McDonald's é proibido de abrir as portas na Rússia

Vigilância sanitária fecha quatro lanchonetes em Moscou e promete fechar outras, em meio às sanções dos Estados Unidos contra a Rússia

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2014 | 09h15

GENEBRA - O governo russo fechou quatro lojas da rede McDonald's em Moscou e ameaça dezenas de outras pelo país, numa ação que tem sido acompanhada na Europa e EUA como parte de uma retaliação do Kremlin contra as sanções impostas pelo Ocidente por conta da crise na Ucrânia. Símbolo do Ocidente, a rede é acusada de "vender produtos fora das normas técnicas".

Oficialmente, os quatro McDonald's na capital foram fechados por "violar regras sanitárias". Entre as lojas que foram alvo está a da praça Pushkin. A lanchonete foi a primeira a ser aberta da rede americana, antes mesmo do colapso da União Soviética. Naquele momento, ela simbolizou a abertura do governo de Mikhail Gorbatchev. Na semana da abertura da loja, em 1990, os russos passaram horas em filas para poder comprar seus sanduíches.

A decisão de fechar as lojas vem depois de que o Kremlin adotou um embargo contra alimentos, frutas e carnes da Europa e EUA, numa atitude que criou um acalorado debate no Ocidente e principalmente entre os exportadores.

Agora, o governo russo promete continuar as inspeções contra as lanchonetes da rede americana que, na Rússia, conta com 430 estabelecimentos em 70 cidades diferentes. No total, o McDonald's emprega 35 mil russos. A decisão de atacar a rede ocorre mesmo depois que o McDonald's foi o restaurante oficial dos Jogos Olímpicos de Sochi, disputado em janeiro.

O debate sobre a qualidade dos produtos da rede começou no final de julho. Agências de qualidade do governo abriram um processo contra o McDonald's acusando a rede de violar normas no que se refere ao conteúdo de gordura, proteína e calorias em seus menus. "Violações foram encontradas e que colocam em dúvida a qualidade e segurança dos produtos", declarou a chefe da inspeção sanitária da Rússia, Anna Popova.

A rede, que controla todas suas lojas pelo país, apenas indicou que está estudando "todas as medidas necessárias" para reabrir suas lanchonetes. Mas garante que 80% do queijo e leite que compra para fazer seus produtos são fornecidos por empresas russas. Jornais russos publicaram o resultado de uma pesquisa divulgada pelo governo indicando que mais de 60% dos entrevistados na Rússia aceitariam fechar "todas as lojas" da rede.

Não é a primeira vez que assuntos sanitários são envolvidos em debates políticos. Depois da guerra entre a Geórgia e a Rússia, o vinho georgiano foi vetado pela mesma agência, alegando problemas de qualidade. O queijo da Ucrânia também passou a ser vetado depois do conflito com Kiev.

Bancos. Ontem, quem também alertou para o impacto das sanções foi o banco holandês Rabobank. "As consequências de um conflito comercial com a Rússia representam um fator de incerteza", disse. "Assumimos que não haverá uma escalada no conflito. Mas se isso ocorrer, uma desaceleração da economia em 2014 e 2015 não pode ser excluída", alertou.

O recado foi mais uma confirmação do setor privado Ocidental de que uma crise mais aguda entre Rússia, EUA e Europa pode ter um impacto negativo para o esforço dos mercados desenvolvidos a voltar a crescer. Ontem, o banco indicou que seus lucros foram reduzidos em 3%, para 1,1 bilhão de euros.

Crise. Em abril, o McDonald's fechou temporariamente três restaurantes na Crimeia após o anúncio das sanções lideradas pelos Estados Unidos contra a Rússia depois da anexação da península ucraniana. 

Na época, autoridades da Crimeia disseram que o país pode viver sem os restaurantes da rede americana McDonald's, que foram fechados após a confirmação da anexação à Rússia. "Não há nada de horrível", afirmou o comunicado oficial sobre a decisão da rede de lanchonetes de abandonar a Crimeia.

A decisão do McDonald's sobre o fechamento de três restaurantes na península foi anunciada depois que 97% dos habitantes da Crimeia optaram por voltar a fazer parte da Rússia.

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