Werther Santana/Estadão - 18/6/2021
Werther Santana/Estadão - 18/6/2021

Medo de 'gastança' do governo e ameaças à democracia podem pôr fim à 'festa' dos IPOs

Risco-país aumentou com turbulências internas e externas, incluindo a situação no Afeganistão; em resposta, aberturas de capital já começam a ser adiadas, com empresas à espera de um cenário menos volátil

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 05h00

A percepção de uma elevação do risco no Brasil, que vem afetando o desempenho do Ibovespa – o principal índice da Bolsa brasileira, a B3 – já começou a fazer as primeiras vítimas entre as candidatas a IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês). A Vittia, empresa do setor de agricultura, estava pronta para ir a mercado, mas decidiu aguardar. O Banco de Brasília (BRB), que planejava sua oferta para setembro, também vai esperar um contexto mais favorável.

A leitura é de que as mais de 20 empresas com pedido de registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que já começaram a testar o apetite do mercado, devem aguardar um cenário de menos volátil e de menor aversão ao risco para lançar suas operações, conforme apurou o Estadão. Isso vale tanto para as estreantes como eventuais ofertas subsequentes de ações (follow-on).

Uma fonte de mercado destaca que a fila de candidatas para abrir capital em outubro e novembro é grande e que as companhias continuarão fazendo o pedido de registro ao regulador para estarem preparadas, mas que somente irão a mercado para valer se a volatilidade cair.

Entre as candidatas para uma abertura de capital estão a fabricante de alimentos Dori Alimentos, a rede de academias Bluefit, a Ammo Varejo (dona da MMartan) e a rede de restaurantes Madero, entre outras. Ontem, a fabricante de meias Lupo protocolou pedido na CVM para chegar à B3 em breve.

O ano tem sido bastante positivo para as ofertas de ações no Brasil, com o volume financeiro das emissões superando os R$ 120 bilhões já batendo o recorde de 2020. Até aqui, as ofertas vinham conseguindo driblar a cautela em relação à pandemia, estimuladas pelos juros em um dígito.

Múltiplas pressões

No entanto, além das pressões externas – como a situação do Afeganistão, que eleva a pressão sobre o presidente dos EUA, Joe Biden –, o risco Brasil deu um salto, o que tem afetado as expectativas do mercado em geral e reduzido o preço de todos os ativos.

Além de o Ibovespa já ter zerado a valorização do ano e o dólar ter voltado para a faixa de R$ 5,30, o Brasil enfrenta um aumento das incertezas fiscais. Há ainda a leitura de que o aperto monetário pelo Banco Central poderá ser maior do que o inicialmente esperado, pois a inflação está em alta. A prova disso é que já há títulos do governo prefixados sendo negociados no Tesouro Direto com uma rentabilidade em dois dígitos.

 


Além disso, a tensão política está crescendo, com o pano de fundo da posição cada vez mais conflituosa do presidente Jair Bolsonaro com o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No último sábado, Bolsonaro afirmou, por exemplo, que pediria ao Senado a abertura de um processo de impeachment contra os ministros do STF Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes.

“Estamos vendo uma combinação extremamente negativa, com um ruído político forte, situação fiscal se deteriorando de forma rápida, cenário inflacionário e o custo de capital subindo”, explica o presidente da corretora BGC, Ermínio Lucci

Para o sócio e gestor da gestora JGP, Marcio Correia, o mercado “perdeu a paciência” com a confusão macropolítica. “Ninguém sabe o que vai acontecer com os auxílios que o governo está desenhando para a população, com os precatórios que tiveram as regras alteradas e também com a reforma tributária”, resume. Todos esses fatores tendem a contribuir para um desequilíbrio nas contas do governo. Sinal, para o mercado, de que é hora de pôr o pé no freio.

Novatas em queda

Outro fator que pesa para atrapalhar novas ofertas de ações é o desempenho negativo de muitas empresas que recentemente abriram o capital. “O mercado está mais desafiador para novas ofertas de ações, principalmente para as pequenas e emissões menores, dado o que estamos vendo no cenário interno e externo”, diz Lucci.

A rede médica especializada no tratamento de câncer Oncoclínicas, que estreou na B3 há um pouco mais de uma semana, já acumula queda de 18%, enquanto o brechó online Enjoei, que abriu capital o fim do ano passado, perdeu 40% de valor desde então.

O Mosaico, dono do site Buscapé, já caiu 44% desde seu primeiro pregão. As empresas do setor de tecnologia estão sendo mais afetadas com os investidores preferindo retornar para nomes de empresas mais maduras neste momento de mau humor.

A visão negativa é corroborada pelo analista-chefe da casa de análise Eleven Financial, Raphael Figueiredo, já que a queda nos preços das empresas que recém chegaram à B3 eleva a pressão sobre as candidatas a novas emissões. “Começa a existir uma competição por essa liquidez do mercado, e fica mais difícil lançar as ofertas.”

Clima era de euforia

Seis meses atrás, o ânimo no mercado brasileiro era bem diferente do manifestado nesta semana. O assunto era o recorde de aberturas de capital (IPOs, na sigla em inglês). Nos primeiros 45 dias do ano, 13 empresas ingressaram na Bolsa brasileira. Somando essas operações às emissões de ações de empresas que já estavam na Bolsa, os valores movimentados alcançavam o volume de R$ 33 bilhões – mais de cinco vezes superior ao maior registrado no boom anterior de oferta de ações no Brasil, o primeiro bimestre de 2007.

Com base nesse desempenho que abriu 2021, instituições financeiras revisavam projeções de ofertas de ações para o ano. Chegavam a apontar um volume de mais de R$ 200 bilhões para 2021, ante uma projeção média anterior de R$ 150 bilhões. Para se ter uma ideia, em 2020, o volume financeiro de todas as operações no Brasil somou R$ 117 bilhões.

No início de 2021, a fila de candidatas a uma abertura de capital estava extensa, com mais de 30 empresas com pedido na Comissão de Valores Mobiliários. /COLABOROU CYNTHIA DECLOEDT

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