Milho: safra recorde evidencia problemas logísticos nos EUA

São Paulo, 23 - Os Estados Unidos devem produzir uma safra recorde de milho no período 2004/05 e, à medida que a colheita avança, os problemas logísticos do país começam a ficar mais evidentes. A Associação Nacional dos Produtores de Milho (NCGA) diz que faltará armazéns para estocar a safra deste ano. Os EUA devem colher quase 11 bilhões de bushels (ou 280 milhões de toneladas) de milho e cerca de 9% desse total já foi coletado pelos agricultores, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Alguns cerealistas construíram abrigos provisórios para estocar os grãos temporariamente e produtores estão limpando barracões onde guardam máquinas, implementos e fertilizantes para armazenar parte da safra. Os problemas se estendem ao transporte. O número de vagões ferroviários, locomotivas e caminhões não deve ser suficiente para escoar os grãos do Meio-Oeste a outras parte do país. Além disso, a colheita coincide com a época em que os portos mais recebem importações no ano e isso está fazendo com que os comerciantes de grãos corram para contratar número suficientes de trens. Dave Marshall, trader da Agri-Pride FS, em Nashville, Illinois, diz que desde 30 de agosto contratou 132 vagões para transporte de grãos, mas recebeu apenas 13. Segundo ele, o aumento das taxas de frete e do preço do seguro forçou muitos caminhoneiros a recusar cargas, provocando ainda mais problemas na complicada logística da safra. Com isso, os cerealistas buscam formas alternativas para estocar os grãos até que haja transporte disponível. Bob Wisner, economista da Universidade Estadual do Iowa, afirma que os problemas começam com os vagões. A falta deles é freqüente durante os períodos de colheita, mas neste ano essa carência foi exacerbada pela grande movimentação de matérias-primas e produtos acabados que estão sendo exportados para a China. Algo parecido aconteceu em 2000, quando não houve armazéns suficientes para estocar a safra. Kendell Keith, presidente da Associação Nacional de Grãos e Ração, disse que a atual capacidade de armazenamento é similar à existente naquele ano, mas a safra 2004 é muito maior. Em 2000 os EUA colheram 9,915 bilhões de bushels (251 milhões de toneladas). O USDA estima a atual colheita em 10,961 bilhões (280 milhões de t). Keith observa, porém, que a safra deste ano está começando com menos grãos estocados do ciclo anterior do que em 2000/01. O USDA estima que os estoques de passagem da safra 2003/04 para a 2004/05 são de 954 milhões de bushels de milho e 105 milhões de bushels de soja. Já os estoques de 1999/2000 para 2000/01 eram de 1,718 bilhão de bushels de milho e 290 milhões de bushels de soja. O maior impacto da carência de armazéns será nos preços do grão no mercado físico, que normalmente caem na época da colheita, mas que neste ano deverão recuar mais que o normal. Analistas antecipam que os cerealistas vão baixar os preços de compra do milho, forçando os produtores a estocar o grão em suas fazendas. Mike Zuzolo, analista da Risk Management Commodities, de Lafayette, Indiana, diz que a queda nos preços vai levar mais produtores a procurar os subsídios do governo para minimizar suas perdas. Outro problema relacionado à falta de armazéns é a perda de qualidade de parte da safra, já que algum volume terá que ser estocado no chão, ao ar livre, ficando exposto às intempéries, disse Bob Wisner, da Universidade de Iowa. Como aconteceu em 2000/01. De acordo com informações do USDA, representantes do setor têm tido várias reuniões para discutir maneiras de contornar os gargalos na logística desta safra. A divisão da agência que monitora o armazenamento de grãos ainda não reportou nenhum aumento nos pedidos emergenciais para estocagem.

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