Claudio Coradini/Estadao
Claudio Coradini/Estadao

Cadeirinha para pet, barraca de camping e cabide são novos nichos de mercado para montadoras

Novo consumidor surgido ao longo da pandemia quer acessórios mais úteis ao seu dia a dia, e fabricantes passam a colocar suas marcas em itens que vão além dos tradicionais farol de milha e som potente; mercado supera R$ 4 bilhões ao ano

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2022 | 05h00

O consumidor que surgiu ao longo da pandemia, com diferentes hábitos comportamentais, abriu caminho para a indústria automotiva a um novo nicho no mercado de acessórios com novidades que vão muito além de farol de milha, som potente e rodas de liga leve.

Diante das demandas, as montadoras passaram a desenhar, criar e validar produtos antes não disponíveis em concessionárias e hoje imprimem suas marcas em itens como cadeirinhas e cintos de segurança para pets, barracas de camping, caixas para compras, suportes para escadas, extensores de caçambas de picapes e até cabides para roupas.

Como as autopeças, a maioria dos acessórios é fabricada por terceiros, mas as novidades passaram a ser desenvolvidas pelas próprias montadoras junto com o projeto do veículo.

A vantagem é a garantia de qualidade e a segurança de produtos originais, explica Luiz Gustavo Mandacaru, da Mopar, marca de pós venda e acessórios do grupo Stellantis, dono da Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën.

Segundo Mandacaru, na pandemia muitos consumidores redescobriram as viagens de carro diante do receio do uso de transportes públicos, principalmente com aglomeração. As fabricantes precisaram se adaptar ao “novo consumidor” que, por exemplo, passou a viajar mais localmente, levar os pets nos passeios e a se conectar mais à natureza.

Os acessórios “são uma tendência pela própria demanda do cliente, para a empresa como estratégia para atender bem o consumidor e também para agregar um novo ‘business’ ao negócio de venda de veículos”, afirma Mandacaru. O faturamento do grupo nesse segmento dobrou de 2020 para 2021 e continua crescendo neste ano.

Pesquisa feita no primeiro trimestre de 2020 (antes, portanto, da pandemia) pela Gipa, líder global na área de pós-venda automotiva, mostra que o gasto com acessórios em 2019 (último dado disponível) foi de R$ 4,7 bilhões.

Dos 4 mil consumidores entrevistados em todo o País, 25% compraram algum acessório. A pesquisa não inclui itens colocados nos carros novos que já saem da loja com o equipamento, o que deemonstra que esse mercado é ainda maior.

Bolsas, cadeiras, cintos, guias e forros para bancos destinados aos pets já são produtos originas de marcas como General Motors, Volkswagen, Stellantis, BMW e estão em desenvolvimento pela Toyota. 

“Os itens da nossa linha pet são testados e homologados pela engenharia da GM para oferecer o mais alto nível de qualidade e segurança”, diz Luis Felipe Teixeira, diretor de peças e acessórios da companhia.

Ele afirma que os acessórios servem para customizar o veículo ao gosto e necessidades do consumidor. Além disso, peças originais podem ser adicionadas ao financiamento do carro, possibilitando a diluição do custo nas parcelas.

“Este seguimento cresceu mais de 20% no último ano muito em função da maior oferta de produtos e de novos hábitos do consumidor”, acrescenta Teixeira.

Na Volkswagen, o modelo com maior quantidade de acessórios disponíveis é o SUV Taos, com mais de 100 itens. Entre eles estão assentos de bicicleta para crianças com cinto de segurança de cinco pontos e tenda para camping, que pode ser montada no teto do Taos ou do T-Cross e acessada por uma escada que acompanha o kit. 

A barraca tem capacidade para duas pessoas e é feita com materiais resistentes, informa o vice-presidente de Vendas e Marketing da Volkswagen, Roger Corassa. De acordo com ele, além da qualidade, o produto original assegura a instalação correta e a garantia de fábrica do veículo. 

Mandacaru, da Mopar, afirma que a empresa precisa estar atenta às diferentes necessidades dos proprietários de cada modelo das marcas do grupo. A picape RAM 3500, a mais cara do Brasil – tem versão a R$ 530 mil – tem inédito estribo automatizado que fica em baixo do veículo e é acionado quando o condutor abre ou fecha a porta. Para a Fiat Strada, usada no lazer e no trabalho, há suporte para escadas e grade que amplia o tamanho da caçamba, entre outros itens. 

Com aumento de 170% no faturamento com acessórios em 2021 ante 2020, a BMW tem como campeão de vendas tapetes de borracha para a área de passageiros e o porta malas com bordas altas para evitar, por exemplo, que areia, terra e água se espalhem. Também tem cabide acoplado atrás do banco do condutor para quem quer levar o paletó ou outra veste sem amarrotá-las.

Com preços altos, consumidor fica mais tempo com o carro e busca a customização

Ricardo Bacellar, da Bacellar Advisory Boards Automotive & Mobility, avalia que, além do aumento do interesse pelo transporte particular, o consumidor brasileiro tende a demorar mais para trocar de automóvel porque os preços subiram muito desde o ano passado, superando os índices inflacionários.

De acordo com ele, ao ficar mais tempo com o carro, faz sentido para o consumidor investir em acessórios para customizá-lo, “deixá-lo mais com o olhar do dono”.

Sobre a grande oferta de itens para pets, o conselheiro automotivo ressalta que foi um mercado que “explodiu” durante a pandemia e que os acessórios são uma alternativa confortável "em lugar de deixar os animas em gaiolas".

Para as montadoras, ele vê o negócio de acessórios mais como um apelo estratégico para fidelizar o cliente do que uma alternativa para aumentar a receita financeira.

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