa tem uma prática ruim, foi pega fazendo uma coisa errada, vai virar inidônea e vai ter de assinar um acordo de leniência para poder continuar prestando serviço para o poder público, isso não deixa de ser um problema de má gestão que precisa se resolvido. O segundo é a estrutura de capital inadequada. E esses sintomas estão ligados. Um erro de gestão pode levar a empresa a ficar mais endividada do que a capacidade de geração de caixa para pagar a dívida. Esse é o melhor sintoma que para avaliar se a empresa precisa de reestruturação. Há também a questão da contaminação de grupo econômico. Temos vários casos dessas empresas da Lava Jato que embaixo tinham concessões de qualidade e autossustentáveis, mas, de uma hora para a outra, quando o controlador foi pego em um problema de compliance, o crédito para a empresa subsidiária também acabou. Então o plano de negócio que ela tinha também não vai ser executado. Há ainda a deterioração de mercado. As empresas erraram ou o mercado não estava lá? Às vezes,  tem os dois fatores. A empresa errou porque confiou demais no governo ou numa melhoria do mercado. E, por último, às vezes uma empresa decide por uma diversificação, o setor dela não está indo muito bem, ela resolve diversificar para outro setor. Aí ela não vai bem nem no setor dela nem nos outros que ela diversificou. Esses são sintomas de que a empresa precisa ser reestruturada, precisa de um antibiótico.

As empresas demoram para entender que precisam se reestruturar?

Esse é o grande problema. Há uma negação natural de a empresa entender que ela precisa se reestruturar. Às vezes, esse tempo é demasiado e a deterioração chega num ponto de não retorno. Mas é muito raro que não haja nada que possa ser feito. Mesmo em casos graves, no geral, consegue-se algum tipo de solução. Mas se a adesão tivesse sido tomada um ano antes muitos ativos e a saúde financeira do grupo estariam preservados.

E com toda essa onda de reestruturação isso não mudou nada?

Eu entendo que tem um pouco a ver com a natureza humana e com a capacidade das empresas de criarem os alertas necessários. Então, não vejo que mudou muito por incrível que pareça.

E por que essa negação?

A visão do gestor é uma visão otimista, de que as coisas podem melhorar, de tentar mais um pouco. Eles demoram um pouco para entender que o interlocutor externo, um assessor externo, vai poder fazer essa mediação melhor. Então elas acabam entrando numa armadilha muito comum que é empurrar o problema para frente, às vezes, com a própria concordância do banco. O banco acha melhor não atacar estruturalmente o problema e simplesmente prorrogar um empréstimo. Tudo bem, prorrogou, deu mais dois anos para ver se empresa melhora, aí daqui a dois anos a empresa tem mais dois anos de juro e não houve melhora. A empresa precisa ter um diagnóstico bem feito. O que é que nós precisamos atacar e como é que se resolve o problema estrutural. Não só empurrar o problema um tempo, pois ele vai estourar um pouco na frente.

É do interesse do banco empurrar?

Depende. Acredito que hoje isso já mudou e melhorou muito. Durante um tempo os bancos não estavam preparados para esse tsunami de casos de reestruturação que é o que a gente viu acontecer nos últimos cinco anos. Hoje não acredito que eles empurram mais tanto problema. E quando eles veem que um problema vai acontecer, mesmo que do ponto de vista do Banco Central ele não precisa provisionar, ele já provisiona antecipadamente. São mais proativos.

Quantas reestruturações vocês fizeram nos últimos anos?

A gente tem uns 115 casos nos últimos anos. Desses, só tivemos 12 recuperações judiciais e nunca tivemos nenhuma falência em todos os projetos de reestruturação. Acreditamos que a recuperação judicial é o último remédio para se usar. Às vezes, há um ataque de um credor e aí não tem jeito.

Há diferença entre credor interno e externo?

O credor doméstico normalmente, com algumas exceções, não ataca porque sabe que ao atacar ele pode deflagrar o processo da recuperação judicial da empresa. Então aumenta muito a chance de ter de provisionar muito e ter uma perda. Em geral o banco brasileiro tende a não atacar o devedor mesmo quando tem essa prerrogativa. Por outro lado, tem o banco internacional ou bondholder (detentor de um título) que não tem um compromisso de longo prazo com aquela empresa. Sempre falo para os meus clientes, que são empresas, eu digo o seguinte: vamos tomar muito cuidado com qual é a postura que a gente tem de ter com banco. Porque a empresa vai precisar se refinanciar no futuro e não é preciso criar uma ruptura nessa relação.

Esse mercado amadureceu?

A lei de recuperação judicial, que substituiu a antiga lei de concordata e falência, é uma lei de 13 anos, é uma lei relativamente jovem. Ela tem algumas lacunas ou algumas diferenças com relação a outros países que tem há várias décadas legislações semelhantes. Por mais que ela tenha sido inspirada na legislação americana, um dos grandes problemas da nossa lei de recuperação judicial é que é difícil  implementar o que se chama lá fora do DIP finance, é dinheiro que justamente na hora que ela entra na recuperação judicial é dado por um credor e que em tese teria total prioridade a qualquer outro crédito da companhia. Uma das lacunas – e eu entendo as razões políticas que não permitiram fazer diferente – é que a questão trabalhista no Brasil e a questão tributária têm um tratamento muito diferente. Por exemplo, tributo no Brasil não entra na recuperação judicial. Pode-se reestruturar tudo, mas se a empresa tiver uma grande dívida fiscal, ela vai ter de aderir a um dos programas de parcelamento, de anistia, ela não pode ser reestruturada lá dentro.

Isso não é um dos motivos para o fracasso das empresas em recuperação judicial?

Sem dúvida. Aí ela morre de asfixia. O que mata a empresa é o problema de liquidez, às vezes não é nem o problema patrimonial. Às vezes uma empresa é sólida patrimonialmente, mas ela quebra por problema de liquidez. Outro é a Justiça trabalhista. Há prioridade total nos créditos trabalhistas. Se uma empresa é muito intensiva em mão de obra e tem a conta trabalhista muito grande também é difícil sair disso porque tem de ser dado a prioridade. É difícil um credor novo dizer que vai botar o dinheiro, mas vai ficar atrás do trabalhista e do Fisco. Esse é um dos problemas. Têm várias mudanças que estão sendo analisadas pelo Congresso, mas a passos de cágado.

E lá fora esse credor preferencial passa a frente do trabalhista?

Lá fora sim. Nós fizemos os primeiros grandes casos do Brasil. No caso da OGX, os próprios bondholders resolveram dar dinheiro para ela terminar a prospecção no Campo de Tubarão Martelo. O credor via que se não desse esse dinheiro adicional ela não conseguiria faturar e sem faturar não conseguia pagar a dívida. Eles aceitaram não só converter a dívida em capital, mas deram dinheiro novo. Isso é muito típico nos Estados Unidos e Europa. No Brasil é muito raro. Há ainda uma questão de jurisprudência. Fora do eixo Rio-São Paulo não há varas especializadas. Aqui são mais sofisticados. Os juízes de fato já estudaram a lei, já tem jurisprudência consolidada, os casos são parecidos e aí eles já têm uma casuística que permite decisões mais céleres, de acordo com o padrão. Fora desse eixo, é um juiz comum que trata de muitos assuntos diferentes inclusive recuperação judicial. A criação de varas especializadas ajudaria muito para que as recuperações fora do eixo Rio-São Paulo fossem mais eficientes e rápidas.

O sr. falou da negação das empresas pela reestruturação. E depois que elas entram, é difícil convencer a tomar uma medida mais drástica.

Eu entendo que infelizmente a recuperação judicial ainda tem um estigma. Não é mais uma concordata, mas há empresários que ainda são de uma época em que em que a concordata era um palavrão e que fazem uma analogia da concordata com a recuperação. São instrumentos muito diferentes. De fato, a recuperação judicial quer recuperar a empresa, não quer dar um calote. Antes, quando uma empresa entrava em concordata, os valores eram congelados e a inflação basicamente ia comendo os créditos e, no fim, se dava um calote. Hoje não é assim mais. Esta mudando. Não é absoluto, não é binário, não é fácil convencer. Acredito que a questão reputacional ainda atrapalha um pouco, mas é melhor encarar o problema de frente do que deixar ele se agravar.

Há apetite de investidores por empresas em reestruturação aqui?

Hoje o grande apetite é dos chineses por empresas de infraestrutura. Não vejo muito apetite das outras porque há problemas. No caso de empresas em geral, a tendência é melhorar. Mas não acredito que a aprovação da reforma da Previdência já virou na cabeça do investidor estrangeiro de que o Brasil é o país da vez. Ainda quando olham o mapa mundial há outras prioridades, apesar de a gente ter instituições estáveis, bem melhores que a Rússia, que a Índia, que outros Brics. Mas o mundo em geral está indo bem, tá crescendo e o Brasil tá andando de lado. Então entendo que eles estão querendo primeiro ver 1, 2 ou 3 trimestres de crescimento para poderem vir para cá.

O Brasil precisa dar algum sinal mais claro?

Na medida que a economia melhorar e o consumo melhorar, aí acredito que eles vão vir. Hoje sou cético. Há muita oportunidade para comprar empresa em dificuldade no Brasil; alguns family offices daqui estão se posicionando porque eles estão acostumados com o risco Brasil e com o cenário. O estrangeiro está muito recolhido nesse momento para entrar nesses grandes casos de reestruturação. Agora eu sou especialista em reestruturação. Pode ser que outros setores haja alguma coisa.

O sr. está otimista com o País?

Hoje há uma agenda liberal, de melhora de produtividade, vai ter uma onda de privatização que estava sendo preparada. Estou mais otimista porque a situação está melhor que no final do governo (Michel) Temer, que estava numa paralisia. Mesmo debaixo de muita crítica, há instituições sólidas. Apesar de toda turbulência, há uma pauta de Brasil limpo.

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