Microcamp resiste à onda de aquisições no setor de ensino

Rede de cursos de informática já recusou várias ofertas de concorrentes e agora tenta crescer sozinha no mercado 

Naiana Oscar, de O Estado de S. Paulo,

20 de setembro de 2010 | 22h30

Em meio à consolidação das redes de ensino profissionalizante e de idiomas no País, uma empresa do setor está se desdobrando para ficar de pé sozinha. A Microcamp já recebeu propostas de fundos de private equity e, recentemente, foi assediada pelo Grupo Multi, dono da Wizard, mas recusou a oferta. As propostas têm sido negadas uma a uma pelo fundador da rede de cursos de informática, o paulistano Eloy Tuffi, de 59 anos.

Não é à toa que os interessados estejam com dificuldades em negociar com ele. Tuffi começou a carreira como vendedor. E ele se define como tal até hoje - mesmo depois de ter montado uma rede com 150 unidades e investido em negócios dos mais variados como restaurantes e gado. No ano passado, a Microcamp faturou cerca de R$ 170 milhões, com franquias e escolas próprias.

Muito antes de ser um empresário do segmento de educação, Tuffi trabalhava vendendo meias compradas na Rua 25 de Março em escritórios da capital. De "sacoleiro", passou a vendedor de cursos de idioma numa escola de inglês. Ali, teve a ideia de montar o próprio negócio e tornou-se concorrente do primeiro chefe, sem saber uma palavra em outra língua. "Eu não precisava dar aulas. Tinha de vender os cursos", explica-se.

Três décadas atrás, ao se mudar para Campinas, onde hoje fica a sede da Microcamp, Tuffi passou a oferecer também cursos de informática - o que acabou se tornando seu forte. "Todos que vieram depois me copiaram. Fui professor dos meus concorrentes", diz, sem modéstia. Ele se refere assim também à Microlins, empresa que, com menos tempo de mercado, passou a Microcamp e firmou-se como líder do setor, até ser vendida em junho para os donos da rede de idiomas Wizard.

O Grupo Multi também já comprou as redes de idiomas Skill, Quatrum e Alps e as escolas profissionalizantes e de informática SOS Educação Profissional e Bit Company, em agosto. Na ocasião, Charles Martins, um dos executivos do Multi, disse que, entre os alvos, o único que resistiu à proposta foi a Microcamp. "O dono não vende a empresa por nada nesse mundo."

Preço. Tuffi diz estar aberto à negociações, mas não quer conversa com quem lhe oferecer menos que US$ 250 milhões. "Com certeza é muito acima do que o mercado está disposto a pagar", diz uma fonte do setor. "A Microlins, líder de mercado, foi comprada por um terço disso."

Sem se acertar com o grupo que está consolidando o setor, a Microcamp está fazendo investimentos para aumentar a rede por conta própria. Há dois meses, inaugurou uma unidade na Flórida, com cursos para estrangeiros, e montou uma filial "vip" em São Paulo para oferecer cursos de softwares a executivos. Para descolar dos concorrentes regionais de cursos de informática, sofisticou a grade curricular com formação em Tecnologia de Informação (TI).

Para a consultora em franchising Claudia Bittencourt, não se associar aos grandes num setor em consolidação torna o crescimento mais difícil, mas não impossível. "Empresas bem estruturadas e com estratégia definida conseguem se firmar", diz.

 

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