Merkel enfrenta o dilema de salvar a zona do euro ou seu governo, diz ‘WSJ’

Depois das férias de verão, Grécia será de novo a grande dor de cabeça da chanceler da Alemanha, pois gregos provavelmente precisarão de ajuda financeira adicional

Renan Carreira, da Agência Estado ,

22 de agosto de 2012 | 17h01

BERLIM - A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, vai enfrentar uma das decisões mais difíceis de sua carreira nas próximas semanas: correr o risco do desmoronamento da zona do euro ou de seu governo, segundo o The Wall Street Journal. Depois de uma pausa de verão (Hemisfério Norte), a Grécia é de novo a grande dor de cabeça de Merkel. O governo grego provavelmente precisará de muitos bilhões de euros de ajuda adicional para evitar a falência.

Se Atenas não receber o dinheiro, pode ser forçada a deixar o euro, um resultado que minaria a tênue confiança dos mercados financeiros em outros membros da região, entre eles Itália e Espanha. Por outro lado, uma ampliação do resgate de 173 bilhões de euros para a Grécia, que foi acordado na primavera (Hemisfério Norte), enfrenta forte oposição da coalizão de centro-direita de Merkel no Parlamento alemão, o Bundestag.

Os parceiros menores da coalizão alemã são especialmente contra emprestar mais dinheiro à Grécia, ameaçando deixar Merkel sem uma maioria governamental ou sem um caminho plausível para cobrir as necessidades de financiamento de Atenas. "É um dos mais difíceis dilemas que ela tem enfrentado como chanceler", disse um assessor de Merkel.

Hollande

A chanceler vai se encontrar amanhã com o presidente da França, François Hollande, e com o primeiro-ministro da Grécia, Antonis Samaras, na sexta-feira (24). Os encontros, segundo os assessores de Merkel, vão ajudar a determinar qual é o caminho que Berlim vai trilhar.

Desde quando a crise da zona do euro começou na Grécia, no fim de 2009, os críticos têm acusado Merkel de brincar com o tempo, prorrogando decisões até o último minuto. Entretanto, a situação da Grécia pode mudar essa postura: Atenas pode ficar sem dinheiro em outubro, a menos que as autoridades europeias e o Fundo Monetário Internacional (FMI) liberem suas próximas parcelas de ajuda internacional.

A chanceler não deve chegar a uma decisão nas próximas semanas, disseram autoridades alemãs. Em parte, porque ela está esperando por dois acontecimentos que podem ampliar ou restringir suas opções: 1) a Corte Constitucional da Alemanha vai julgar no próximo dia 12 se a zona do euro pode lançar seu fundo de resgate permanente e 2) os inspetores da União Europeia (UE) e do FMI vão informar o tamanho do déficit financeiro da Grécia. Esse segundo ponto, alertam algumas autoridades da zona do euro, pode se arrastar até outubro.

A França está inclinada a manter a zona do euro intacta, mas assessores de Hollande disseram que o destino da Grécia está cada vez mais ligado à política interna alemã. Samaras deverá ressaltar a reestruturação grega ao mesmo tempo em que pressiona por mais tempo para fazer cortes orçamentários.

Itália e Espanha

Proteger a Itália e a Espanha da fuga de capitais se tornou o maior desafio para a zona do euro, devido à importância econômica dos dois países. Porém, embora a Grécia represente cerca de 2% da economia da zona do euro, a crise da dívida no país permanece potencialmente desestabilizadora, já que a saída grega da moeda comum provaria que a adesão ao euro é reversível. Isso afastaria ainda mais os investidores do sul da Europa, uma região já em dificuldades.

As necessidades de financiamento da Grécia são parte de um conjunto de problemas que vai preocupar os líderes da zona do euro nas próximas semanas. Outros problemas incluem chegar a uma solução sobre como o Banco Central Europeu (BCE) e o fundo de resgate da zona do euro podem sustentar os mercados de bônus da Espanha e da Itália, como criar um sistema comum de supervisão e redes de segurança financeira para os bancos da zona do euro e até que ponto a Europa deve ir em direção a uma união fiscal integral, com controles orçamentários centrais e emissão de dívida conjunta.

Algumas autoridades em Berlim e em outras capitais importantes da zona do euro esperam que os líderes sejam capazes de encontrar respostas até a próxima cúpula, em 18 de outubro. O objetivo geral, disse uma fonte, será "acabar com as incertezas nos mercados em torno da sobrevivência do euro". Merkel tem repetido com frequência que a crise não tem como ser resolvida de uma só vez. Os desequilíbrios construídos ao longo dos anos em relação à competitividade e às finanças dos membros da zona do euro vão levar anos para que sejam corrigidos, argumenta a chanceler.

Grécia

O governo da Grécia está enfrentando dificuldades para atingir a meta acordada no pacote de empréstimo feito pela Europa e pelo FMI na primavera (Hemisfério Norte), já que a recessão no país é mais profunda do que foi prevista, a receita das planejadas privatizações está se provando fraca e os políticos estão atrasados quanto às prometidas reformas do Estado e da economia gregos. A Troica - formada por FMI, BCE e Comissão Europeia - deve apontar que a Grécia enfrenta um déficit de financiamento considerável até 2014, mesmo ao levar-se em conta os cortes de gastos prometidos por Atenas, da ordem de 11,5 bilhões de euros. A Grécia pede que os cortes sejam concluídos em 2016, e não em 2014, como acordado.

Diante disso, a Europa enfrenta uma escolha complicada: emprestar mais dinheiro à Grécia ou deixar o país falir. Se a Grécia não pagar pensões ou os salários do setor público, o país eventualmente teria de imprimir sua própria moeda ou enfrentar protestos.

O Bundestag não é o único parlamento em que muitos legisladores estão fartos do fracasso dos políticos gregos em cumprir a parte deles no acordo de resgate. Boa parte da classe política na Holanda, Finlândia, Estônia, Eslováquia e Áustria também é contra mais ajuda à Grécia.

Além disso, os parceiros de coalizão de Angela Merkel, a União Social Cristã da Baviera e o Partido Democrático Liberal, competiram durante todo o verão (Hemisfério Norte) para serem porta-vozes contrários à ideia de dar mais dinheiro à Grécia. Muitos dentro do partido de Merkel, a União Democrata Cristã, também perderam a paciência com Atenas e insistem que a Grécia deve sobreviver com o pacote de resgate de março de 2012 ou abandonar o euro. O problema para Merkel é que o acordo fechado em março passado foi baseado em previsões otimistas que não se tornaram realidade.

Autoridades da chancelaria alemã acreditam que a falência grega e a saída do país da zona do euro seria mais complicada, custosa e com maior potencial de contágio para outros membros do bloco do que muitos legisladores pensam. Merkel e seu ministro de Finanças, Wolfgang Schäuble, também estão conscientes do ressentimento no sul da Europa contra a Alemanha e não querem ser vistos como aqueles que pressionaram a Grécia a sair do euro.

Merkel provavelmente não desligará neste outono os aparelhos que mantêm a Grécia respirando. Mas ela ainda não descobriu como tirar o país do coma. As informações são da Dow Jones.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.