Mercado de dólar está ‘seco’ em US$ 15 bilhões, diz economista

Para Nathan Blanche, sócio da Tendências Consultoria, volta do equilíbrio só vai ocorrer com o fim da cobrança no IOF do mercado de derivativos

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

22 de setembro de 2011 | 15h30

O mercado de dólar está "seco", ou seja, carente de um montante ao redor de US$ 15 bilhões e o governo é o responsável por isso, afirmou nesta quinta-feira, 22, o sócio da Tendências Consultoria, Nathan Blanche. "A volta do equilíbrio entre a oferta e demanda da moeda norte-americana só vai ocorrer a partir do fim da cobrança de IOF no mercado de derivativos, uma medida que não funcionou", comentou, referindo-se à adoção do imposto de 1% sobre a diferença de operações vendidas e compradas de dólar futuro acima de US$ 10 milhões. "A atual tempestade no câmbio só será revertida com o fim da medida, que foi adotada para evitar carry trade. Mas os fatos mudaram, o que requer que as ações do governo também sejam alteradas", disse.

Para Blanche, uma das provas de que o mercado de dólar "está sem referência e desequilibrado" é que a cotação do câmbio no balcão subiu ontem 2,84%, ao atingir R$ 1,845, e hoje saltou ainda mais, chegando a bater em R$ 1,953. Isso levou o Banco Central a retomar os leilões de contratos de swap cambial e vender o equivalente a US$ 2,715 bilhões em contratos futuros de dólar. "Mesmo assim, a oferta foi insuficiente, pois a cotação do câmbio após os leilões atingiu R$ 1,88, acima do fechamento de ontem e distante de um nível mais razoável, digamos, de R$ 1,75", comentou.

Na avaliação do especialista, o mercado do dólar "está sem parâmetros" porque, entre outros motivos, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem, em Washington, que não estava preocupado com a subida do câmbio quando a cotação atingiu R$ 1,85. "Política cambial normalmente é feita por uma única instituição oficial. No Brasil, contudo, ela está sendo determinada pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central", destacou.

Segundo Blanche, vários empresários, alguns do setor agropecuário, entraram em contato com ele desde ontem e perguntaram o que fazer num momento de forte apreciação do dólar ante o real. Segundo ele, em razão do IOF estabelecido pelo governo sobre a diferença de operações vendidas e compradas de dólar futuro acima de US$ 10 milhões, muitos dirigentes de companhias, algumas delas exportadoras, não se sentem confortáveis para ofertar dólares, pois teriam de arcar com o custo do pagamento do tributo.

"O governo precisa agir e rápido. Ou será que vai esperar o câmbio se desvalorizar 60% e estourar o teto da inflação de 6,5% neste ano? ", questionou. Com a cotação de R$ 1,880 registrada às 14h12 de hoje, o câmbio apresentava uma depreciação de 17,94% no mês.

O especialista citou alguns números para explicar como chegou à conclusão de que a demanda por dólar supera a oferta em cerca de US$ 15 bilhões. Segundo ele, no dia 31 de agosto o mercado spot mostrava que os bancos estavam "vendidos" em US$ 6,3 bilhões, mas no dia 20 de setembro ao meio-dia eles passaram à posição de  "comprados" em US$ 1,9 bilhão. Portanto, ocorreu uma reversão de US$ 8,2 bilhões. No mercado futuro do dólar, as posições compradas das instituições financeiras baixaram US$ 10 bilhões no período, de US$ 10,9 bilhões para US$ 900 milhões. No caso dos "não residentes" as posições "vendidas" caíram US$ 7,9 bilhões, pois variaram de US$ 17 bilhões para US$ 9,1 bilhões. No total, ocorreu uma variação de  US$ 26,1 bilhões.

Por outro lado, Blanche destacou que investidores compraram US$ 8,2 bilhões no mercado à vista entre 31 de janeiro e o meio-dia de 20 de setembro, o que  fez com que a demanda por dólares baixasse para US$ 17,9 bilhões. Como nos leilões de swap cambial de hoje o BC ofereceu o equivalente a US$ 2,715 bilhões, a procura pela divisa norte-americana teria baixado para um montante ao redor de US$ 15,1 bilhões.

Segundo Blanche, o recente movimento de desvalorização do real ante o dólar tem duas origens: uma delas é a busca de investidores por ativos mais seguros, como os títulos do Tesouro dos EUA, devido às incertezas manifestadas pelo mercado com a possibilidade de o mundo ingressar novamente numa recessão. "Outro fator é a reversão interna das posições dos investidores, que não sabem qual é a política cambial do País", disse. "Essa insegurança do mercado fez com que o real se tornasse a moeda que mais se desvalorizou no mundo neste mês."

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