Número elevado de domésticas reflete subdesenvolvimento

Baixa escolaridade restringe entrada no mercado e abre espaço para trabalho de baixa remuneração

Gustavo Ferreira, do Economia & Negócios,

22 de abril de 2013 | 08h00

Para o sociólogo Marcos Costa Lima, professor de sociologia e ciência política da Universidade Federal de Pernambuco, o número de domésticas está diretamente ligado ao nível de subdesenvolvimento.

Autor do livro Região & Desenvolvimento no Capitalismo Contemporâneo, o acadêmico compara a qualidade de vida no Sul e no Sudeste - onde, proporcionalmente, há menos domésticas - à dos países pobres da Europa.

"Uma realidade bem diferente da do Nordeste, onde falta indústria, faltam serviços, falta maior qualificação e sobra concentração de renda", compara.

É possível medir o nível de subdesenvolvimento pelo número de domésticas?

O País inteiro é subdesenvolvido. Mas temos uma divisão regional do mercado de trabalho que é muito característica, sendo o Norte e Nordeste claramente mais subdesenvolvidos que as regiões Sul e Sudeste. O núcleo da produção de valor está todo em São Paulo. Nos últimos dez anos, as populações do Sul e do Sudeste começaram a se aproximar do padrão de vida da chamada Europa pobre. Uma realidade bem diferente da do Nordeste, onde falta indústria, faltam serviços, falta maior qualificação e sobra concentração de renda.

O que representa o fato de as classes A e B do Nordeste empregarem muito mais domésticas que as do Sul e do Sudeste do Brasil?

Existe um raciocínio desenvolvido há muito tempo pelo economista Celso Furtado (falecido em 2004, autor do best-seller 'Formação Econômica do Brasil') sobre um sério problema brasileiro que ainda não mudou: sobra mão de obra desqualificada enquanto o mercado de trabalho de maior valor agregado exige cada vez maior capacitação. E isso é muito mais forte no Nordeste. A baixa escolaridade nordestina é fator de clara restrição à entrada em mercados de trabalho mais modernos - fato agravado ainda mais pela seca. A proporção superior de domésticas no Nordeste está diretamente associada a isso. São pessoas levadas a procurar mercados informais de leis próprias, em que, muitas vezes, não é pago nem mesmo um salário mínimo aos trabalhadores.

Por que a quantidade de domésticas entre as famílias ricas do Sudeste e do Sul é reduzida?

Entre as décadas de 1950 e 1970, com a industrialização de São Paulo, o Nordeste mandou verdadeiras multidões para as regiões Sul e Sudeste do Brasil. São Paulo é a maior capital Nordestina do Brasil, como se diz. Ainda hoje, faxineiros, zeladores de prédios e empregadas domésticas de São Paulo, em geral, são nordestinos. No entanto, em São Paulo é muito mais comum você ter diaristas, não empregadas mensalistas. As tecnologias contemporâneas (como a máquina de lavar, o freezer e o aspirador de pó) acabam com a necessidade de se ter uma empregada diariamente em casa. A classe média também é bem mais numerosa no Sul e no Sudeste, sem tanta divisão entre ricos e pobres, como no Nordeste. E essa classe média não tem como bancar uma emprega doméstica que trabalhe todos os dias em suas casas, e opta pela diarista.

A PEC das domésticas, além de assegurar direitos, ajudará a conhecer melhor as características sociais brasileiras?

A informação sobre os direitos sociais tende a crescer agora, com a PEC. Nas regiões metropolitanas, os sindicatos são mais atuantes. Mas, 100 quilômetros distantes de capitais, a configuração é totalmente outra. É preciso agora ser feita uma varredura no setor de domésticas, o que não é medido com precisão ainda. Como só apenas o setor formal é investigado de modo mais criterioso, ficava difícil entender peculiaridades do segmento das domésticas. Agora as coisas devem ficar mais claras. Legislações dessa natureza contribuem para mostrar como nosso sistema social é tão desigual.

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