Mulheres tomam decisões melhor do que os homens, diz estudo

Mulheres tomam decisões melhor do que os homens, diz estudo

Neurocientistas descobriram evidências indicando que, nos momentos de pressão, as mulheres trazem qualidades únicas ao processo de tomada de decisões. O estudo foi feito por mulheres

Therese Huston, The New York Times

21 de outubro de 2014 | 11h13


Recentemente, a senadora Kirsten Gillibrand, de Nova York, disse que se quisermos resolver o impasse no congresso, precisaremos de mais mulheres. As mulheres se concentram mais na busca por pontos em comum e na colaboração, defendeu ela. Mas há outro motivo pelo qual nós seríamos beneficiados com um maior número de mulheres em posições de poder, e não se trata de uma questão de bom comportamento.

Os neurocientistas descobriram evidências indicando que, nos momentos de pressão, as mulheres trazem qualidades únicas ao processo de tomada de decisões.

Mara Mather, neurocientista cognitiva da Universidade do Sul da Califórnia, e Nichole R. Lighthall, neurocientista cognitiva atualmente na Universidade Duke, são duas das principais pesquisadoras que descobriram que, em circunstâncias normais, quando tudo vai bem e as coisas são fáceis de administrar, homens e mulheres tomam decisões a respeito dos riscos de maneira semelhante. 

Reunimos as melhores informações à disposição, pesamos os possíveis custos e possíveis benefícios, e então decidimos como agir. Mas, ao acrescentar o estresse à situação - reproduzido no laboratório ao fazer os participantes mergulharem a mão na água gelada - homens e mulheres começam a se comportar de maneira diferente.

A dra. Mather e sua equipe ensinaram às pessoas um simples jogo eletrônico de azar, no qual elas ganhavam pontos por inflar balões digitais. Quanto mais cheio cada balão, maior o seu valor em pontos, e maior o risco de estourá-lo. 

Relaxados, homens e mulheres assumiram riscos parecidos e tiveram média parecida no número de vezes em que acionaram a bomba de ar. Mas, ao serem submetidos à água gelada, as mulheres estressadas pararam de encher os balões antes, aproveitando a pontuação mais garantida e satisfazendo-se com uma vitória menos recompensadora. 

Os homens estressados fizeram o oposto. Continuaram apertando a bomba de ar - num estudo, essa média foi 50% superior à observada entre as mulheres - e correram riscos maiores. Nesse experimento, a disposição dos homens em correr riscos garantiu a eles mais pontos. Mas o resultado não é sempre esse.

Em outro experimento, os pesquisadores pediram aos participantes que escolhessem cartas de diferentes baralhos, alguns dos quais eram mais seguros, oferecendo recompensas menores e mais frequentes, e outros arriscados, com recompensas melhores e menos frequentes. Eles descobriram que, em comparação às mulheres estressadas, os homens mais estressados escolhiam 21% mais cartas dos baralhos arriscados em relação aos seguros, perdendo mais no geral.

Numa variedade de apostas, os resultados foram os mesmos: os homens assumem riscos maiores sob estresse. Seu foco passou a ser o grande triunfo, mesmo quando este era mais caro e menos provável.

Os níveis de cortisol, o hormônio que controla o estresse, parecem ser um fator importante, de acordo com Ruud van den Bos, neurobiólogo da Universidade Radboud, na Holanda. Ele e seus colegas descobriram que a tendência de assumir riscos maiores sob pressão é mais forte em homens que apresentam uma alta  mais acentuada no cortisol. Mas, entre as mulheres, ele descobriu que um pequeno aumento no cortisol pareceu ter o efeito de melhorar o desempenho na tomada de decisões.

Será que todos temos consciência do quanto nossa capacidade de tomar decisões fica distorcida sob estresse? Infelizmente, não. Num estudo de 2007, Stephanie D. Preston, neurocientista cognitiva da Universidade de Michigan, e seus colegas disseram às pessoas que, após 20 minutos, elas teriam de fazer uma palestra e seriam avaliadas de acordo com sua capacidade de expressão oral. Mas, primeiro, tinham que participar de um jogo de azar. Ansiosos, tanto homens quanto mulheres tiveram dificuldade com as decisões iniciais do jogo.

Mas, conforme as mulheres se aproximavam do momento estressante, sus decisões se tornavam melhores. As mulheres estressadas tendiam a tomar decisões mais vantajosas, buscando sucessos menores e mais garantidos. O mesmo não foi observado entre os homens estressados. Quanto mais se aproximava a hora da palestra, mais questionáveis se tornavam as decisões tomadas pelos homens, correndo grande risco em nome de uma pequena chance de acertar no milhar.

Os homens também demonstraram ser menos conscientes do quanto as estratégias escolhidas eram arriscadas. Nos últimos minutos do jogo, a dra. Preston interrompeu cada pessoa imediatamente depois de o/a jogador/a ter perdido dinheiro. Ela pediu a eles que classificasse o quanto cada uma das escolhas possíveis era arriscada, incluindo a opção mal-sucedida que eles tinham acabado de fazer. Entre as mulheres foi maior a probabilidade de reconhecerem que a escolha feita não tinha sido muito sábia.

Num estudo interessante, uma equipe liderada por Livia Tomova e Claus Lamm, da Universidade de Viena, realizou três experimentos e descobriu que, em condições estressantes, a sintonia das mulheres com os demais aumentava. Num dos experimentos, as pessoas estendiam a mão atravessando uma cortina e tocavam em algo agradável, como uma pena ou bola de algodão, ou algo desagradável, como um cogumelo gosmento ou uma lesma de plástico. 

Cada pessoa podia ver uma foto daquilo em que estava tocando, e também daquilo em que os outros estavam tocando a poucos metros de distância, e tinha que classificar as respectivas experiências de acordo com o quanto tinham sido agradáveis. Normalmente, as pessoas misturam a experiência dos outros com a própria experiência - se estou tocando em algo agradável, classifico a sua experiência de tocar uma lesma como menos desagradável do que faria normalmente.

Mas, quando as mulheres ficaram estressadas, por causa de uma fala em público, por exemplo, foi para elas mais fácil sentir empatia pela perspectiva do outro. Com os homens estressados ocorreu o contrário - eles se tornaram mais egocêntricos. Se eu estou tocando num pedaço de seda, essa língua bovina na qual você está tocando não deve ser tão má.

É claro que uma dinâmica observada em laboratório pode não funcionar necessariamente fora dele, no mundo real. Por acaso as organizações comandadas por mulheres tomam decisões menos arriscadas e mais empáticas em circunstâncias estressantes?

Há evidências de que a resposta é sim. O Credit Suisse examinou quase 2.400 corporações globais de 2005 a 2011 - incluindo os anos imediatamente anteriores e posteriores à crise financeira - e descobriram que empresas de maior capitalização com pelo menos uma mulher em seu conselho administrativo tiveram desempenho 26% superior ao de empresas com apenas homens no conselho.

Alguns podem supor que também haveria um custo nisso, que talvez os conselhos que incluem mulheres tenham se mostrado demasiadamente cautelosos antes da crise financeira de 2008, como ocorreu com o experimento dos balões. Não foi assim. O Credit Suisse também descobriu que, entre 2005 e 2007, o desempenho das ações das empresas com mulheres no conselho foi essencialmente equivalente ao de empresas contendo apenas homens no conselho. Nada foi perdido, e o ganho foi substancial.

Se quisermos que nossas organizações tomem as melhores decisões, precisamos reparar em quem está tomando a decisão e no quanto a pessoa está rangendo os dentes.

Infelizmente, o mais comum é que as mulheres sejam chamadas a liderar somente nos momentos de estresse intenso. Trata-se se algo conhecido como penhasco de vidro, fenômeno observado pela primeira vez pelos professores Michelle K. Ryan e Alex Haslam, da Universidade de Exeter, atualmente na Universidade de Queensland, no qual mulheres altamente qualificadas são convocadas a liderar organizações somente em períodos de crise. 

Basta pensar nos casos de Mary T. Barra, da General Motors, e Marissa Mayer, do Yahoo, que só foram trazidas para a diretoria depois que as empresas começaram a desmoronar. Se houvesse mais mulheres em posições-chave para tomar decisões, talvez as organizações pudessem responder com mais eficácia aos pequenos desgastes, em vez de permitir que as coisas fujam ao controle e assumam proporções muito maiores.

Não podemos tornar menos estressantes os altos cargos nos governos e grandes empresas. Mas podemos garantir que, quando a pressão aumenta, tenhamos um equilíbrio melhor entre assumir grandes riscos e fazer progresso de verdade./Tradução de Augusto Calil

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