Mantega diz que sinais da crise começam a preocupar

Ministro da Fazenda disse que se preocupa com os sinais que mostram que a economia chinesa começa a desacelerar e na possibilidade do país reduzir importações do Brasil

Francisco Carlos de Assis, da Agência Estado,

21 de outubro de 2011 | 14h09

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reiterou nesta sexta-feira, 21, que as economistas dos países emergentes, principalmente as mais dinâmicas, ainda não foram acertadas pela crise econômica mundial. De acordo com ele, essas economias continuam apresentando taxas de crescimento maiores, tanto que a previsão dele para os emergentes nos próximos anos é de 6%, em média. No caso do Brasil, Mantega prevê uma taxa de crescimento média de 5% no período de 2012 a 2015.

Apesar de afirmar que as economias emergentes ainda não foram afetadas, o ministro disse que começa a se preocupar com alguns sinais, ainda que incipientes, de contágio dos emergentes pela crise mundial. "E isso me preocupa, já que há alguns sinais incipientes de que a China poderá ter alguma desaceleração. A economia chinesa se mostrou bastante sólida ao longo dos últimos 20 anos, só que agora começa a ter problemas sérios", disse o ministro durante aula inaugural da escola de pós-graduação da Faculdade de Campinas (Facamp). A preocupação de Mantega em relação à China reside na possibilidade de aquele país reduzir as suas importações. Ele ponderou, no entanto, que a desaceleração chinesa é um fenômeno recente.

No caso do Brasil, o ministro reafirmou que há necessidade de manter os fundamentos econômicos sólidos. Ele citou como exemplo o fortalecimento da política fiscal, que é onde outros países estão registrando problemas. "Aqui, nós implantamos uma política fiscal sólida. Nesse sentido, nós vínhamos perseguindo um superávit primário de 3%, aumentamos a meta com mais R$ 10 bilhões e fecharemos este ano superávit de 3,3% do PIB", disse o ministro ao acrescentar que 75% da meta para este ano já foi alcançada.

O ministro destacou também que o ajuste fiscal abre espaço para redução de taxa de juros no Brasil e lembrou que na última quarta-feira o Banco Central cortou a Selic em 0,50 ponto porcentual, para 11,50% ao ano. Ainda assim, segundo ele, a taxa de juros no Brasil é uma das maiores do mundo, o que oferece vantagens e desvantagens para as autoridades econômicas em relação a outras economias. A vantagem é que o Banco Central brasileiro tem espaço para cortar juros e a desvantagem é ainda termos juros elevados.

Segundo Mantega, a dívida brasileira em relação ao PIB tem diminuído, enquanto outros países têm aumentado. Ele lembrou que a dívida na proporção do PIB caiu de 40,2% no ano passado para cerca de 39% em 2011. Inflação

Mantega acrescentou ainda que dentre os fundamentos econômicos o principal é manter a inflação sob controle. Ele lamentou a elevação do nível de inflação no mundo, mas disse que, no Brasil, a tendência é de queda nos preços. "Infelizmente, tivemos um surto de inflação mundial, onde países onde o Reino Unido, por exemplo, que deve crescer 1% este ano, está com inflação de 5%", afirmou.

No Brasil, de acordo com ele, a inflação está em 7,3% no acumulado de 12 meses. "Mas é o passado que nós estamos olhando. Se olharmos para frente, a inflação já está caindo e devemos terminar este ano com inflação no limite superior da meta (6,5%)", disse. Ele acredita que, se as projeções de queda nos preços das commodities se confirmarem, a inflação deverá se desacelerar ainda mais.

Segundo Mantega, o País está preparado para enfrentar um aprofundamento da crise, já que dispõe de "algo que falta no resto do mundo, demanda". "Essa demanda foi construída pela classe média", declarou ao lembrar que o Brasil é o país que mais gera empregos no mundo.

Uma das consequências de se ter um mercado interno robusto é que o país acaba sendo atacado de forma predatória. Por conta disso, o país tomou algumas medidas, entre elas a elevação de IPI para carros importados. "E o Brasil continuará tomando medidas", afirmou.

De acordo com ele, a confiança no Brasil justifica o fluxo de investimentos que desembarca no país. "Sem medidas no câmbio, o dólar estaria abaixo de R$ 1,30", disse ao justificar as medidas para conter a desvalorização do dólar. Ainda, de acordo com Mantega, o mundo passa por uma guerra cambial, o que ajuda na manipulação do comércio.

Reunião do G-20

Mantega, disse também que pedirá uma solução para os problemas relacionados à crise europeia na reunião dos líderes do G-20 que acontece em Cannes, na França, no começo de novembro. De acordo com ele, há um perigo de que a crise da dívida soberana grega afete a economia de países maiores da região.

Mantega explicou que os países desenvolvidos ainda não se recuperaram da crise de 2008. "Temos pela frente a possibilidade de uma crise soberana, se não, no limite, a possibilidade de uma nova crise financeira", afirmou.

Para o ministro, o ajustamento da crise mundial deverá ocorrer no prazo de três a quatro anos. "Mas, hoje, o epicentro da crise é a Europa e o ''Calcanhar de Aquiles'', a Grécia, que tem dificuldade para administrar sua dívida soberana", continuou Mantega. O ministro acrescentou que, agora, a discussão é o tamanho do "haircut" da estruturação dessa dívida e quem vai arcar com esse custo.

Na avaliação de Mantega, os bancos credores teriam que cortar cerca de 50% do valor devido pelos gregos, "que não é pequeno". O ministro lembrou que a economia mundial passa por momento complicado e que as projeções são de crescimento baixo nas economias avançadas. Para esse ano, por exemplo, ele projeta crescimento perto de zero na média das economias europeias, avanço de 1,5% para os EUA, expansão de 3,8% para o Brasil e de 9,5% para a China.

"As economias emergentes, mais dinâmicas, não foram afetadas até agora. Mas se a crise se aprofundar, também afetará os emergentes e nós sofreremos a consequência disso". No entanto, Mantega avalia que o Brasil está preparado para enfrentar tais efeitos.

(Texto atualizado às 15h18)

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