André Dusek/Estadão
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Murilo Ferreira pede licença do conselho da Petrobrás até o fim de novembro

Presidente do Conselho da estatal se afasta do cargo, que será ocupado por Nelson Carvalho, professor da USP; discordância em torno de cortes seria o motivo

Antonio Pita, Fernanda Nunes, Mariana Durão , O Estado de S. Paulo

14 Setembro 2015 | 12h18

Atualizado às 22h59

RIO - Cinco dias depois de ter o selo de boa pagadora cassado pela agência Standard & Poor’s (S&P), a Petrobrás recebeu nesta segunda-feira mais uma notícia com efeito negativo sobre a sua imagem. Executivo de confiança do mercado, o presidente do conselho de administração da petroleira, Murilo Ferreira, pediu licença do cargo até 30 de novembro. 

Com o afastamento, ele não deve participar de decisões de peso previstas para as próximas semanas, como a definição de um novo corte de investimentos. Desavenças em torno do tamanho do ajuste teriam motivado a saída temporária do executivo, segundo fontes. Em seu lugar, assume Nelson Carvalho, professor da USP. 

O novo presidente temporário foi escolhido em consulta relâmpago na tarde desta segunda-feira, por e-mail, após convocação da direção da petroleira. Oito conselheiros votaram pela sua nomeação - apenas o representante dos trabalhadores, Deyvid Bacelar, foi contra a escolha sem deliberação. Segundo fontes próximas da companhia, uma articulação prévia entre os conselheiros favoreceu a escolha por Carvalho, indicado ao colegiado pela União, em abril, e um dos principais nomes da área de contabilidade no País. 

O nome de Luciano Coutinho, presidente do BNDES, chegou a ser sugerido pelo atual presidente da petroleira, Aldemir Bendine. Alguns conselheiros, entretanto, consideraram a proposta “catastrófica”. Coutinho chegou a ser a ser taxado de “relíquia do passado” por ser a última peça ligada ao governo no órgão, segundo uma fonte próxima ao colegiado. 

O afastamento de Murilo Ferreira foi comunicado por telefone ao presidente da Petrobrás, Aldemir Bendine. Ferreira alegou motivos pessoais para justificar a saída e argumentou que a presidência da Vale exige sua plena atenção por causa da queda do preço do minério de ferro e das incertezas em torno da economia da China, onde estão os maiores clientes da mineradora. Executivo da Vale e suplente de Ferreira no conselho, Clóvis Torres, também pediu licença do cargo. 

“Há o Vale Day (apresentação da Vale no exterior, realizada anualmente), visitas no Canadá, Londres e mais duas idas ao Japão. Ser presidente do conselho é diferente, tem toda uma discussão de processos. Como a Vale vai demandar muito, seria injusto com a Petrobrás. Ele não iria conseguir fazer a mesma coisa que fazia com essa demanda de Vale”, disse Torres, após um evento de mineração em Belo Horizonte. 

Desavenças. O Broadcast, serviço de informação em tempo real da Agência Estado, no entanto, apurou que o verdadeiro motivo estaria em desavenças com Bendine. O principal ponto de discórdia foram alguns gastos impostos pelo presidente executivo da Petrobrás em um momento de esforço para reduzir a dívida da companhia. Além de evitar os gastos, Ferreira defendeu cortes mais radicais em despesas da administração. 

Ferreira já havia discordado publicamente da estratégia adotada para abertura de capital da BR Distribuidora. Com pressa para levantar caixa e se desfazer dos ativos, Bendine esperava concluir a operação antes de dezembro, apesar das condições desfavoráveis da economia brasileira e da indústria petrolífera. O presidente da Vale se opôs e registrou na ata do conselho, em agosto, que antes de vender as ações o ideal seria revisar o plano de negócios e reestruturar a subsidiária, afastando desconfianças relacionadas à Operação Lava Jato. O negócio, então, esfriou e a estatal ainda avalia se venderá ações ou buscará um investidor único. 

A relação entre o presidente da petroleira e os demais conselheiros também teria desandado há semanas. Para alguns integrantes, falta transparência na política de preços dos combustíveis. Há meses o colegiado solicita a Bendine o detalhamento de uma metodologia capaz de tornar previsível a política de reajustes, para garantir que o caixa da estatal não será corroído mais uma vez pela importação de petróleo e derivados por valores mais altos que os de venda no mercado doméstico. 

Oficialmente, a Vale informou que o executivo se licenciou por motivos pessoais. Em Moscou, o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, disse que o afastamento é temporário e acontece por razões de saúde. / COLABOROU SUZANA INHESTA

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