Isabella Sanches/LCA Consultores
Isabella Sanches/LCA Consultores

Mercado de trabalho continuará se recuperando, mas com empregos ruins, diz economista

Para Bruno Imaizumi, da LCA, vagas perdidas com a pandemia poderão ser totalmente recuperadas no início de 2022; porém, por enquanto, predominam os empregos que pagam mal e vagas de vínculo precário

Entrevista com

Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 05h00

RIO - A tendência é que a recuperação do mercado de trabalho continue até o fim do ano e o início de 2022, numa retomada “já encomendada”, segundo Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores. O problema é que essa recuperação tem sido de má qualidade, com empregos que pagam menos e em vagas de vínculo precário, como as informais.

E nada indica que essa qualidade poderá melhorar nos próximos meses, disse Imaizumi. O especialista espera que as vagas perdidas na crise da covid-19 sejam totalmente recuperadas somente no início de 2022, quando o mercado de trabalho deverá voltar ao tamanho de antes, mas com qualidade pior.

A geração de milhões de empregos é motivo para comemorar?

Todos indicadores apontam para uma tendência de recuperação de vagas. Isso vai se dar porque, na pandemia, perdemos muitas vagas. Na Pnad, chegamos a ter 12 milhões de pessoas a menos ocupadas. O ponto é que essa recuperação, no primeiro momento, é de pior qualidade. Temos muitos indícios de que essa retomada vem com uma piora na qualidade da ocupação das pessoas.

Quais são os principais indícios disso?

Chama a atenção, de novo, a retomada das pessoas ocupadas informais. Elas foram as mais prejudicadas pela pandemia. Elas são as mais dependentes da circulação das pessoas. São pessoas que precisam recompor renda. A inflação está pegando muito fortemente nos itens básicos, como alimentação, combustíveis e energia elétrica. Esses trabalhadores precisam sair para as ruas para recompor a renda. O avanço da vacinação colabora para a volta dos informais (ao mercado de trabalho). Entre ganhar zero e ganhar menos do que ganhavam antes, as pessoas vão preferir ganhar menos. São empregos com qualificação pior e remuneração menor.

O mercado de trabalho já não vinha com baixa qualidade de empregos, antes mesmo da pandemia?

Isso já vinha acontecendo antes. Já estávamos observando, entre 2017 e 2019, a “uberização” do mercado de trabalho. As relações trabalhistas vinham se enfraquecendo. Em última instância, o trabalhador acaba fazendo Uber, aluga um carro e vai trabalhar por conta própria.

A tendência é reforçar esse padrão?

A pandemia acelerou um processo, que já vinha acontecendo antes, de demanda maior por mão de obra qualificada, principalmente, voltada para o setor de tecnologia. E o brasileiro, em média, não é qualificado o suficiente para preencher essas vagas. É um problema estrutural do Brasil. Em geral, o País forma pessoas com qualificação insuficiente, desde o ensino básico. Isso acaba formando profissionais com qualificação insuficiente. A última opção do trabalhador que perdeu o emprego formal é entrar para o mercado de trabalho informal. É muito provável que, nos próximos meses, vejamos as pessoas ocupadas na informalidade em patamar até maior do que no pré-pandemia. Temos um crescimento (de empregos) encomendado até o fim do ano. Sabemos que as pessoas vão voltar para as ruas, com o quadro sanitário, cada vez mais, se descolando do quadro econômico. O problema é daqui para a frente.

Até quando vai esse crescimento “encomendado”?

Vamos continuar observando esse movimento de as pessoas circulando nas ruas cada vez mais. Com a maior circulação de pessoas e o quadro sanitário dando uma acalmada, vamos observar a ocupação se recuperando nos próximos meses. Vamos voltar ao patamar pré-pandemia, no número de pessoas ocupadas, no comecinho do ano que vem, mas com uma qualidade muito pior.

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