Ministro da agricultura critica exportador de carne bovina e apela a frigoríficos

Para Stephanes, frigoríficos devem liderar processo de rastreabilidade dos rebanhos

Fabiola Salvador, AE

13 de fevereiro de 2008 | 13h26

O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, fez hoje na Comissão de Agricultura do Senado duras críticas aos exportadores de carne bovina. O ministro disse que os frigoríficos exportavam carne de animais rastreados e não rastreados para a União Européia. O bloco exige a rastreabilidade para a importação do produto.

O ministro sinalizou que concorda com as críticas da senadora Katia Abreu (DEM-TO). "Eu concordo com a senadora porque ela diz muitas coisas que eu não posso dizer", afirmou Stephanes. E acrescentou: "Não cabe a mim criticar alguns setores."

O ministro conclamou os frigoríficos exportadores a liderarem o processo de rastreabilidade dos rebanhos. "Se os frigoríficos não liderarem o processo de rastreabilidade, ela não acontece. É preciso fidelizar clientes, ou seja, fornecedores e pagar um adicional", afirmou. Ele também criticou as empresas certificadoras e disse que a situação delas é "um escândalo". Segundo ele ainda, as certificadoras nunca foram auditadas e uma inspeção feita recentemente pelo ministério eliminou 20 empresas de uma lista de 71 empresas reconhecidas pelo Ministério da Agricultura.

O ministro contou que sabia desde o ano passado que a União Européia poderia embargar a carne brasileira. Ele esteve em outubro na Europa para divulgar a qualidade da carne brasileira para autoridades do bloco. "Naquela época as posições foram colocadas de forma muita rígida e não conseguimos mudá-las".

O ministro enfatizou que a agricultura brasileira não é subsidiada e que o governo precisa encontrar soluções que possam "desengordar" a dívida dos produtores rurais. Segundo ele, entre 2001 e 2007 o preço dos produtos agrícolas subiu 78% e o endividamento cresceu 280%.

Ele também comentou a decisão do Conselho Nacional de Biossegurança, que ontem liberou o plantio comercial de duas variedades de milho transgênico. "Temos uma agricultura eficiente e produtiva, mas, em termos de biotecnologia, vivemos na idade da carroça."

Mais críticas

Na Comissão de Agricultura do Senado, a senadora Kátia Abreu criticou o ex-ministro da Agricultura Pratini de Moraes, que atualmente preside a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). "Eu queria saber se a Abiec está triste ou feliz com essa lista Schindler", disse a senadora, numa alusão ao filme que conta a história de como Oskar Schindler conseguiu salvar judeus da morte durante o Holocausto. Ela, no entanto, referia-se à lista de apenas 300 fazendas brasileiras que a UE pretende considerar como aptas à exportar carne bovina para aquele bloco.

Segundo a senadora, o ex-ministro não participa da audiência pública no Senado porque está "comemorando a situação", ou seja, o embargo da UE à carne brasileira. Segundo ela, o embargo vai reduzir os preços da carne no mercado interno, o que favorece os exportadores.

Segundo Leslie Cohen, que representa a Abiec em Brasília, e participou da audiência pública na Comissão de Agricultura do Senado, não é do interesse da associação prejudicar os pecuaristas. "Nós não vamos morder a mão que nos alimenta", afirmou. A representante da Abiec disse, ainda, que a queda de preço é uma reação de mercado.

Já a senadora Katia Abreu disse que o preço do boi rastreado caiu 2 reais por arroba por causa do embargo da UE. A representante da Abiec respondeu, então, que esse não é uma questão relevante, o que provocou a ira de alguns presentes à audiência pública. "Relevante é o seu salário", rebateu a senadora.

Na seqüência, a representante da Abiec pediu a palavra e explicou que a Abiec não está contente com o embargo da UE á carne brasileira e que tinha dito que a questão do valor da arroba do boi não é relevante, já que a audiência havia sido convocada para discutir o embargo e não preços. "A lista é para tentar salvar e não para matar", disse Leslie.

Kátia Abreu continuou o ataque ao ex-ministro Pratini, dizendo que ele aceitou as regras da UE, o que foi um erro. A senadora pediu que o governo brasileiro não entregue a lista à UE e que mantenha uma posição mais dura de negociação. O argumento da senadora é que a UE não terá de quem importar carne, caso o Brasil não aceite as regras impostas pelo bloco para a importação do produto. De acordo com Katia Abreu a UE importa 725 milhões de toneladas por ano e 50% desse volume bem do Brasil.

"Ministro Stephanes, não quero que o senhor seja lembrado por essa lista de Schindler, ou por essa escolha de Sophia", pediu a senadora ao ministro Stephanes.

A senadora calcula que se a lista tiver apenas as 300 fazendas, cada uma delas teria de ter área de 112 mil hectares para suprir a demanda de carne dos europeus. Ela disse que o Brasil não pode aceitar as determinações da UE, sem questioná-las. "Nós não somos vassalos desse pessoal".

A senadora argumentou também que dificilmente a UE aceitará novas propriedades para exportação para o bloco, caso o Brasil não mantenha posição firme nesse negociação. A senadora disse que os pecuaristas que investiram para ter acesso ao sistema de rastreabilidade (Sisbov) "jogaram dinheiro no lixo".

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