No limite da realidade

Enganar o cérebro humano é bem mais fácil do que imaginamos, e a tecnologia começa a se aproveitar disto de diversas formas

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2017 | 05h00

Uma das consequências da Primeira Revolução Industrial, ocorrida entre a segunda metade do século XVIII e a primeira metade do século XIX, foi o estabelecimento de uma sociedade onde a Ciência e o raciocínio lógico começavam a ganhar mais relevância, especialmente para aqueles com acesso à educação.

Não por acaso este período coincidiu com o declínio do uso de figuras sobrenaturais por parte dos escritores da época - e justamente por isso, em seu livro de 1817, “Biographia Literaria”, o poeta inglês Samuel Taylor Coleridge criou o termo “suspensão da descrença” (suspension of disbelief).

O termo foi criado para explicar como o leitor esclarecido deveria abordar obras com elementos fantásticos e sobrenaturais: suspendendo temporariamente sua capacidade de criticar e questionar os fatos, aceitando-os conforme apresentados durante a narrativa. É o que fazemos quando consumimos qualquer tipo de ficção, seja através de livros, filmes ou qualquer outro meio audiovisual - cada qual com suas limitações em relação ao grau de imersão proporcionado.

Todos nós criamos realidades alternativas diariamente, através de sonhos. Alguns não fazem muito sentido, ocorrendo em lugares que nunca visitamos e que talvez nem existam - outros, são tão reais que temos dificuldade em nos convencer ao acordar que não ocorreram de fato. O cérebro humano possui uma predisposição a criar sua própria realidade, com consequências importantes e que são estudadas em departamentos de Psicologia e Neurociência ao redor do mundo.

Qualquer forma de “iludir” a mente para que possamos acreditar que algo que esteja ocorrendo diante de nossos olhos seja verdade - por mais inverossímil que possa parecer - é objeto de estudo para neurocientistas, interessados em conhecer como nossos cérebros processam e interpretam informações.

Cientistas liderados por Stephen Macknik e Susana Martinez-Conde, do Instituto Neurológico Barrow no Arizona, EUA, publicaram em novembro de 2008 um trabalho científico intitulado “Attention and awareness in stage magic: turning tricks into research” (algo como “Atenção e Consciência na mágica ao vivo: transformando truques em pesquisa”).

De acordo com um dos autores do trabalho, o excesso de estímulos que precisam ser processados pelo cérebro nos força a tomar “atalhos”, montando a realidade de acordo com modelos mentais simples e que podem ser enganados. Um bom mágico se aproveita deste processo para criar suas ilusões.

Sendo assim, não é surpreendente que a busca pela criação de “dispositivos para suspender a descrença” seja uma empreitada que já ocupa escritores, cientistas, filósofos, engenheiros, cineastas e poetas há pelo menos cem anos - mas provavelmente bem mais que isso. De acordo com o Online Etymology Dictionary (Dicionário Online de Etimologia), compilado por Douglas Harper com o objetivo de explicar a origem das palavras da língua inglesa, o uso da palavra “virtual” como algo “verdadeiro na essência ou no efeito, mas não na realidade ou no fato” vem desde a metade do século XV. A palavra vem do latim “virtus”, que transmite a ideia de excelência e eficácia.

De fato, há poucas formas mais eficientes de “enganar” o cérebro do que utilizando a superposição de elementos virtuais com elementos reais (através da realidade aumentada) ou através da imersão do usuário em um ambiente tridimensional completo, com imagens, sons e interatividade (através da realidade virtual). São estas as duas técnicas que aliam tecnologia e o estudo dos mecanismos cognitivos utilizados para percebermos a realidade ao nosso redor, criando aplicações em múltiplas indústrias. Semana que vem iremos falar sobre a evolução destas tecnologias e suas possibilidades em múltiplos setores. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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