Rafael Arbex/ESTADAO
Rafael Arbex/ESTADAO

Medo de Wesley eram as consequências da prisão para o futuro da empresa

Segundo executivo, ‘nada teria valido a pena’ se a empresa da família acabasse quebrando

Renata Agostini, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2017 | 13h38

A prisão simultânea dos dois irmãos era o que Wesley Batista dizia mais temer. O empresário afirmava recear por sua segurança e a de Joesley caso fossem parar na cadeia e pelos efeitos para a empresa se ambos ficassem afastados.

Há pouco mais de um mês, quando considerava afastado o risco de que fossem presos, afirmou a um interlocutor que o medo de que amanhecessem os dois numa cela levou-os à delação. Nas palavras de Wesley, "nada teria valido a pena" caso as vidas dele e do irmão ficassem sob risco e a companhia da família acabasse quebrando.

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Presidente da JBS, Wesley foi preso nesta quarta-feira na Operação Acerto de Contas, que apura se os Batista valeram-se de informação privilegiada para lucrar no mercado de câmbio e de ações. Joesley entregou-se à polícia no domingo, após ter sua prisão temporária autorizada pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), diante de indícios de que omitiu informações em sua delação. 

A pessoas próximas, Wesley afirmava que a cadeia não era um lugar em que gostaria de estar, por óbvio, mas seu medo maior era com as consequências de ir parar na prisão. O medo, dizia, derivava das ameaças de morte que Joesley recebera e da percepção de que a delação dos dois atingia não só políticos graúdos, mas mexia com muitos interesses locais, atingindo pessoas perigosas.

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Sucessão. Na seara empresarial, Wesley era enfático: a avaliação no início do ano era que, caso a prisão atingisse os dois de uma hora para a outra, a empresa poderia ir à bancarrota. Seu pai, José Batista Sobrinho, o fundador da JBS, estava afastado há décadas das decisões estratégicas da companhia. Seu irmão Júnior, o Júnior Friboi, que chegou a ser presidente da JBS, também estava longe da companhia há anos. As duas irmãs nunca haviam participado ativamente dos negócios da família. 

A segunda geração ainda estava sendo preparada. Wesley Batista Filho, filho de Wesley, começou na companhia de alimentos como trainee em 2010 e, desde 2016, é presidente da divisão de carne de boi da JBS nos Estados Unidos. Murilo Batista, filho de Joesley, trabalhava na J&F, mas ainda em funções laterais no grupo. Não havia um nome óbvio dentro do clã Batista para assumir o comando.

A interlocutores, Wesley classificava como erro da família não ter preparado um executivo que pudesse tocar o grupo no lugar dele e de Joesley. Na JBS, havia executivos de muito talento, afirmava Wesley, mas com domínio restrito às suas respectivas áreas. Os irmãos não haviam se dedicado a treinar alguém para ter a visão de toda a companhia, uma multinacional listada em Bolsa com atividade em diferentes segmentos e atuação em diversos países, sustentava Wesley a interlocutores.

Em xeque. Desde que firmou a colaboração premiada com o Ministério Público Federal, em abril, os dois conseguiram avançar em seu plano para manter os negócios de pé. Na JBS, coração do grupo, renegociaram empréstimos com bancos, venderam ativos e seguraram o dinheiro em caixa, reduzindo a compra de gado à vista, por exemplo. Na J&F, iniciaram a venda massiva de empresas, passando à frente Alpargatas, Vigor e Eldorado.

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Esse projeto agora está em xeque. Na manhã desta quarta-feira, assessores e pessoas próximas à companhia se mostravam extremamente preocupados com o futuro da empresa. Já se sabia que a sucessão no comando da JBS teria de ser antecipada, mas ainda não havia um nome definido para substituir Wesley.

Um executivo com acesso às discussões da cúpula da JBS classificava o afastamento do empresário do comando da multinacional de alimentos sem que houvesse tempo para uma transição planejada como "o pior que podia acontecer para a companhia". Respeitado pelos funcionários, Wesley é descrito como um executivo habilidoso, com profundo conhecimento da operação e interlocução com banqueiros e fornecedores.

Venda de ativos. Além da incerteza sobre quem assume o comando, também há duvidas sobre como compradores dos ativos vão reagir. Os contratos de venda de empresas do conglomerado J&F possuem cláusulas que condicionam as operações ao acordo de leniência. O Ministério Público Federal reiterou nesta semana que, apesar da suspensão dos benefícios da delação no caso de Joesley, o acordo da empresa está mantido. A prisão de Wesley, porém, é mais um elemento de incerteza, afirmam pessoas próximas à JBS. 

Além do fechamento das operações já acertadas - o dinheiro ainda precisa entrar nos cofres da J&F, por exemplo -, estão em processo de negociação as linhas de transmissão da Âmbar. A JBS também ainda tenta se desfazer de ativos.

Fora do radar. A prisão de Wesley interrompeu de forma abrupta os planos do grupo. A J&F havia ingressado na noite de terça-feira com pedido de arbitragem para tentar resolver o conflito entre o grupo e o BNDES. Dono de 21% das ações da JBS, banco estatal manifesta há um mês intenção de sacar Wesley da presidência da companhia de alimentos, que é controlada pelos irmãos Batista.

Com Joesley afastado, o plano era que Wesley passasse a concentrar as decisões. Agora, não se sabe quem tomará as rédeas do conglomerado, tampouco da multinacional de alimentos.

 

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