Reuters
Reuters

MPT pede à Volkswagen documentos sobre fazenda acusada de trabalho escravo durante a ditadura

Em audiência nesta terça, Ministério Público do Trabalho solicitou à montadora documentação para apurar o caso

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2022 | 20h11

Em audiência realizada na tarde desta terça-feira, 14, em Brasília, o Ministério Público do Trabalho (MPT) solicitou à Volkswagen do Brasil novos documentos sobre fatos ocorridos em uma fazenda de propriedade da empresa, acusada de utilizar mão de obra escrava entre 1974 e 1986.

A investigação sobre o caso começou em 2019, depois que o MPT recebeu documentação impressa com denúncias. No último dia 30, o órgão convocou representantes da empresa para a audiência de hoje a fim de dar continuidade à investigação.

O processo verifica casos de trabalho escravo ocorridos na Fazenda Vale do Rio Cristalino (Fazenda Volkswagen), localizada no Pará.

A reunião ocorreu na sede da Procuradoria-Geral do Trabalho, onde o MPT expôs o histórico e as principais questões relacionadas ao material já coletado nas apurações feitas até o momento.

Segundo o MPT, com a documentação a ser apresentada, o órgão pretende aprofundar seu entendimento sobre a extensão dos danos causados e do número de pessoas atingidas pela conduta da empresa.

MPT constitui grupo para apurar denúncias

O primeiro material entregue ao MPT foi reunido pelo padre Ricardo Rezende Figueira que, à época do era coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e hoje coordena o grupo de pesquisa sobre trabalho escravo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O MPT constituiu então um grupo de trabalho composto por procuradores do Trabalho com experiência no combate ao trabalho escravo contemporâneo.

Entre os participantes da reunião de hoje estavam o procurador-geral do Trabalho, José de Lima Ramos Pereira, os procuradores do Trabalho Rafael Garcia Rodrigues, que coordena o grupo e Lys Sobral  Cardoso, titular da Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (Conaete).

A Volkswagen não comentou o assunto hoje. No dia 31, a empresa divulgou nota afirmando que “reforça seu compromisso de contribuir com as investigações envolvendo direitos humanos de forma muito séria” e que não comentaria o assunto até que tivesse clareza sobre todas as alegações.

Vigilância armada impedia saída da fazenda

A fazenda mantinha cerca de 300 empregados diretos para funções administrativas, mas os serviços de roçagem e derrubada da floresta, realizados nas frentes de trabalho, eram executados por trabalhadores sem vínculo empregatício.

Entre as violações denunciadas estão falta de tratamento médico nos casos de malária, impedimento de saída da fazenda, em razão de vigilância armada ou de dívidas contraídas com a empresa, alojamentos instalados em locais insalubres, sem acesso à água potável e com alimentação precária.

Empresa já fez acordo em ação por tortura de trabalhadores

A Volkswagen do Brasil também já respondeu a processo por tortura de funcionários na fábrica do ABC paulista durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985. A empresa foi acusada colaborar com o Departamento de Ordem Política Social (Dops), de São Paulo, e com o Destacamento de Operações de Informações (DOI), do 2.º Exército.

Em 2020, a montadora fechou acordo na Justiça Federal de São Paulo para pagar R$ 36,3 milhões a ex-trabalhadores da empresa presos, perseguidos ou torturados na época.

No caso da fazenda do Rio Cristalino, a empresa também é acusada de ter praticado uma das maiores destruições de áreas da Amazônia, incendiadas para formar pastos para a criação de gado. Sobre essa denúncia não há informações de processos na Justiça.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.