O caminho da desesperança

Por mais que as autoridades da União Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional se esforcem para demonstrar otimismo com o futuro próximo, o fato é que a crise econômica na zona do euro ainda está longe de um desfecho feliz. Há quem, na verdade, considere que a estratégia adotada para tirar a área da crise produzirá mais crise.

José Paulo Kupfer, colunista de O Estado de S. Paulo,

24 de abril de 2012 | 08h03

A ideia de que, diante de déficits e dívidas públicos monumentais, a saída é adotar medidas igualmente monumentais de austeridade parece ser uma solução simples para um problema complexo. Mas, como se sabe, quando os problemas são complexos, as soluções simples costumam ser equivocadas.

Cortar gastos, principalmente no conjunto que produziu décadas de maior bem-estar social, é o centro da receita. Essa receita é completada pelas tentativas de flexibilizar as relações trabalhistas, abolindo ou suavizando regras e normas de proteção ao trabalhador, como forma de reduzir custos de produção.


A receita não tem dado certo. A crise não só mostra resistência como se aprofunda com o passar do tempo. O fato é que os programas de austeridade reduzem a demanda e demanda é tudo o que as economias fragilizadas necessitam. A situação é ainda mais grave porque, com a moeda única, a saída das crises da dívida - o aumento das exportações, para alcançar a demanda externa - não pode ser utilizada, isoladamente, pelas economias mais atingidas. Ao registrar uma segunda recessão técnica, a Espanha é apenas a bola da vez, mas seu caso não é único.

Programas de austeridade visam evitar o agravamento dos déficits e das dívidas. Mas podem, como no caso presente, produzir resultado inverso, agravando-os.  Estrangulando a demanda, seja pela contenção dos gastos públicos ou  pela contenção do crédito, não é possível estimular a produção. Sem produção, aumenta o desemprego e cai a arrecadação tributária Tudo isso torna mais difícil reduzir os déficits.

Não haverá saída - e mesmo assim a recuperação mais consistente não virá em menos de meia dúzia de anos - se não houver uma renegociação ampla e organizada das dívidas dos países afetados. A Grécia foi só o preâmbulo da história toda. Enquanto isso, os programas de austeridade draconianos produzirão apenas mais sofrimento e desesperança.

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