Mercado de trabalho gera pressão suportável no IPCA, dizem analistas

Aumento da produtividade, competição de produtos estrangeiros e grande quantidade de pessoas fora do mercado formal compensam alta de preços dos serviços

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

28 de maio de 2010 | 19h30

O bom desempenho do mercado de trabalho, que levou a taxa de desemprego de abril à marca de 7,3%, a menor para o mês desde 2002, gera escassez de mão de obra em alguns setores produtivos, como construção civil e petroquímico, mas esse fato causa pressões suportáveis sobre a inflação, avaliam especialistas ouvidos pela Agência Estado. Fatores como aumento da produtividade, competição de produtos estrangeiros e grande quantidade de pessoas ocupadas de forma ilegal, sem registro em carteira, compensam o movimento de alta de preços dos serviços, que sobem quando o nível de atividade está aquecido, como ocorre hoje. Os serviços respondem por 26% do IPCA e têm um peso pouco menor do que os preços administrados, que são responsáveis por 29% do indicador oficial de inflação.

O economista da LCA, Fábio Romão, acredita que os serviços devem subir 6,8% dentro do IPCA, marca pouco superior aos 6,4% apurados em 2009. A economista do banco Santander, Luiza Rodrigues, prevê que os serviços vão subir 7% em 2010. "Há uma preocupação exagerada com a alta dos preços de serviços, pois é preciso destacar que a economia deve desacelerar no segundo trimestre", disse Romão. A LCA projeta que o PIB deve ter crescido 2,3% de janeiro a março, na margem, mas tal velocidade deve atingir 1,3%, 0% e 1% no segundo, terceiro e quarto trimestres, respectivamente, pela mesma base de comparação. Neste ano, o IPCA deve subir 5,2%, segundo Romão, e atingir 5,5% na avaliação de Luiza.

Para o professor da PUC-RJ, José Márcio Camargo, quando a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) aponta um desemprego ao redor de 7,5%, isso gera efeitos inflacionários. Por trás de seus comentários, está implícito um conceito controverso que é a taxa que não acelera a inflação, cujo acrônimo em inglês é conhecido por Nairu. Luiza Rodrigues lembra que o próprio BC produziu um estudo no qual apontava que 7,5% seria o limite para que a geração de postos de trabalho não estimulasse um aumento substancial do custo de vida. "O Nairu, contudo, é um conceito que já foi abandonado na década passada nos EUA", comentou o presidente do Ipea, Márcio Pochmann.

Na avaliação de Camargo, o desemprego médio neste ano deve ficar entre 6,5% e 7%. Mas há elementos, segundo ele, que podem desacelerar o nível de atividade e conter as pressões de alta dos preços causadas por aumento de salários, como os impactos da crise na Europa sobre as exportações do Brasil.

Na avaliação de Pochmann, há pressões localizadas no mercado de trabalho em alguns setores produtivos, especialmente sobre profissionais com maior escolaridade. Segundo ele, contudo, esse fenômeno não é disseminado por toda a economia. Ele ressalta que a alta demanda por engenheiros, por exemplo, ocorre porque o País está crescendo de forma constante com a inflação sob controle, o que não ocorria na década passada. E esse quadro é registrado em detalhes pela construção civil, que deixou a estagnação há alguns anos.

De acordo com Fábio Romão, de 1998 a 2003 ocorreu uma continua retração do número de funcionários das construtoras, cuja queda total líquida no período foi de 288,6 mil postos, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). De 2004 a 2009, contudo, foram criados 773 mil postos. E para 2010,ele acredita que serão gerados 296 mil vagas, marca superior aos 177 mil postos do ano anterior.

De acordo com os especialistas, o aumento da produtividade dos trabalhadores nos últimos anos está sendo muito importante para evitar que aumentos de salários provoquem repasse linear aos preços ao consumidor. "Em 2009, dados da Pesquisa Industrial Mensal, realizada pelo IBGE, apontaram que os salários subiram um sétimo do avanço registrado pela produtividade", destacou Pochmann. Segundo ele, as condições do mercado de trabalho no geral apresentam problemas, pois há 7 milhões de desempregados e perto de 36 milhões de pessoas na economia informal. "Além do 1,4 milhão de cidadãos que ingressam no mercado de trabalho por ano", observa.

O economista-chefe do HSBC, André Lóes, destaca que no Brasil há uma peculiaridade negativa que marca o mercado de trabalho. De um lado, há uma carência grande de profissionais com curso superior completo. Por outro, há um número muito grande de pessoas que tem sérias dificuldades para arrumar emprego, já que possuem baixo nível de escolaridade. De acordo com a PME, destaca a economista do Santander, Luiza Rodrigues, o número de pessoas ocupadas com 11 anos de estudo ou mais subiu 6% em março ante o mesmo mês de 2009. Contudo, no caso dos brasileiros que ficaram na escola até oito anos ocorreu uma leve redução de 0,1% para este período.

"O problema da expansão do aquecimento do mercado de trabalho está relacionado aos problemas do País em investir mais em educação, ampliar os investimentos em infraestrutura e reduzir os gastos correntes", comentou Luiza.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.