Medidas para indústria só devem sair no 2º semestre, diz Fiesp

Conjunto de medidas deve incluir desonerações e pesados incentivos à inovação e aos investimentos, além do reforço nas linhas de financiamento para a exportação  

Francisco Carlos de Assis, da Agência Estado,

29 de junho de 2011 | 14h47

O conjunto de medidas em estudo pelo governo Dilma Rousseff com o objetivo de mitigar os impactos da apreciação cambial sobre a atividade da indústria só deve ser lançado a partir do segundo semestre, quando o governo deverá começar a se preocupar menos com a inflação. A previsão é do diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Francini.

De acordo com ele, a entidade tem acompanhado os estudos e as negociações em torno das medidas. Entretanto, diz, "a discussão estava mais acesa 60 dias atrás do que está hoje". Isso, de acordo com Francini, porque de lá para cá entrou no radar do governo a preocupação em conter a inflação. "Todas as medidas esbarram na cautela com a inflação, e ainda tem a questão fiscal", lamentou.

O conjunto de medidas, segundo afirmou no começo deste mês o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Fernando Pimentel, deverá incluir desonerações e pesados incentivos à inovação e aos investimentos, além do reforço nas linhas de financiamento para a exportação. Mas a avaliação de Francini é de que, enquanto o foco da equipe econômica estiver na inflação, as medidas não sairão. "Eu acho que as discussões voltarão a campo só a partir do segundo semestre. É o mais propício", explicou, acrescentando que quando isso acontecer o ministro Pimentel poderá anunciar medidas como proteção à indústria e antidumping.

Apesar de estar vendo as discussões se transferirem para a segunda metade do ano, Francini diz não estar cético quanto ao resultado que poderá sair dos estudos em andamento pelo governo. Quanto à possível dificuldade de alguns setores da indústria em cumprir parte do pacote, que prevê investimentos em inovação, o diretor da Fiesp diz não ver grandes problemas. De acordo com ele, na questão de compra de máquinas, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) continua aberto para fazer os financiamentos necessários e o Programa de Sustentação do Investimento (PSI) foi renovado.

"A questão da competitividade, sim, é um grande problema por conta do câmbio", diz Francini, para quem as medidas de restrição à entrada de capital externo no Brasil, como a tributação via Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), levou os dólares a passarem a entrar no País disfarçado de Investimento Estrangeiro Direto (IED), mantendo o câmbio apreciado e favorecendo o ingresso de produtos importados em território nacional.

Inflação

Francini, ainda voltou a afirmar que o ano de 2011 não será fácil para a indústria de transformação. Além da taxa de câmbio fora do lugar, na avaliação da indústria, que aparece na primeira fileira dos principais fatores que contribuem para a deterioração da atividade fabril, o executivo também culpa a inflação.

De acordo com o diretor da Fiesp, todas as medidas adotadas pela equipe econômica do governo com o objetivo de conter a inflação caminham no sentido de reduzir a atividade econômica. "Só por isso a indústria já seria afetada. Adiciona-se a isso a taxa de câmbio agressiva", reclamou Francini, em entrevista  na sede da entidade, após divulgação do Indicador do Nível de Atividade (INA) de maio.

O INA cresceu 1% em maio na comparação com abril, já considerando os ajustes sazonais, mas os dados de abril foram revisados para baixo tanto na série com ajuste sazonal com na série, sem ajuste. O INA de abril, com ajuste sazonal, foi revisado de uma alta de 0,6% para uma queda de 0,4%. E na série sem ajustes, o nível da atividade em abril foi revisado de uma queda de 2,2% para uma queda ainda maior, de 4% na comparação com março.

Para Francini, enquanto o PIB neste ano deverá crescer à razão de 4%, a indústria de transformação deverá encerrar com uma expansão de 3%, mas com um detalhe: a maior parte deste avanço decorre do carregamento estatístico do bom desempenho do setor no ano passado. "Um PIB de 4% não é de chorar, mas para a indústria de transformação, o ano não será nada fácil", disse.

Francini também recorreu a dados da Pesquisa Sensor Fiesp - que mede a confiança dos industriais - para demonstrar seu desapontamento em relação ao cenário econômico e seus impactos sobre a atividade industrial. O Sensor, que em março esteve em 56,9 pontos, caiu para 54,9 pontos em abril, foi a 52,2 em maio e agora em junho caiu a 50,3 pontos. De acordo com Francini, de modo geral, o Sensor tem rodado próximo de 50 pontos, ou perto do que ele chama de neutralidade.

O estoque, por exemplo, que é um dos cinco itens que compõem o Sensor da Fiesp, que em abril tinha atingido 53,5 pontos, volume indesejável, passou para 44,3 pontos em maio e agora em junho voltou a subir, para 47,8 pontos. Isso ocorreu, de acordo com o diretor da Fiesp, porque as expectativas dos industriais com relação a demanda em junho não se concretizaram. As vendas, que em abril tinham atingido 52,6 pontos, foram a 51,3 pontos em maio e a 50,5 pontos em junho. "Como as vendas caíram, as expectativas em relação ao aumento da demanda acabaram se revertendo em estoques", observou. 

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