Moody’s ameaça rebaixar toda a zona do euro

Relatório da agência de risco aponta a fragilidade institucional da União Europeia como um dos principais motivos de deterioração da crise

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

28 de novembro de 2011 | 23h00

O risco de um rebaixamento da classificação de crédito já não ameaça apenas países da periferia, mas todo o continente europeu. Nesta segunda-feira, 28, em um comunicado, a agência Moody’s alertou que todos os países da zona do euro estão com as notas de risco ameaçadas por causa da crise da dívida e adverte que, se nada for feito, a União Europeia (UE) corre sério risco de ver uma proliferação de calotes por parte de governos.

A avaliação é de que a incapacidade e paralisia de líderes para tirar a Europa da crise está vinculada ao agravamento da situação e à ameaça de rebaixamento de todo o bloco. Para os analistas, a fragilidade institucional da UE é um dos principais motivos da deterioração da crise.

Para completar, os planos defendidos pela Alemanha de criar uma Europa a "duas velocidades", expulsando na prática as economias problemáticas, não será uma solução e acabará afetando a nota de risco da Alemanha ou França, avalia a Moody’s.

O alerta vem às vésperas de uma reunião de ministros de Finanças da UE, em Bruxelas nesta terça, diante de ambiciosos projetos da Alemanha para repensar o bloco depois da queda de cinco governos da zona do euro e outros três da UE por causa da crise.

Os mercados, na prática, já rebaixaram as economias espanhola e italiana, por exemplo, com os investidores evitando os papéis da dívida desses países. Os temores em relação à sustentabilidade da dívida europeia começaram com a Grécia. Mas, além de Atenas, os ratings de Irlanda e Portugal já foram rebaixados pela agência, aumentando as dificuldades de acesso a financiamentos e forçando os governos pedir resgates.

Espanha e Itália também estão sob pressão e a França anunciou o maior corte de orçamento em décadas para tentar manter o rating AAA. Países como Alemanha, Holanda, Áustria, Finlândia e Luxemburgo têm feito o possível para manter o status. Hoje, das 17 economias bloco, 12 estão sendo duramente afetadas. "A contínua e rápida escalada da crise de créditos soberanos na Europa e nos bancos está ameaçando a posição de créditos de todas as posições soberanas europeias", afirmou a Moody’s.

Incertezas. Ainda assim, a UE não consegue encontrar uma solução política para a crise, com a Alemanha insistindo na visão de integração que não inclui necessariamente o resgate de todos os países em dificuldade. A indefinição política na Grécia e na Itália também contribui para ampliar as incertezas no mercado e aprofundar a crise. Segundo a agência, esses casos aumentam a "possibilidade de cenários mais negativos" no bloco.

Na avaliação da Moody’s, os riscos ao crédito na Europa continuarão a aumentar, afetando a estabilidade dos mercados. A agência dá um prazo aos líderes políticos e aponta que a falta de soluções poderá levar a agência a rever sua avaliação sobre o continente inteiro no começo de 2012. "A ausência de iniciativas políticas de grande escala no futuro próximo que possam estabilizar as condições do mercado de crédito deve chegar a um ponto em que a arquitetura da classificação da Moody’s na área do euro, e possivelmente dentro da UE, tenha de ser revisitada", afirmou a agência. "Moody’s espera completar tal reposicionamento durante o primeiro trimestre de 2012", completou.

Calotes. A Moody’s alerta que a possibilidade de múltiplos calotes não pode mais ser considerada impossível e que, quanto mais tempo levar a crise de liquidez, maiores são as chances. "A possibilidade de mais suspensões de pagamentos por parte de países da zona do euro não pode ser mais ignorada."

O grande risco, segundo a agência, é que a série de calotes pode aumentar as chances de um ou mais países abandonarem a zona do euro. "A série de calotes aumentaria significativamente não apenas a probabilidade de um ou mais membros apenas suspenderem pagamentos, mas também o de abandonarem a zona do euro."

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