Na Agrishow, setor rural reage a propaganda negativa do etanol

A oposição entre alimentos ebiocombustíveis não existe no Brasil, e o país ainda irámostrar ao mundo que não faz "loucura" no setor de bioenergia,disseram autoridades do Ministério da Agricultura e outrosespecialistas. "Há um discurso de combate ao programa de energia renovávele a crise de alimentos. Quero dizer que não há crise dealimentos no Brasil. O que há é uma crise mundial com a demandaem crescimento", disse o presidente da Companhia Nacional deAbastecimento (Conab), Wagner Rossi, a jornalistas. Segundo ele, a demanda por alimentos está crescendo empaíses em desenvolvimento como a China e Índia, mas também emnações desenvolvidas, que estão ampliando o consumo. Rossi afirmou que a notícia de que um supermercado nosEstados Unidos limitou as compras de arroz não encontrasemelhança na realidade brasileira, uma vez que o governo contacom estoques de mais de 1 milhão de toneladas e está colhendouma boa safra. "Só não vamos exportar os estoques públicos", disse ele,lembrando que a medida tem o objetivo de evitar preços"escorchantes" ao consumidor nacional. Para isso, a Conab também já anunciou leilões dos estoquespúblicos para o mercado interno e pode até ampliar o programaem caso de necessidade, segundo Rossi. De acordo com o diretor de Produção e Agroenergia doMinistério da Agricultura, Manoel Bertone, "debater se oprograma de agroenergia é compatível ou não com a produção dealimentos no Brasil, em um momento em que pela primeira vez emmuitos anos os preços de alimentos se recuperam, é umcontrasenso." "Tem muito palavrório sobre fatos concretos completamenteopostos ao que se discute", acrescentou Bertone, lembrando queo programa de agroenergia é estratégico e "pode levar um novomodelo de desenvolvimento para países que não têmalternativas." No país, com um programa de zoneamento agrícola e decertificação de etanol, que no caso deste último deverá ficar acargo da iniciativa privada, o governo vai determinar onde sepoderá plantar ou não a cana. "Nós procuraremos induzir, orientar a expansão da lavourade cana. Isso para mostrar ao mundo que o Brasil não vai fazerloucura com a cana, que hoje ocupa apenas 1 por cento de nossoterritório nacional e apenas 2,8 por cento de toda a áreaagricultável", disse o diretor de Produção e Agroenergia. Ao mesmo tempo em que o governo está trabalhando nozoneamento, Bertone disse que o próprio mercado, com osmelhores preços, vai "inibir" a diminuição da área de cultivode alimentos. CHANCE ÚNICA O ex-ministro Roberto Rodrigues, um entusiasta dabioenergia, acrescentou que a alta dos alimentos, além da maiordemanda global, ocorre em função da especulação nos mercadosfuturos, pela maior destinação do milho para a produção deetanol nos Estados Unidos e também pela queda na oferta emfunção de problemas climáticos em alguns países produtores. Ele afirmou ainda que essa conjuntura é uma "chance única"para o Brasil, que tem grandes áreas agricultáveis, desenvolverainda mais a sua produção. Rodrigues rejeitou as críticas do relator da ONU para oDireito à Alimentação, Jean Ziegler, que considerou osbiocumbustíveis uma ameaça. "Dizer uma coisa dessas é que é umaameaça, porque os biocombustíveis podem mudar a geopolíticamundial", disse ele, referindo-se à oportunidade para países emdesenvolvimento ampliarem a sua produção. As declarações das autoridades foram feitas durante aAgrishow, maior exposição de tecnologia agrícola da AméricaLatina, que se realiza em Ribeirão Preto (SP), principal regiãode cultivo de cana-de-açúcar do Brasil. São Paulo, por sua vez, é uma amostra de como a agroenergiapode conviver com a diversificação agrícola, disse o secretárioestadual de Agricultura, João Sampaio. O Estado é também o maior produtor de laranja, um grandeprodutor de madeira, de café, o maior produtor de ovos, deborracha natural, tem uma produção de grãos importante, é umgrande produtor de carne bovina e de frangos, além de ser omaior produtor nacional de frutas. "Essa falsa dicotomia, pelo menos no Brasil, só ajuda apromover a feira. Podemos mostrar para o Brasil e para o mundoque dá para conviver perfeitamente a produção de alimentos eagroenergia."

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