Mantega ameaça elevar IOF para barrar entrada de dólares

Moeda estrangeira viria depois das medidas do governo americano de injetar dólares na economia

Jamil Chade, enviado especial de O Estado de S.Paulo,

21 de setembro de 2012 | 06h25

Texto atualizado às 12h23

LONDRES - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, ameaça elevar o IOF para conter uma entrada de capital especulativo gerado pela intervenção do Fed, atuar no câmbio e classificou como "absurda" a acusação do governo americano de que o Brasil estaria proliferando suas medidas protecionistas.

O ministro esteve hoje em Londres, onde participou de um seminário organizado pelo grupo Economist sobre mercados emergentes. O objetivo era mostrar a potencialidade da economia brasileira. Mas dedicou parte de sua intervenção a investidores estrangeiros para acusar países ricos por inundar recursos no mercado, com ações do Fed e do BCE. Ele garantiu que o Brasil irá reagir se for afetado e aponta que são essas medidas, e não as barreiras brasileiras, que deveriam ser consideradas como protecionismo.

Há dois dias, o Estado revelou que a Casa Branca enviou uma dura carta ao governo brasileiro, alertando que a adoção de medidas protecionistas poderia ameaçar a relação bilateral.

Num momento do discurso de 30 minutos, Mantega pediu licença para "protestar" contra essas acusações. Usando dados da entidade Global Trade Alert, Mantega insistiu que o Brasil estava "distante na fila" dos países que mais adotam barreiras. Segundo ele, Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha estariam á frente do Brasil. "Nós perdemos de longe da maioria dos países, e inclusive somos o segundo que mais adotou medidas liberalizantes", afirmou. "Somos muito menos protecionistas que Reino Unido, Alemanha. Pelo contrário, nós até temos feito medidas de liberalização da atividade comercial brasileira", destacou.

Mantega ainda contra-atacou, com ameaças. "É um absurdo, porque os Estados Unidos adotaram um número muito maior de medidas protecionistas que o Brasil. Além de medidas diretas de protecionismo, ainda temos o "quantitative easing" (injeção de recursos na economia pelo Fed, o banco central dos EUA), que é uma forma indireta de protecionismo, porque desvaloriza a moeda local, reduz o valor do dólar, e um dos objetivos disso é poder aumentar as exportações americanas", afirmou.

IOF

A tese defendida pelo Brasil é de que esses mercados já estão saturados de liquidez e a injeção de mais dinheiro não apenas não resolve a crise, como transfere o problema para os demais países, afetando as moedas de emergentes. Isso porque os recursos acabam sendo investidos no mercado especulativo no Brasil, pressionando o real.

Mantega alerta que se a nova injeção de dinheiro do FED e a política de apoio "ilimitado" o BCE começar a afetar o Brasil, o governo não descarta medidas drásticas, entre elas o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para conter a entrada de capital especulativo.

"Uma parte dessa liquidez acaba migrando para países emergentes e isso é um defeito da medida. Ela não tem uma contraparte de política fiscal que atrair para a produção.

Se houver um grande fluxo de capital americano, nos teremos de compra-los, vamos aumentar reservas ou vamos fazer operações no mercado de derivativos, compras no mercado futuro. Se não for suficente, tomaremos medidas de taxação de IOF, como já fizemos no passado", alertou.

Mantega ainda prometeu levar o tema ao G20, uma vez mais. "O que queremos é que todos tenham condições de crescer, de expandir o PIB de expandir no mercado internacional. O que não podemos é tentar resolver os seus problemas às custas de outros países. Nós temos estimular o mercado interno, ajudar os EUA a fazer política fiscal. Entendo que há um problema político, mas espero que venha ocorrer. Em algum momento eles vão ter de fazer políticas fiscais", completou.

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