Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

‘Não dá para aceitar corrupção por reformas’

Para o empresário, o debate evoluiu e hoje já é possível propor uma mudança do papel do Estado na economia

Entrevista com

Pedro Passos, conselheiro e sócio da Natura

Fernando Scheller e Renata Agostini, O Estado de S. Paulo

10 Dezembro 2017 | 03h00

O discurso favorável às reformas econômicas não pode vir descolado do combate à corrupção e da busca de uma sociedade mais equânime, afirma Pedro Passos, sócio e conselheiro da Natura. Para que o Brasil se torne um país melhor no longo prazo, ele diz que não é possível tolerar a falta de ética em prol das reformas – como defende uma ala do empresariado.

Segundo ele, existe risco de polarização nas próximas eleições, mas o País tomou coragem para discutir os problemas reais e entendeu que a reforma do Estado é necessária. “Esse pragmatismo que tolera a corrupção para que as reformas possam acontecer não vai longe”, afirmou Passos ao Estado. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Estado: O que está em jogo, em sua visão, na próxima eleição?

Pedro Passos: A eleição será importante para confirmar o recente rumo que o País vem adotando. Minha perspectiva é que o Brasil vem melhorando bastante. O País tomou coragem de discutir problemas reais. Essa eleição é parte do processo, não resolveremos todos os problemas. Temos um longo processo pela frente, mas pode ser um passo importante.

O sr. não vê risco de termos um populista eleito?

Estamos num ambiente em que as pedras do tabuleiro ainda não estão bem estabelecidas. Não é fácil fazer previsões. Existe risco de polarização entre linhas radicais. Quero crer que a opção do eleitor não será por gente que acredita que existe bala de prata para solucionar todos os problemas do País. Esse é fundamentalmente o discurso fácil da direita radical, que diz que vai resolver o problema da segurança numa pernada só. Tenho a impressão que, ao longo da discussão política (isso não prospera). O mesmo ocorre do lado da esquerda, com a tentativa de voltar a modelos que já vimos que não dão certo. 

Qual deve ser o papel dos empresários?

Como todo processo democrático, todas as áreas deveriam estar representadas. Infelizmente, tenho de concordar que a voz empresarial tem sido muito baixa em termos de organização e coesão. E a própria representação empresarial hoje também é discutível. Vejo, por outro lado, grupos empresariais fazendo reuniões, tentando debater, sendo instados a propor nomes. E isso ocorre porque um País melhor para os brasileiros é melhor para empresários também.

Existe um discurso entre empresários de que o que importa é a agenda de reformas, a despeito da questão ética. Dá para pensar somente na agenda econômica?

Não dá. A gente sabe, inclusive, que a agenda econômica sofre em função do processo político que temos de baixa representação, de baixa proximidade com a sociedade. Tenho impressão que esse pragmatismo que tolera a corrupção para que as reformas possam acontecer também não vai longe. Esse não é o discurso do núcleo que eu conheço, das pessoas, dos empresários, o núcleo forte que quer um país que funcione. E sabe que, se não houver segurança institucional, no fim, os próprios negócios sofrerão.

Teria sido conveniente que, no governo Michel Temer, esse debate tivesse ocorrido? 

Acho difícil fazer um julgamento. O importante que eu sinto é que os empresários têm uma postura favorável a uma clareza ética de qualquer que seja o governo que venha por aí. Julgar retroativamente se deveriam ou não ter se manifestado a favor ou contra a situação que vivemos é muito delicado. Talvez seja difícil exigir esse tipo de posicionamento de maneira mais explícita.

O fato de o Estado ainda estar tão presente na economia atrapalha a expressão de opiniões? 

No Brasil, o Estado foi cercado pelas corporações de todos os níveis: empresariais, sindicais, de funcionários públicos e privados. Esse conjunto de pressões, que é legítimo em certo grau, no Brasil chegou ao extremo. O Estado ficou refém desses desejos e isso travou o desenvolvimento, a competitividade. Por isso, há dificuldade de fazer as reformas. Elas estão sendo impedidas por um grupo de interesse menor, mas com muita influência junto ao governo. Não gosto da definição de Estado grande ou pequeno, mas deveríamos ter um Estado mais focado no que é relevante. Hoje ele opera muita coisa, ocupando espaços que deveriam ser da iniciativa privada e da sociedade civil.

Está mais fácil falar sobre privatização no Brasil?

É um debate que sempre tem componente ideológico, uma visão do passado, mas está muito mais aberto. Até porque a impossibilidade fiscal impõe a necessidade de uma inovação relevante na forma como o Estado brasileiro opera. Nós, se quisermos nos modernizar, temos de focar no que é fundamental: Justiça, educação e saúde – esse é o Estado que o brasileiro quer. E abrir espaço para que outros setores operem o que tem mais até competência para fazer.

Vemos o empresariado dividido entre nomes que eles acham realmente os melhores para comandar o País e os que têm mais chance de ganhar...

Acho que tem algumas ideias centrais que serão apoiadas, de manter não só o processo de reformas, no âmbito econômico, mas também de endereçar a questão social. E acho que só será vencedor quem conseguir articular os dois lados. Temos uma carência enorme, uma grande diferença social. O relatório do Banco Mundial é um tapa na cara. Ele mostra quão regressivo é o nosso sistema, o quanto beneficia os ricos. 

Tem de tributar mais os ricos?

O rico paga menos imposto do que o pobre no Brasil, porque há uma incidência de impostos indiretos enorme. As pessoas de diferentes classes sociais pagam exatamente o mesmo imposto ao comprar um celular. Esse é o principal problema: como balancear a carga tributária, trazendo mais sobre a renda, a propriedade e os rendimentos e menos sobre consumo. Qual é o mecanismo? (É preciso) arbitrar se é o imposto sobre dividendos, sobre a propriedade ou sobre a herança. Parece-me que existe um misto dessas soluções, com o cuidado de não desequilibrar, porque pode espantar o investimento e o capital, que são necessários para o desenvolvimento do País.

O senhor vê com bons olhos o surgimento de candidatos de fora da política?

Acho que o candidato precisa saber como é o jogo político tradicional, mas, ao mesmo tempo, deve estar livre das pechas do passado político. Não é fácil, porque a gente teve um processo de revisão em que toda a classe política praticamente foi escanteada. Em 2018, espero que a gente consiga descobrir nomes de credibilidade, capacidade de liderança e articulação, e que se cerquem de pessoas que possam ajudar nessa composição política.

A agenda de reformas depende do Congresso. Esse aspecto da eleição também preocupa?

Sim. O novo presidente terá de lidar com um Congresso de 28 partidos. Precisará ter bons articuladores políticos para construir arcos de aliança em torno de programas. Espero que a reforma política, que também será um processo em doses homeopáticas, venha nos socorrer, para que a gente possa diminuir essa confusão ao longo do tempo.

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