‘Não adianta só jogar dinheiro no mercado’, diz executivo da HBO

‘Não adianta só jogar dinheiro no mercado’, diz executivo da HBO

Segundo Roberto Rios, HBO vem ampliando produções locais, mas com cuidado para preservar identidade da marca

Entrevista com

Roberto Rios, vice-presidente de produções originais da HBO Latin America

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

29 de abril de 2019 | 05h00

RIO - O vice-presidente de produções originais da HBO Latin America, Roberto Rios, acaba de completar 25 anos no canal, que também tem um serviço sob demanda, o HBO Go. Depois de anunciar 15 novas produções locais, que vão de séries de temática LGBTQ+ a uma criação de Mauricio de Sousa, a empresa pioneira na produção de séries premium no Brasil diz que a ampliação do conteúdo local exige cuidado, para que a qualidade não seja perdida. “Não adianta só jogar dinheiro no mercado.”

O setor vem demonstrando clara expansão no País, tendência evidenciada pelo investimento de rivais da HBO, como Amazon e Netflix – esta última anunciou 30 novas produções brasileiras nos próximos dois anos no Rio2C, evento voltado para a área de audiovisual realizado na semana passada.

Em entrevista ao Estado, Rios falou de novas produções e do futuro do setor. Leia os principais trechos:

Com a concorrência no setor de streaming e a entrada da AT&T na Warner global, dona da HBO, aumenta a pressão por ampliar o volume de produção?

Existe um ditado americano que diz: não adianta atirar dinheiro no problema. A tentação é sempre gastar mais. Acho que existe espaço para se produzir mais na América Latina. E o Brasil é exemplo claro disso. Se você olhar 15 anos atrás, quando a HBO fez seu primeiro original, existia apenas a produção da TV aberta, e a grande maioria era novelas. Então, a HBO começou a produzir para oferecer uma experiência distinta ao espectador. Isso porque não se tem censura, não tem patrocinador, não tem ninguém para reclamar de um assunto que incomoda. A verdade é que o espectador tende a ser mais generoso com o conteúdo que esses outros atores.

O mercado brasileiro está pronto para produzir mais?

O Rio2C demonstra que o Brasil ampliou de forma gigantesca a capacidade de produzir. No tempo que não se produziu (fora da TV aberta), gerações inteiras deixaram de ter suas histórias contadas. Hoje, além de produzir, você armazena, deixa disponível. O que produzimos há 15 anos pode ser redescoberto. Era uma visão já existente nos EUA, que sempre distribuiu conteúdo no mundo todo, mas não aqui.

A HBO anunciou recentemente 15 novas produções. É sinal desse espaço para mais histórias?

Obviamente tem muita história para contar. Mas essa curadoria tem de ser feita com cuidado. Se você for a um leilão de arte e comprar todos os quadros, provavelmente vai arrematar alguma coisa falsa. Apesar do espaço para crescimento, não adianta só jogar dinheiro no mercado. A semente errada não vai produzir. Estamos no processo de crescimento, nosso conteúdo já exibido em mais de 50 países, nas Américas, na Europa e na Ásia. 

Ou seja: em nome da expansão, não dá para trair a marca.

Há 25 anos estamos convencendo nossos assinantes brasileiros que o que a gente produz tem valor. É essa credibilidade que permite que tenhamos hoje o maior evento da história da televisão, Game of Thrones. E isso se faz com compromisso, com curadoria. Ninguém acerta 100% do tempo, mas não se vai criar um evento (como Game of Thrones) se acertar só 1% do tempo. Não adianta investir sem discernimento. Isto posto, é claro que os recursos são importantes, seja para reconstruir o 14 Bis (na minissérie Santos Dumont, em pós-produção) ou para contratar Aidan Quinn e Bruno Barreto (para O Hóspede Americano, também em fase de finalização).

A HBO tem uma tradição de retratar minorias. A série ‘Todxs’ fala da comunidade LGBTQ+. É um direcionamento?

Nossa filosofia sempre é fazer algo que alguém vai gostar muito, e não só um pouquinho. Acredito nas respostas emocionais às histórias, as pessoas abraçam os conteúdos de maneiras surpreendentes. Vivemos hoje em um mundo menos convencional, com as plataformas digitais. Existe uma tentação de pensar que as gerações ignoram umas às outras. Acho que há curiosidade sobre esse jovem contemporâneo. As pessoas querem ver histórias genuínas, com as quais vão se conectar. E não é verdade que a maioria não se interessa por narrativas sobre minorias. As minorias fazem parte da história da humanidade. Os santos eram minorias.

A opção pela diversidade é, então, consciente?

A gente não quer se repetir, queremos uma experiência complementar. Ainda para 2019, temos Pico da Neblina, Jardim de Bronze (série argentina) e A Vida Secreta dos Casais. Entre os projetos em produção há de Todxs a Astronauta, do Maurício de Sousa. Estamos no ar com Greg News (com Gregório Duvivier), que coloca o dedo nas feridas do Brasil. Para certas posições, não há meio termo. Embora tenha gente falando que o mundo é plano, continuamos achando que ele é redondo.

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