Nanopolítica

Por suas características, a nanotecnologia exige apoio e investimentos governamentais - e diversos países já estão bem adiantados nesta corrida

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

01 Março 2018 | 05h02

O democrata Woodrow Wilson foi o vigésimo-oitavo presidente dos Estados Unidos, comandando a nação entre os anos de 1913 e 1921. Ele tinha fortes vínculos com o mundo acadêmico, obtendo um doutorado na área de ciências políticas pela Universidade Johns Hopkins e lecionando em diversas instituições de ensino superior. Escolhido como presidente da Universidade de Princeton entre 1902 e 1910, foi o único presidente dos EUA até hoje com um doutorado. Sendo assim, um dos mais importantes "think tanks" do mundo foi batizado com seu nome em 1968 - o Woodrow Wilson International Center for Scholars. "Think tanks", centros de estudos para discussões de ideias e soluções, contando com a participação de diversos setores da sociedade, procuram endereçar desafios de grande impacto.

Em 2005, uma associação entre o Woodrow Center e a ONG estabelecida pela família Pew, que fundou no final do século XIX a petroquímica Sunoco (hoje parte da Energy Transfer Partners), criou o Project on Emerging Nanotechnologies (ou "Projeto em Nanotecnologias Emergentes"). Desta parceria surgiu uma importante referência da área, um diretório de produtos com foco no consumidor final que contenham nanomateriais (chamado de "Nanotechnology Consumer Products Inventory"). Por se tratar de uma área nova e cujos efeitos sobre a saúde e o ambiente ainda precisam ser monitorados e compreendidos, iniciativas desta natureza são muito relevantes. Refletindo de forma clara o que se espera de governos quando o assunto é apoio à pesquisa básica e desenvolvimento de novas tecnologias, em 2000 o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, declarou que "Alguns dos objetivos [da pesquisa em nanotecnologia] irão levar mais de vinte anos para serem atingidos, e é exatamente por isso que o Governo Federal possui um papel tão relevante.". A iniciativa norte-americana em nanotecnologia (National Nanotechnology Initiative) recebeu, desde seu estabelecimento em 2001, mais de US$ 20 bilhões em investimentos. 

Governos de diversos países estão dedicando recursos ao tema em função de sua complexidade e importância estratégica. Em um artigo publicado em julho de 2016, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) apontou que a relação entre patentes e artigos na área de nanotecnologia é dominada pelos Estados Unidos, Japão, Coréia do Sul, Alemanha, Suíça e França. Dois países que não costumam frequentar listas dos "mais inovadores" mas que estão demonstrando considerável crescimento no desenvolvimento de pesquisas no setor são a Malásia e o Irã que, a exemplo dos Estados Unidos, também mantém um catálogo aberto dos produtos com base nanotecnológica (chamado de "Nanotechnology Product Database", ou "Base de Dados de Produtos de Nanotecnologia"). O país já possui cinco centros de pesquisa dedicados ao assunto, com programas de doutorado especializados.

No Brasil, nossa produção acadêmica em nanociências em 2013 era de 1,6% do total mundial, abaixo dos 2,9% que contribuímos com artigos científicos em geral. O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) estabeleceu a iniciativa do Sistema Nacional de Laboratórios em Nanotecnologias (SisNANO) em 2012, oferecendo aos setores público e privado acesso a laboratórios e equipamentos. Trata-se de uma área cujas necessidades orçamentárias são significativas comparadas com as alocações efetivas que são disponibilizadas. Já na Rússia, a estatal Rusnano foi estabelecida em 2007 com o objetivo de comercializar produtos baseados em nanotecnologia e foi estruturada como um fundo de investimento de US$ 10 bilhões para alocar recursos em startups ou em companhias maduras. No final de 2013, a Rusnano apoiava quase cem projetos e onze nanocentros; além disso, as vendas de produtos russos com nanopartículas já superava os US$ 15 bilhões.

Independente da forma como os países decidiram investir em nano, ou de suas respectivas vocações para pesquisa, os setores de atuação desta tecnologia são muitos - energia, manufatura, agricultura, metalurgia, medicina, engenharia e biologia molecular, entre outros - e são nosso tema para semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

 

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