'Nunca estivemos tão perto da privatização'

'Nunca estivemos tão perto da privatização'

Donos de Azul e Avianca disputam a compra da companhia aérea estatal portuguesa

Entrevista com

Fernando Pinto, presidente da TAP

Marina Gazzoni, O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2015 | 05h00

Administrar uma empresa aérea não é uma tarefa fácil. O setor é vulnerável a variáveis que vão além do controle de qualquer gestor, como clima e preço do barril do petróleo. Mas a missão do gaúcho Fernando Pinto, presidente da TAP, vem sendo ainda mais árdua. Por 15 anos, ele vem administrando a companhia em meio a severas restrições de capital, pressões políticas e sucessivas greves, esperando pela privatização. Em entrevista exclusiva ao Estado na segunda-feira, em Miami, durante a conferência anual da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), Fernando Pinto disse estar confiante que, desta vez, a privatização seja concluída. Leia a seguir a íntegra da entrevista com o executivo:

Como o sr. gerenciou a empresa por 15 anos nessa incerteza sobre a privatização?

Nós conseguimos até manter o crescimento, mas é uma situação sempre muito instável. A empresa em qualquer baixa de mercado ou alta do preço do combustível fica em uma situação muito mais crítica.

Hoje a TAP tem problema de liquidez?

Ela tem operado normalmente, tem pagado em dia todos os seus fornecedores e funcionários, mas não tem folga de caixa de jeito nenhum. Obviamente nos gostaríamos de ter uma folga financeira maior. O ideal para uma empresa aérea é fazer operações de tesouraria de longo prazo, mas nós fazemos de curto prazo, que são mais caras. Além do custo financeiro, a empresa tem de estar o tempo todo trabalhando para fazer novas operações para repor aquelas anteriores. Temos de esperar o processo de privatização estar definido e começar uma nova vida depois.

O que muda para a empresa com a venda?

O importante para a empresa é a capitalização. Há 15 anos eu cheguei na TAP e ela já tinha uma deficiência de capital muito forte. Na época era previsto fazer a privatização com a Swiss Air, mas não aconteceu. Em 2012 foi quase, mas não aconteceu de novo. Desta vez esperamos que seja para valer, para resolver o problema de capitalização da TAP e também trazer novas ideias e acesso a novos mercados para a companhia.

Esse processo já foi cancelado outras vezes. Qual a chance de essa privatização sair do papel desta vez?

Existem grandes chances. O governo está claramente dedicado a encontrar solução de privatização da TAP. Nunca nós estivemos tão perto disso. E o fato de existir dois grupos interessados também ajuda que esse processo vá para frente.

Dois grupos brasileiros na fase final do negócio. Que oportunidades existem de integração da TAP com essas companhias?

São sócios estratégicos e financeiros. Elas vão trazer acesso ao capital, o que vai nos retirar de uma série de limitações que a empresa tem pelo fato de ser uma estatal. E, além disso, são empresas do lado de cá do Atlântico. Elas têm todo interesse de desenvolvimento do nosso hub (centro de distribuição de voos) a partir de Lisboa e em fazer a distribuição dos passageiros que chegam aos nossos 84 voos semanais para o Brasil.

Qual é o seu favorito?

Não posso falar. A decisão é do governo.

Como será a escolha do vencedor?

Foram feitos estudos sobre as vantagens estratégicas e financeiras de cada uma das propostas. E hoje isso está na mão do governo. A decisão final é do governo.  

Qual vai ser a empresa que o comprador da TAP vai encontrar?

Entre 2008 e 2013, tivemos resultados excelentes, sempre positivos. O ano de 2014 começou muito bem e foi assim até o inicio de junho. Mas tivemos alguns problemas no verão, com atrasos de entrega de aeronaves e com greves de pilotos, que perdurou por toda a alta temporada. Tivemos enormes atrasos de voos e cancelamentos. O verão que é quando sempre nos ganhamos muito, perdemos bastante dinheiro. Depois disso, começaram a circular informações de que a companhia seria privatizada e começou uma sequência de greves.

Isso afetou o resultado da companhia?

Sim. Os resultados do ano de 2014 foram destruídos por essa série de greves. Quando viramos o ano e achamos que as coisas estavam mais calmas, começou uma instabilidade de novo com os pilotos. A nossa previsão de crescimento para o primeiro trimestre era de 8%, mas crescemos 3% e algumas das nossas concorrentes cresceram 12% e pegaram parte do nosso mercado.

A empresa conseguiu se recuperar depois?

Vínhamos nos recuperando e em março conseguimos elevar em 10% nossas vendas. Mas tivemos de enfrentar uma greve de dez dias dos pilotos em abril. E toda aquela ótima venda se esvaiu com bilhetes sendo devolvidos e voos cancelados. Só com essa greve perdemos muito dinheiro, em torno de 30 milhões de euros. Começamos a nos recuperar em maio, mas toda essa turbulência sobre as greves fez nossas vendas caírem especialmente em Portugal. Conseguimos vender bem no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos, na África. Mas Portugal é 25% do nosso mercado, então ele é extremamente importante. A companhia vem se equilibrando agora e temos esperança de que haja uma certa paz. Estamos nesse momento aguardando a definição do processo de privatização.

 Quem comprar a TAP vai herdar a briga com o sindicato?

É bem diferente. Esse tipo de comportamento é bem conhecido em Portugal. O sindicato tem um comportamento diferente para lidar com empresas privadas. É tradicional. Por quê? Por que existe um forte componente político na negociação sindical com empresas estatais. Obviamente o governo é mais suscetível a jogos políticos do que empresas privadas. Tradicionalmente, a conversa passa a ser em patamares diferentes quando a empresa é privatizada.

A TAP deve fazer demissões após a privatização?

Não. A TAP é uma empresa muito eficiente comparada com o restante da Europa. Não é essa ideia e não está previsto. É sempre importante fazer um rejuvenescimento da empresa, não no aspecto da idade das pessoas, mas nas novas ideias.  

O que você pretende fazer após a venda da empresa?

Depende muito do que vão querer os novos acionistas. Pessoalmente, eu gosto muito de Portugal e me proponho a ajudar nesse processo de transição da empresa de companhia estatal para privada. Depois não sei.

E se o processo não sair?

No caso de não acontecer a privatização teremos de fazer um trabalho de reestruturação mais profundo e continuar a conviver com as dificuldades da baixa capitalização.

* A repórter viajou a convite da Iata

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