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Mercado de fotos pornográficas ganha espaço no Snapchat

Ingresso acidental no universo de fotos de strippers começou em novembro, quando o serviço lançou um recurso chamado Snapcash, que permite aos usuários enviar dinheiro por meio da plataforma de pagamentos Square

Nick Bilton, THE NEW YORK TIMES

27 Fevereiro 2015 | 13h05

Já foi dito que a pornografia é um dos fatores que impulsiona o avanço da tecnologia. Foi a pornografia que ajudou a acelerar o crescimento das fitas VHS, CDs  e DVDs interativos, e praticamente toda a internet. Agora ela está chegando ao celular de uma maneira absolutamente nova, graças a um aplicativo de mensagens que ganhou popularidade entre os adolescentes e é cortejado por grandes marcas de bens de consumo.

O aplicativo é o Snapchat, e seu ingresso acidental no universo pornográfico teve início em novembro, quando o serviço lançou um recurso chamado Snapcash, que permite aos usuários enviar dinheiro por meio da plataforma de pagamentos Square.

O funcionamento é bastante simples. Vamos supor que precisamos pagar US$ 20 a alguém pelo jantar. Basta ir ao nome da pessoa no Snapchat, digitar US$ 20 e apertar o botão "enviar". É claro que o recurso não se limita às contas de restaurante. Pode enviar dinheiro referente a um aluguel, a uma dívida ou a uma dança íntima virtual.

E essas danças íntimas virtuais se tornaram bastante populares. Strippers e estrelas do pornô começaram a usar o Snapchat para enviar vídeos e fotos de si nuas em troca de pequenas quantias. Algumas transações são de baixo valor, como US$ 1 ou US$ 5 por algumas fotos personalizadas. Os preços podem chegar às dezenas de dólares por espetáculos de sexo personalizados.

Nessa semana, uma morena de aproximadamente 20 anos usava apenas roupa de baixo provocante no Snapchat, oferecendo-se para enviar fotos de acordo com a preferência do freguês por US$ 5. Os homens oferecem produtos parecidos a preços semelhantes.

Alguém poderia perguntar por que pagar pela pornografia online quando ela está disponível gratuitamente em todo lugar. Para começar, uma conversa particular em vídeo com outra pessoa no celular é algo muito mais íntimo e pessoal do que um site ou uma webcam (é o que dizem).

Além disso, o Snapchat não deixa vestígios no histórico de pesquisa. Não há traços que possam ser descobertos por um(a) cônjuge desconfiado(a) ou por uma mãe superprotetora.

É claro que o segmento da pornografia paga representa uma pequena fração dos 200 milhões de usuários do aplicativo. Mas está aumentando conforme demanda e oferta se encontram.

O principal obstáculo é encontrar essas strippers do Snapchat. A maioria opera secretamente, em parte porque a pornografia é uma violação dos parâmetros de comportamento da comunidade Snapchat. Na semana passada, o Snapchat publicou um "Centro de Segurança Snapchat" lembrando às crianças que fotos nuas não são permitidas. "Não use o Snapchat para se envolver em nada ilegal e, se tiver menos de 18 anos ou estiver conversando com outro usuário que possa ser menor: permaneça vestido!" escreveu a empresa.

O Snapchat parece estar policiando o cumprimento de suas próprias regras. Algumas semanas atrás, como teste, criei 30 contas no Snapchat com a promessa de compartilhar fotos pornográficas, algumas de graça, outras em troca de uma pequena quantia. Uma semana mais tarde, 28 dessas contas tinham sido encerradas. "Temos sistemas sofisticados para detectar abusos no uso e encerrar contas que violem nossos termos de uso", disse o Snapchat em pronunciamento. "Somos bastante agressivos ao adotar medidas e vamos continuar com nossos esforços nesse aspecto."

Para evitar serem excluídos do Snapchat, os usuários converteram dúzias de fóruns de sexo online em salas de encontros virtuais. É ali que as strippers anunciam seus serviços, e os espectadores em potencial publicam seus nomes de usuário no Snapchat. Assim o nu pode sabatinar o vestido antes de enviar fotos ou receber contribuições e gorjetas por meio do aplicativo.

Algumas strippers também evitam a expulsão ao não cobrar dos usuários no Snapchat. Em vez disso, oferecem uma provocação diária no aplicativo de mensagens, e em seguida atraem os interessados para seus sites particulares, onde aceitam pagamento por meio de serviços terceirizados como PayPal e Amazon.

O Snapchat não é o único aplicativo para celulares no qual a pornografia prosperou em segredo. O aplicativo de mensagens Kik, que permite aos usuários conversar usando texto e fotos e o compartilhamento de links para bate-papo via webcam, também se tornou um espaço da pornografia. E embora Twitter e Facebook não permitam o envio de dinheiro, ambos são populares entre os atores e atrizes pornô que buscam o envolvimento com os fãs.

E é claro que a pornografia não é novidade na internet. Parece que as webcams foram inventadas unicamente para que as pessoas pudessem pagar para ver outras pessoas nuas. Mas o que está mudando agora é o ritmo acelerado da transferência para a plataforma celular. De acordo com estudo recente da Juniper Research, os serviços de bate-papo com vídeo e assinatura nos dispositivos celulares vão corresponder a cerca de US$ 2,8 bilhões em renda ligada à pornografia este ano.

Um usuário da pornografia no Snapchat (que pediu para permanecer anônimo por motivos óbvios) me disse que as pessoas se sentiam atraídas pela natureza individual da interação, bem como pelos recursos de proteção à privacidade.

Por sua vez, as strippers dizem que aplicativos para celular como Snapchat e Kik lhes conferem mais controle. Os espetáculos feitos nas webcams muitas vezes acabam sendo gravados por usuários e enviados para sites, onde podem ser vistos de graça. Em comparação, aplicativos como o Snapchat tornam difícil a gravação de vídeos.

O analista de mídia Stephen Yagielowicz, da Xbiz, que escreve a respeito da indústria de entretenimento adulto, disse que telas maiores, câmeras melhores e conexões mais velozes nos celulares criaram um ponto ideal para que as strippers se envolvessem diretamente com o público. "Há uma confluência entre sexo e tecnologia em andamento que está eliminando o intermediário", disse ele, destacando que "muitos artistas adotaram os espetáculos para webcam como fonte de renda".

Embora o cofundador do Snapchat, Evan Spiegel, tenha tentado distanciar a empresa de suas origens sexuais, a realidade é que, como destaquei em 2012, o Snapchat era usado principalmente para a troca de mensagens de teor sexual em seus dias de startup. Desde então, o Snapchat assumiu um papel bastante diferente, tornando-se um portal para a troca de mensagens e narrativas aprofundadas.

Mas - e trata-se de um grande porém - embora as mensagens de teor sexual não sejam mais o principal uso do Snapchat, é absurdo pensar que um aplicativo permitindo o envio de vídeos e fotos que desaparecem automaticamente não será usado também para transmitir imagens de nudez.

Seria igualmente absurdo acrescentar o recurso de envio de dinheiro a uma plataforma sem imaginar que a função não será também explorada por aqueles que produzem ou consomem pornografia. Afinal, a pornografia é a mãe da inovação tecnológica. /Tradução de Augusto Calil

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