Nova geração de filantropos estimula doações nos EUA

Nova geração de filantropos estimula doações nos EUA

Filantropia volta a ganhar força com a recuperação de doações de empresas e pessoas físicas nos EUA, mas os US$ 335 bilhões doados no ano passado continuam abaixo do auge anterior à crise, de US$ 350 bilhões

David Gelles, The New York Times

10 de novembro de 2014 | 08h24

Quando o fundador doFacebook, Mark Zuckerberg, doou à fundação dos centros federais de controle dedoenças US$ 25 milhões para ajudar a combater a crise do Ebola no mês passado,o momento serviu como uma espécie de mensagem de utilidade pública.

Cinco anos depois de arecessão ter reformado a economia global, as doações à caridade estãoretornando em volume substancial nos Estados Unidos. Além disso, uma novageração de doadores está enfrentando desafios significativos com doaçõescapazes de transformar a situação.

Zuckerberg emergiu comoum dos mais generosos empreendedores de sua geração, distribuindo quantias daordem de dezenas de milhões para causas ligadas ao ensino, à saúde e aodesenvolvimento comunitário. E, num grau surpreendente, boa parte do paísseguiu os passos de Zuckerberg, mesmo após a crise financeira.

Ao todo, as doações decaridade em 2013 tiveram alta de 3% em relação ao ano anterior, o maior aumentoanual observado desde a recessão, de acordo com a Giving USA e a Faculdade deFilantropia da Universidade de Indiana, que acompanham as contribuições. Asdoações feitas por indivíduos, empresas, fundações e testamentos superaram osUS$ 335 bilhões em 2013, aproximando-se do auge anterior à crise financeira.Foi o quarto ano consecutivo de alta.

E embora poucos sejamtão ricos quanto o Facebook e seu fundador, o povo americano e a comunidadeempresarial parecem ter deixado a crise para trás, retomando o hábito de doar.

“O quadro é de plenarecuperação”, disse Melissa Berman, diretora executiva da RockefellerPhilanthropy Advisors. “Os Estados Unidos têm uma longa tradição degenerosidade.” Mas nem sempre tivemos a certeza de que as coisas continuariamassim. No pior momento da recessão, as doações tiveram queda de 15%, caindo deUS$ 350 bilhões em 2007 para US$ 298 bilhões em 2009, de acordo com dados daGiving USA, em dólares ajustados para a inflação.

Mas até nesse momentohouve esperança. O país estava mais pobre, o que significa que havia menos adoar, mas, enquanto proporção da riqueza gerada, os americanos pareceramconservar sua generosidade.

“O total absoluto dedoações caiu, como era previsto, mas ainda observamos um volume grande dedoações, numa proporção da renda quase igual à observada anteriormente”,escreveram Rob Reich e Christopher Wimer, da Universidade Stanford, num estudode 2012 examinando o impacto da recessão na filantropia.

Mas o destino dessesdólares passou por “mudanças significativas”, disse Eileen R. Heisman, diretoraexecutiva do National Philanthropic Trust. Doações a organizações que defendemo direito à moradia e à alimentação registraram um pico em 2008 e 2009,enquanto as doações para causas ligadas à arte e ao ensino despencaram.

“Quando ocorre umarecessão e o desemprego aumenta, as pessoas respondem às necessidades maisimediatas”, disse Berman.

Mas agora que os pioresmomentos da recessão já ficaram para trás, as doações para diferentes causasvoltaram aos níveis pré-crise. “Com a persistência da recuperação, as pessoasestão retornando às áreas para as quais costumavam doar”, disse Patrick M.Rooney, diretor assistente da Faculdade de Filantropia da Universidade deIndiana.

Nos anos mais recentes,as doações para as artes e o ensino ultrapassaram as doações para causasligadas à fome e à falta de moradia. E, quando acontece um desastre, seja umterremoto no Haiti ou um tsunami no Japão, podemos confiar na generosidade dosamericanos.

Talvez o dado maissurpreendente a respeito das doações desde a recessão seja quem se mostrou maisgeneroso. Parece que indivíduos mais pobres doam uma fatia maior de sua renda,mesmo nos momentos difíceis. Embora os americanos de baixa renda sejam aquelesque mais reduziram as doações de caridade durante a recessão, eles tendem adoar uma proporção maior de sua riqueza em relação aos americanos de classemédia e alta.

“É notável agenerosidade dos americanos de baixa renda”, disse Melissa. “A queda nasdoações foi mais acentuada entre eles durante a recessão porque eles não têmtanta renda disponível, mas eles tendem a doar uma proporção maior de sua rendaà caridade.”

“As pessoas que enxergamclaramente o quanto suas vidas podem ser viradas de cabeça para baixo poralguma coisa - uma criança que adoece ou um parente passando por dificuldades -são mais solidárias.“ Os indivíduos mais ricos também retomaram as doações. “Umnúmero maior de lares de renda alta está doando, e as doações são maiores”,disse Rooney.

Nos meses mais recentes,um número de grandes doações feitas por bilionários chegou às manchetes. Alémda doação de Zuckerberg para a luta contra o Ebola, no mês passado Charles T.Munger, vice-presidente da Berkshire Hathaway, doou US$ 65 milhões para oInstituto de Física Teórica Kavli da Universidade da Califórnia em SantaBarbara. E, no ano passado, o empreendedor imobiliário Stephen Ross doou US$200 milhões à Universidade de Michigan.

Com a facilidade dasdoações online, os jovens de hoje também estão participando, como Zuckerberg.“A geração do milênio demonstra ter um compromisso com as doações”, disseEileen. “Não se trata de um fenômeno restrito aos nascidos no pós-guerra.“ E asempresas também estão retomando gradualmente suas iniciativas filantrópicas,embora o progresso seja lento. apenas 64% das empresas aumentaram suacontribuição total entre 2010 e 2013, de acordo com relatório da ConferenceBoard. E apesar da alta de 10,8% observada desde 2011, as doações corporativastiveram queda de 3,2% de 2012 a 2013, diz a Giving USA.

Mas apesar da amplarecuperação nas doações, a recessão obrigou a filantropia a recuar nos EUA. OsUS$ 335 bilhões em doações no ano passado continuam abaixo do auge anterior àcrise, de US$ 350 bilhões. “A reconstrução tem sido lenta”, disse Eileen.

O principal rombo estánas doações individuais, que seguem US$ 21 bilhões abaixo do patamar observadoantes da recessão, de acordo com Rooney. Iniciativas como a "terça feirade doações”, adaptação da “sexta feira negra” e da “segunda feira cibernética”,e novos sites como Donors Choose e Kickstarter não foram capazes de aumentar onível dessas doações.

Como resultado, osamericanos ainda doam anualmente cerca de 2% do PIB nacional. Isso é mais doque os outros países, e o total se recuperou desde a recessão. Mas a proporçãonão está crescendo substancialmente.

“O ponto de vista do‘copo meio vazio’ diz que voltamos ao nível de uma década atrás”, disse Rooney.“Para o ponto de vista do ‘copo meio cheio’, as doações tiveram queda durante aGrande Recessão, mas não despencaram. Não é sem motivo que o período éconhecido como Grande Recessão.” /Tradução de AugustoCalil

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