Merkel veta intervenção maior do BCE

 Intransigência da Alemanha deixa Europa sem nova medida para evitar avanço da crise

Andrei Netto, correspondente de O Estado de S. Paulo,

24 de novembro de 2011 | 22h45

Em uma minicúpula realizada nesta quinta-feira, em Estrasburgo, na França, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, vetou a hipótese de que o Banco Central Europeu (BCE) passe a comprar de forma maciça os títulos das dívidas soberanas de países em crise na zona do euro. O bloqueio aconteceu durante reunião com o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e com o novo primeiro-ministro da Itália, Mario Monti, da qual a Europa saiu sem nenhuma medida prática para evitar o alastramento da turbulência iniciada na Grécia.

O impasse ficou evidente na entrevista coletiva concedida pelos três líderes políticos após o encontro. Em seu pronunciamento, Sarkozy tentou esconder as divergências falando em consenso, quando até aqui Paris defendia sem pudores a intervenção do BCE no mercado de obrigações. "Nós três indicamos que, em respeito à independência da instituição, é preciso se abster de pedidos, sejam eles positivos ou negativos", afirmou, reiterando: "Nós reafirmamos todos os três nossa confiança ao BCE e a seus dirigentes."

A seguir, em uma manifestação que causou algum constrangimento, Merkel tomou a palavra para responder a uma questão sobre as futuras reformas na governança da zona do euro e afirmou: "O presidente francês acaba de sublinhar que o BCE é independente, e logo as modificações eventuais do tratado não concernem o BCE que se encarrega da política monetária, da estabilidade monetária."

Nas entrelinhas, a chanceler reforçou seu veto à intervenção do banco no mercado de obrigações, que se acentuou nas últimas semanas, após a posse da nova autoridade monetária, o italiano Mario Draghi. Em outra tentativa de amenizar as divergências, Sarkozy garantiu que os três países buscarão até a próxima semana chegar a um "compromisso positivo" em torno de reformas na governança, de forma a aumentar a integração fiscal na zona do euro. "Eu tento entender as linhas limítrofes da Alemanha e ela (Merkel) tenta compreender os limites da França", disse Sarkozy.

As divergências sobre o BCE não são o primeiro grave enfrentamento entre os técnicos de Paris e de Berlim sobre a crise das dívidas soberanas. Há seis meses, o Ministério da Economia da França já era favorável à criação dos eurobônus, as obrigações do Tesouro da Europa, que seriam emitidos pelo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef). A medida visava a mutualizar as dívidas, reduzindo as dúvidas dos investidores nos mercados financeiros sobre as condições de países periféricos, como Grécia, Irlanda e Portugal, de honrar suas obrigações.

Veto

A iniciativa foi abortada por Merkel, contrária à emissão dos eurobônus. O veto veio mais uma vez a público na terça-feira, quando a chanceler classificou como "impróprio" o projeto da Comissão Europeia, defendido por seu presidente, José Manuel Durão Barroso, de adoção dos papéis mutualizados. "Isso não vai funcionar", disse a líder alemã.

Nos dois episódios, sobre o BCE e sobre os eurobônus, Sarkozy acabou recuando e cedendo aos vetos da Alemanha. Já os mercados não demonstraram nessa semana a mesma simpatia pelos constantes bloqueios promovidos pela chanceler. Na terça-feira, o Tesouro do país não conseguiu captar os € 6 bilhões que desejava refinanciar no mercado financeiro, e teve de se contentar com € 3,9 bilhões e juros mais elevados - um sintoma de possível contágio da crise.

Neste pregão, em mais um sinal de descontentamento, as bolsas de valores perderam performance logo após a coletiva dos três líderes. Dois dos três mercados fecharam em baixas: 0,54% no caso alemão e 0,24% no britânico. Já Paris fechou estável, com -0,01%. (Com agências internacionais)

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