Fleury
Rede de laboratórios Fleury fez uma emissão de dívidas atrelando a metas sociais e ambientais; descumprimento leva a aumento de juros pagos a investidores. Fleury

Meta social vira chamariz em captações

De olho no interesse de investidores, empresas lançam títulos vinculados a metas sociais, movimento que ganhou força no País e no mundo com os efeitos da pandemia

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2021 | 05h00

A rede de clínicas de diagnóstico Fleury, tradicionalmente conhecida por lidar com um público de alta renda, acessou o bolso dos investidores vinculando, pela primeira vez, os juros de remuneração de seus títulos a metas sociais e ambientais. Ao captar R$ 1 bilhão por meio de uma emissão de dívida no mercado interno, firmou o compromisso de dar acesso a exames a pacientes de menor poder aquisitivo – das classes C, D e E.

Outro exemplo veio do setor financeiro: a B3 foi a primeira Bolsa do mundo a captar recursos no exterior também com o compromisso de cumprir metas sociais específicas. Dentre os compromissos acertados, está o de ter pelo menos 35% de seus cargos de liderança ocupados por mulheres até o fim de 2026. Levantou quase R$ 4 bilhões (US$ 700 milhões).

Incipientes até 2019, iniciativas como estas têm crescido em número e volume tanto no Brasil como no resto do mundo. A estimativa de especialistas é de que, só neste ano, as emissões globais de bônus vinculados a metas sociais registrem alta de 15% em relação a 2020. No País, a projeção já é atingir participação de 5% no total de R$ 100 bilhões em emissões vinculadas aos compromissos ESG (referência à ambiental, social e governança, na sigla em inglês).

Uma das explicações para essa mexida do mercado tem a ver com a pandemia de covid-19, que aumentou as desigualdades entre ricos e pobres. Com a possibilidade de atrelar a captação de recursos a metas sociais, algumas empresas começam a colocar o assunto dentro da estratégia de negócios, atendendo, de outro lado, a uma demanda maior dos investidores, que cada vez mais colocam papéis ESG dentro de suas carteiras.

No Brasil, as primeiras emissões exclusivamente sociais incluem empresas como a Gyra+, que levantou R$ 120 milhões no mercado interno para conceder empréstimos a pequenas e médias empresas com dificuldades para se financiar. Já a Pravaler captou R$ 20 milhões para financiar cursos de curta duração para pessoas que estão ingressando no mercado de trabalho, enquanto a Vivenda lançou um título financeiro de R$ 5 milhões para financiar reformas de casas populares. Nestes três casos, o dinheiro captado é “carimbado”, para o uso exclusivo de determinados projetos.

No caso do Fleury, a emissão também compreendeu uma meta vinculada ao meio ambiente: redução do índice de geração de resíduos biológicos pela empresa, como agulhas que são utilizadas nas coletas de exames. Por misturar uma meta social com outra relacionada ao meio ambiente, o título emitido ganho o selo de sustentável, como são chamados aqueles que mesclam as características das três letras que formam o ESG. “Temos uma história com questões de sustentabilidade há 20 anos. O ponto mais relevante nessa emissão é como incorporar o conceito do ESG em nosso modelo de negócio”, comenta a presidente do Fleury, Jeane Tsutsui.

O responsável pela área de renda fixa do Citi, Claudio Mattos, diz que o ritmo de conversa com as empresas está aquecido em torno desse tipo de emissão, mas acrescenta que as empresas só irão capturar os benefícios intrínsecos dos aspectos ESG se essa questão estiver, de fato, enraizada na cultura da empresa. “As empresas que não levam em consideração esses aspectos vão, eventualmente ficar para trás.”

Já o responsável pela emissão de dívida externa do Bradesco BBI, Gilberto Noburo Nakayasu, explica que hoje o mercado das dívidas ESG se abriu. Se antes as empresas podiam captar utilizando o selo verde para destinar todos os recursos a um determinado projeto com o viés sustentável, agora a dívida atrelada a metas ESG não coloca um carimbo de uso do dinheiro, o que abre um mar de possibilidades para mais empresas fazerem esse tipo de emissão. “São inovações recentes”, comenta.

a especialista ESG da área de renda fixa do Itaú BBA, Luiza Vasconcellos, aponta que é difícil que as emissões com teor social tenham à frente uma maior tração do que os ambientais, sendo uma das razões está no fato de que há mais fundos em todo o mundo com mandatos para comprarem os títulos verdes, o que aumenta a demanda por esse tipo de título no mercado. Ela diz que apesar do tema social ser bastante crítico em alguns países, como o Brasil, outras regiões, especialmente na Europa, o assunto climático é o mais sensível e para onde estão voltados os holofotes.  “Será difícil que as emissões sociais tenham mais tração do que as verdes, exatamente pela agenda climática”, diz Luiza.

Juros.

Um diferencial nesse tipo de operação costuma ser a possibilidade de alta dos juros pagos pelas empresas aos investidores, casos elas deixem de cumprir as metas previamente acertadas. Dessa forma, explicam os analistas, as metas não podem nem ser muito básicas – e, por isso, fáceis de ser cumpridas – nem ousadas demais – e consideradas descoladas da realidade. 

No geral, muitas metas sociais que estão surgindo tem relação com a diversidade, como aumentar a presença de mulheres em cargos de liderança. Apesar das métricas das empresas, no geral, ainda soarem tímidas, o responsável pela área de sustentabilidade do Bradesco BBI, Caio Andrade Cesar, diz que as emissões de dívida precisam se enquadrar ao negócio da companhia, seja ambiental, social ou de governança. E, ao contrário do que a expressão social possa dar a entender, a meta não pode ser uma filantropia.

Nessa onda de títulos sustentáveis, a credibilidade das emissões é ponto indispensável. E para evitar que as captações sejam realizadas por puro marketing, precisam passar pelo crivo de uma certificadora. No Brasil, a Sitawi é uma das principais consultorias ESG que podem dar esse selo, que confirma que uma operação vendida como ESG é, de fato, ESG.

Segundo o presidente da Sitawi, Gustavo Pimentel, um dos trabalhos como avaliador externo da operação é verificar, no caso de uma emissão vinculada a metas, se elas são ou não relevantes, se possuem aderência ao negócio da empresa e se são ambiciosas o suficiente. É preciso um grande escrutínio na hora de dar esse rótulo ESG à operação, até mesmo para que o instrumento não tenha seu uso banalizado, aponta Pimentel. 

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Citi capta US$ 1 bi para projetos sociais em mercados emergentes

Segundo o banco, a oferta dará suporte para o compromisso de US$ 1 trilhão do Citi com finanças sustentáveis, anunciado no início deste ano, que inclui US$ 500 bilhões para finanças sociais

Cynthia Decloedt, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2021 | 05h00

O Citi emitiu US$ 1 bilhão em títulos de dívida no exterior (bonds) sustentáveis, com compromissos sociais. Os recursos de seu primeiro “social finance bond”, como está sendo chamado pela instituição global, vão ser direcionados para apoiar empreendimentos com foco social em mercados emergentes em todo o mundo. A intenção é financiar projetos que ampliem o acesso a serviços financeiros, moradia acessível, infraestrutura básica, saúde e educação em comunidades carentes e desbancarizadas em mercados emergentes.

Segundo o banco, a oferta dará suporte para o compromisso de US$ 1 trilhão do Citi com finanças sustentáveis, anunciado no início deste ano, que inclui US$ 500 bilhões para finanças sociais e US$ 500 bilhões para finanças ambientais, até 2030, alinhado com a agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Como parte da meta de alcançar US$ 500 bilhões em financiamentos sociais, o Citi diz ter como objetivo expandir o acesso a serviços essenciais para 15 milhões de famílias, incluindo 10 milhões de mulheres até 2025.

Para acelerar o cumprimento de financiar US$ 500 bilhões em projetos sociais até 2030, o Citi está expandindo o foco de sua equipe global de finanças sociais, a Citi Social Finance, que trabalhará em todos os negócios do Citi em âmbito mundial para desenvolver soluções que permitam ao banco, seus clientes e parceiros expandir a inclusão financeira, acelerar o acesso a serviços básicos, impulsionar a criação de empregos e expandir o desenvolvimento da infraestrutura social.

A oferta de títulos segue ainda o lançamento dos novos Parâmetros para Finanças Sociais do Citi, um dos primeiros guias do mundo focado em inclusão financeira, moradia acessível e acesso a serviços essenciais em mercados emergentes.

Tudo o que sabemos sobre:
Citibank

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.