Divulgação/Claudio Lottenberg
Divulgação/Claudio Lottenberg

Negócio bilionário da cannabis atrai grandes executivos e empresários no Brasil

Além do conhecido uso medicinal, a planta é aproveitada em sua totalidade na fabricação de matéria-prima para as indústrias cosmética, têxtil, de alimentos e bebidas e até na construção civil

Anita Krepp * Especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2022 | 16h38

O crescimento do mercado da cannabis para uso terapêutico em todo o mundo tem atraído a atenção e os investimentos de grandes empresários e executivos no Brasil. É um mercado estimado pela Fortune Business Insights, globalmente, em US$ 28 bilhões no ano passado, podendo chegar a US$ 197 bilhões em 2028. Além do uso medicinal, a planta também é aproveitada em sua totalidade na fabricação de matéria-prima para as indústrias cosmética, têxtil, de alimentos e bebidas e até na construção civil, o que justifica o interesse cada vez maior nesse segmento.

Claudio Lottenberg, ex-presidente do hospital Albert Einstein e atual presidente do conselho da entidade, já vinha acompanhando os avanços da substância na medicina havia vários anos, até que, no ano passado, decidiu apostar no seu próprio negócio ligado à cannabis. Hoje, é um dos sócios da Zion MedPharma, de medicamentos produzidos com a substância. Segundo ele, não há dúvidas sobre o potencial terapêutico, mas ainda é preciso superar a barreira da falta de conhecimento e de informações. 

“Quando as cirurgias de miopia começaram, também enfrentaram preconceito, pois eram vistas como estética. Depois, normalizou. Coisa parecida aconteceu com a cirurgia bariátrica. Esses preconceitos sempre existiram e precisam ser quebrados para que a medicina evolua”, diz.

Ao lado de Lottenberg no comando da Zion está Dirceu Barbano, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ele, que assinou as primeiras autorizações para importação de cannabis no Brasil e foi um dos responsáveis pela abertura do órgão à discussão da questão, não teve dúvidas quando a oportunidade de investir no mercado de cannabis bateu à porta. Hoje, a Zion tem seu valor de mercado estimado em R$ 60 milhões.

Ex-diretor executivo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Allan Paiotti, que também já ocupou cargos de diretoria em empresas de tecnologia, logística e investimentos, também entrou nesse mercado no ano passado. “Quando tive contato com o mundo da cannabis medicinal, fiquei superimpressionado com seu potencial terapêutico e com o relativo atraso do Brasil nessa matéria. Aí, resolvi juntar as coisas”, diz, referindo-se à decisão de cofundar a Cannect, marketplace de produtos médicos e à base de cannabis, em que atua como presidente.

Aposta firme

No exterior, não são apenas executivos da área da saúde. Grupos farmacêuticos inteiros já fizeram suas apostas na cannabis. A Pfizer e a Jazz Pharmaceuticals investiram, no ano passado, cerca de US$ 7 bilhões cada uma em aquisições. Mas, no Brasil, até pela insegurança jurídica que cerca o tema - uma vez que a maconha, considerada ilícita no País, é uma das espécies da cannabis -, esse tipo de movimentação ainda não acontece em larga escala. A Hypera, maior farmacêutica do País, já protocolou pedido para a comercialização de produtos à base da substância e aguarda pela aprovação da Anvisa.

Para que esse mercado avance, seria necessária a sua regulamentação. Mas o projeto que trata do assunto, o PL 399/15, está parado no Congresso desde 2015. Quase todos os países da América Latina estão mais adiantados em relação à regulamentação da cannabis. Uruguai, Colômbia, México, Argentina e Paraguai, por exemplo, já autorizaram o plantio em seus territórios, passo fundamental para o crescimento do negócio. 

Enquanto isso não acontece por aqui, os fundos de investimentos que investem nesse mercado precisam recorrer às empresas listadas nas Bolsas americanas, como é o caso do fundo da XP. O BTG também entrou nesse segmento após a compra, no ano passado, da gestora Vítreo, que já tinha um fundo de investimentos voltado para a cannabis.

Mas, apesar das dificuldades, o potencial do mercado não passou despercebida para Theo van der Loo. Ele foi presidente da Bayer no Brasil de 2011 a 2018. Quando saiu da empresa para se aposentar, encontrou tempo, enfim, para se dedicar aos estudos sobre a cannabis. Cauteloso, primeiro se tornou investidor de uma empresa no Uruguai, até que, em 2019, fundou a NatuScience, importadora de produtos para o mercado brasileiro.

Atualmente, ele dedica cerca de 70% do seu tempo ao mercado da cannabis. “É uma questão complexa, com muitas oportunidades, mas, também, muitos riscos pela questão regulatória. Como você vai investir milhões em ensaios clínicos para desenvolver o mercado se não tiver a segurança de que o mercado seguirá existindo?”, diz ele, que se atentou à cannabis como oportunidade de negócio por sugestão de seu filho.

Outro executivo que resolveu apostar as fichas nesse segmento é José Roberto Machado. Com 28 anos de experiência na área financeira - sendo 18 deles no Santander -, ele decidiu, há dois anos, deixar o cargo de diretor que ocupava no banco para entrar de cabeça no setor de cannabis. Em um primeiro momento, como investidor de um cultivo no Uruguai; em seguida, como investidor-anjo na operação da brasileira OnixCann, onde também atua como conselheiro.

O mercado também atrai pessoas ligadas ao esporte. O tenista Bruno Soares investiu recentemente R$ 12 milhões na farmacêutica brasileira EaseLabs. “Senti na minha própria pele os benefícios da cannabis para os problemas que eu tinha como atleta de alto rendimento e, desde então, faz parte da minha rotina”, conta, falando de suas crises de ansiedade e inflamações musculares.

Pioneirismo

Patrícia Villela Marino, casada com Ricardo Villela Marino, membro de uma das famílias controladoras do Banco Itaú, figura entre os principais investidores da cannabis no Brasil. Sua relação com o tema é antiga. Em 2010, ela liderou a criação da Plataforma de Política de Drogas, apoiada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para discutir essa questão na América Latina. Em 2015, a plataforma transformou-se no Instituto Humanitas 360, que abarca este e outros assuntos de cunho social. 

Nunca foi uma tarefa fácil. “Fui chamada de maconheira rica inúmeras vezes”, conta Patrícia, que, em 2013, coproduziu o documentário “Ilegal”, sobre famílias lutando pelo acesso à cannabis medicinal para seus filhos.

Atualmente, ela investe em mais de dez empresas de cannabis que estão debaixo do guarda-chuva da primeira aceleradora desse tipo de negócio no Brasil, a The Green Hub, onde também figura como principal investidora. Sua carteira de investimentos é compartilhada com o marido. “Os ricos desse país não querem só ganhar dinheiro, mas também colaborar com sua produção de riqueza e de prosperidade”, diz, destacando que ela própria investe milhões em pesquisas científicas com a erva.

Segundo ela, tais pesquisas são urgentes e necessárias, tanto para desenvolver o mercado quanto para que o Brasil recupere o protagonismo que sempre teve na área da saúde - como na criação dos genéricos, por exemplo. Para Patrícia, agora é o momento de as empresas fazerem a sua aposta. “Não adianta simplesmente importarmos matéria-prima e colocarmos nosso rótulo para vender o remédio. É preciso apostarmos na pesquisa científica e produção nacional se a gente quer mesmo construir um projeto de nação”, afirma.

Caminho da legalização

Apesar de todas as polêmicas, o uso da cannabis vem sendo legalizado em vários países, após pesquisas mostrarem os efeitos positivos no combate a enfermidades como epilepsia refratária, mal de Parkinson e fibromialgia. Diversos governos passaram a apostar na cultura até como solução para problemas sociais. É o caso da Tailândia, onde há até pouquíssimo tempo cultivar cannabis levava à prisão. Hoje, o próprio governo distribui 1 milhão de mudas da planta entre a população e estimula a troca de culturas entre os agricultores. É também o caso do Líbano, onde a legalização, ocorrida no ano passado, faz parte de um plano de recuperação econômica do país.

Mas, mesmo para uso recreativo, a cannabis vem ganhando status de “legal” mundo afora. É o caso de alguns Estados americanos, do Canadá e do Uruguai. E pesquisas mostram que a legalização não elevou o uso da maconha. Em alguns casos, até diminuiu, como mostra um estudo publicado recentemente na revista Addiction. 

No estudo, uma equipe internacional de pesquisadores avaliou as tendências do uso de cannabis por jovens e adolescentes entre 12 e 21 anos no Uruguai após a legalização, ocorrida, na prática, em 2017. Consistente com estudos anteriores, os pesquisadores não relataram mudanças significativas nos padrões de uso de cannabis entre esse público. Já entre os menores de 18 anos, o uso de maconha até caiu após a legalização.

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