Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

‘O Brasil é um país que precisa se reconstruir’

Executivo diz que bancos terão de participar do ajuste de consumidores e empresas, para cortar ‘na raiz a evolução de crises’; infraestrutura é precária, mas bancos têm liquidez para participar do processo de modernização

Entrevista com

Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Bradesco

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2017 | 22h38

Os bancos terão de ter participação ativa no processo de ajuste das empresas e dos consumidores, abrindo espaço para que a economia brasileira volte a crescer, afirma o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi. Esse movimento deve ocorrer após um ano marcado por empresas e credores sentados à mesa para renegociar dívidas e alongar vencimentos, o que evitou o colapso de muitas companhias.

Depois de um 2016 que exigiu dedicação no gerenciamento dos calotes e culminou no encolhimento do lucro dos grandes bancos após anos seguidos de expansão, o executivo vê o desfecho da crise já endereçado. “O caminho de saída da crise será gradual e ritmado”, avalia Trabuco, em entrevista exclusiva ao Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.

Trabuco pontua o papel dos bancos na retomada econômica e garante que as instituições estão dispostas a participar dos projetos de infraestrutura lançados pelo governo federal, mas que isso dependerá do modelo de garantias a ser adotado. 

Além disso, o executivo vê nas obras de infraestrutura um “bônus de crescimento” para o País e diz que as instituições financeiras têm liquidez para participar desse processo, mas tudo vai depender do modelo de garantias que será adotado. “O crédito nunca é um problema.” 

A seguir, os principais trechos da entrevista, concedida na sede do Bradesco, na Cidade de Deus, em Osasco, São Paulo ao Broadcast, serviço de informações em tempo real do Grupo Estado.

Os bancos foram os principais atores nas renegociações de dívidas de pessoas físicas e jurídicas. Qual é o ritmo esperado para esse movimento em 2017? 

Me chamou a atenção uma frase do Xi Jinping (presidente da China), em Davos. Ele criticou o comportamento de “trancar-se num quarto escuro para se proteger do perigo”, referindo-se ao protecionismo. Nos bastidores, o comentário entre os brasileiros foi que o conceito se aplica como luva à questão do endividamento e ao esforço dos bancos em proteger a qualidade da carteira de crédito. Temos de agir. E é preciso agir com eficiência para evitar o crescimento das dívidas problemáticas. Cuidar da saúde do sistema é cuidar da saúde da economia do País, evitar na raiz a evolução de crises.

As instituições manterão o protagonismo no processo de desalavancagem das empresas e das pessoas físicas? Em quanto tempo o sistema pode voltar a patamares considerados normais? 

Vamos continuar exercendo nosso papel de tutores da estabilidade do sistema sempre que necessário. As condições para 2017 dão sinais de evolução, principalmente, com a queda da Selic. O caminho de volta à normalidade é o mesmo caminho de saída da crise: gradual e ritmado.

Qual será o papel dos bancos nos projetos de infraestrutura que o governo pretende tocar nos próximos anos? Já há uma solução adequada para o descasamento de tempo entre o funding dos bancos e o prazo dos projetos?

O Brasil é um país que precisa se reconstruir e se modernizar. A infraestrutura melhorou, mas ainda é precária. Está aí um dos nossos bônus de crescimento. A participação dos bancos dependerá do modelo de garantias a ser adotado. O crédito nunca é um problema. A liquidez do sistema é grande e não há nenhuma restrição com relação a clientes do porte de quem pode tocar obras de infraestrutura. A questão sempre é das garantias e o modelo de negócio. O descasamento dos prazos de funding pode ser resolvido. O mercado é criativo e encontra soluções.

Os bancos privados devem participar de alguma forma do socorro aos Estados? Se os entes federados forem autorizados a captar recursos com o aval da União, os bancos poderiam participar?

A questão é: quanto há de espaço no orçamento dos Estados para esse tipo de amortização aos bancos? O governo federal vem fechando acordos com Estados e dando parâmetros de orçamento. Vamos analisar no tempo adequado. Uma coisa importante é que os Estados sempre foram tomadores de crédito. Atualmente, passam por dificuldades, mas a volta do crescimento econômico e os termos da renegociação com a União, com o apoio das assembleias, vão mudar esse cenário.

O Banco Central já fez ajustes técnicos nos compulsórios, mas sempre se espera redução de alíquotas. Esse corte ajudaria na retomada do crédito? A redução de alíquotas, para ser eficiente, teria de ter carimbo para os recursos que fossem liberados, como foi no caso de compra de carteiras de crédito?

O crédito funciona melhor e é mais eficiente quando exercido sem direcionamentos. Quanto mais se direciona, menos sobra para os demais, o que tem impacto no custo do dinheiro. Acho que o crédito deve ser um cardápio de livre escolha para o cliente e para o banco. É o que constrói um sistema eficiente, pelo equilíbrio entre oferta e demanda. Esse tipo de direcionamento é uma prática conhecida e recorrente na economia brasileira. O resultado é que temos o crédito restrito. Não é esse modelo que vai melhorar o ambiente de negócios no Brasil.

O mercado de cartões no Brasil se desenvolveu com assimetrias e uma estrutura diferente de outros países. A mudança no rotativo é um primeiro passo de convergência de modelos. Qual o próximo?

O crédito rotativo é um financiamento automático, direto, sem nenhuma garantia da contraparte de quando e como seria o pagamento. Isso tira a previsibilidade e clareza na relação banco e cliente, o que gera mais custo. O conceito adotado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) foi correto. Ao estabelecer um plano de pagamento, isso tira o fator de incerteza. O Banco Central, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e a Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços) estão conversando sobre a modernização e simplificação do sistema de crédito no Brasil e a pauta vai prosseguir.

A liderança entre os bancos privados sempre foi uma obsessão para os maiores players no Brasil. Com o HSBC, o Bradesco está satisfeito com a sua presença no País?

Depende de nós termos competência para exercer nossa capacidade comercial e crescer organicamente. Mas uma observação: não temos obsessão. Nosso sentimento é de gratidão aos milhões de clientes que nos dão a oportunidade de ser um dos maiores grupos financeiros neste País de imensas dimensões e extraordinário potencial econômico.

Embora o excesso de regulação no Brasil já tenha se provado eficaz, a concentração dos ativos do sistema nas mãos de poucos bancos é uma preocupação permanente. Há riscos?

Essa questão da regulação é fundamental. O Banco Central sempre foi uma referência mundial em termos de controles e regramento para a estabilidade do sistema financeiro. Isso vem do nosso histórico de choques econômicos, que sempre passavam pelos bancos para poderem ser implementados. Depois das crises globais, os reguladores dos países desenvolvidos passaram a apertar os controles. Agora, a situação é de aumento sequencial das exigências de capital, mais e mais itens adicionais. O livrinho o Basileia começou com umas 30 páginas e já tem mais de 600. Chegamos ao ponto de inibir não apenas o risco excessivo, mas de todo o risco. Isso leva o banco a selecionar de forma muito mais rigorosa para quem emprestar. É preciso bom senso e ajustar esse processo.

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