Mineradora BHP desiste de comprar rival Rio Tinto

A BHP Billiton, maior mineradora global, desistiu nesta terça-feira de sua oferta hostil avaliada em 66 bilhões de dólares pelo controle da rival Rio Tinto, efeito mais recente da crise global que enxugou a disponibilidade de crédito e derrubou a demanda por matérias-primas. O presidente-executivo da BHP, Marius Kloppers, afirmou que as turbulências nos mercados e a queda nos preços das commodities alteraram o que então era um negócio bastante atraente para as empresas, segunda e terceira maiores produtoras de minério de ferro, atrás apenas da brasileira Vale. Como efeito da desistência, as ações da BHP em Londres subiam cerca de 15 por cento, enquanto os papéis da Rio Tinto, também no mercado londrino, acumulavam perdas de aproximadamente 35 por cento (as duas possuem ações tanto em Londres como na Austrália). "Não havia qualquer indicação de que a BHP iria fazer isso, realmente é uma surpresa", afirmou Tim Barker, analista da BT Financial Group, em Sydney. Quando a BHP lançou sua oferta toda baseada em troca de ações no final do ano passado, o negócio foi avaliado em 140 bilhões de dólares, o que seria o segundo maior da história, atrás da aquisição da Mannesmann pela Vodafone em 2000. Mas desde então as ações das mineradoras caíram bastante, acompanhando a tendência global. Confira o gráfico com a variação dos papéis das empresas clicando aqui: https://customers.reuters.com/d/graphics/AU_BHP1108.gif "O montante maior de dívida resultante da combinação das duas empresas, somado à dificuldade de nos desfazermos de ativos, elevaram os riscos sobre a criação de valor para o acionista para um nível inaceitável", disse Kloppers em um comunicado. A BHP já havia conseguido aprovações de autoridades que avaliam concentração de mercado tanto nos EUA como na Austrália, mas enfrentava condicionantes por parte da Comissão Européia. Segundo a empresa, os europeus queriam desinvestimentos tanto no segmento de minério de ferro quanto no de carvão como condição para aprovar o acordo. A BHP informou que estava propensa a aceitar as condições, mas avaliou que não conseguiria preços justos pelos ativos que precisaria vender nas atuais condições do mercado. "Nós temos um grande futuro mesmo sem esse negócio", acrescentou Kloppers, confirmando planos de um investimento de 4,8 bilhões de dólares na expansão das operações de minério de ferro na Austrália. A Rio Tinto, que sempre se opôs ao negócio, informou que não comentaria nesse momento a desistência da BHP. SIDERÚRGICAS Grandes produtores mundiais de aço sempre estiveram contra a fusão das duas gigantes do setor de mineração, acreditando que o negócio poderia lhes dar um maior controle sobre o valor da matéria-prima principal do setor, o minério de ferro. "Certamente é uma notícia positiva para as siderúrgicas, porque uma fusão das duas significaria uma limitação na oferta de minério e preços mais altos. Agora que os valores do produto despencaram, a BHP não viu vantagem no negócio", afirmou Mitsushige Akino, gestor chefe na Ichiyoshi Investment Management. Michael Komesaroff, diretor da Urandaline Investments, disse que o mercado se mexeu para uma posição contrária ao negócio, levando em conta o alto endividamento da Rio Tinto. "O mercado mudou dramaticamente nos últimos seis meses. O que fazia sentido no passado, não faz sentido hoje. Muito se falou das sinergias do negócio, particularmente em minério de ferro. Elas ainda estão lá, mas ninguém está preparado para pagar por elas", afirmou. (Reportagem adicional de Natalie Harrison, em Londres)

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