O euro que deveria unir a Europa a divide

Uma recuperação exigiria mudanças fundamentais no funcionamento da união, com uma maior interferência nos Estados soberanos

Steve Erlanger, do The New York Times,

20 de outubro de 2011 | 23h07

O euro foi um projeto político que visava unir a Europa depois do colapso soviético numa esfera de prosperidade coletiva que levaria a um federalismo mais abrangente. Em vez disso, hoje aparentemente o euro é um motivo de divisão da Europa.

Enquanto os líderes se esforçam por apresentar uma frente unida para a reunião crucial que se realizará neste fim de semana em Bruxelas, a ansiedade cresce na Europa, e não apenas a respeito da questão do euro.

Os pressupostos de 60 anos parecem de repente vazios, e o caminho pela frente é nebuloso, como se o sistema de GPS tivesse sofrido uma pane.

Superficialmente, a União Europeia é um enorme sucesso. Com 500 milhões de cidadãos e um Produto Interno Bruto (PIB) superior a US$ 17 trilhões, maior do que o dos Estados Unidos e mais do triplo do da China ou do Japão, é o maior parceiro comercial dos Estados Unidos.

Juntas, as duas economias representam cerca da metade do Produto Interno Bruto do mundo, e quase um terço do seu comércio.

Mas a Europa se encontra num declínio econômico e demográfico, enquanto a Ásia está em ascensão. A parcela do comércio global da União Europeia vem caindo de maneira persistente, principalmente nas exportações. Sua crescente população de idosos exerce uma enorme pressão sobre os seus generosos programas de benefícios previdenciários, e contribui para inflar sua dívida soberana em um prolongado período de crescimento estagnado.

Do ponto de vista tecnológico, ela está atrás dos EUA, mas os seus salários são excessivamente elevados e isto impede que ela possa competir facilmente no que se refere às exportações.

A atual crise em torno do euro tem profundas raízes nos desequilíbrios entre o norte e o sul, entre ricos e pobres, entre as economias voltadas para a exportação e as impulsionadas pelos serviços, ligadas por uma moeda única, mas com poucas regras, e mesmo estas raramente são aplicadas.

Uma recuperação exigiria mudanças fundamentais no funcionamento da união, com uma maior interferência nos Estados soberanos. Exigiria uma união fiscal, com um Tesouro e um ministro das Finanças capaz de intervir nos orçamentos nacionais, e políticas fiscais mais unificadas, assim como as referentes às pensões. Mas não se sabe se a União Europeia conseguirá chegar a um acordo para tomar estas medidas cruciais, afastando-se das identidades nacionalistas e optando por um modelo realmente europeu.

"Hoje nos deparamos com o maior desafio que a nossa união jamais encontrou em toda a sua história", disse José Manuel Barroso, o presidente da Comissão Europeia. "Essa é uma crise financeira, econômica e social. Mas também uma crise de confiança - na nossa liderança, na própria Europa, em nossa capacidade de encontrar soluções".

Muitos acreditam que a União Europeia e seus líderes deixaram de corresponder às expectativas e que o projeto, que trouxe democracia e paz ao continente, talvez comece a se desfazer.

"Esta crise ameaça os benefícios de 60 anos de integração europeia", disse Nicolas Baverez, um economista e historiador francês. "Todos os princípios sobre os quais a zona do euro foi construída - nenhuma calote do Estado, nenhuma transferência monetária, nenhuma operação de ajuda e limites rigorosos ao endividamento - todos esses princípios estão mortos, e não temos regras para fazer esta máquina funcionar."

Pior ainda, ele disse, as lideranças políticas subestimam os perigos.

"Não se trata apenas de mais uma recessão, mas de uma crise real e fundamental", prosseguiu. "Existe uma tensão no sistema político, e as instituições democráticas suscitam dúvidas que não experimentávamos desde a queda da União Soviética".

Erguida sobre as ruinas da guerra e generosamente ampliada na euforia que se seguiu ao colapso soviético, a União Europeia se colocou como o modelo de si mesma, irradiando "poder brando". Mas agora este modelo parece embaçado e falho.

Os líderes parecem ter perdido sua estatura; a política local alardeia a solidariedade. O novo nacionalismo degrada a responsabilidade coletiva e a soberania compartilhada que define a União Europeia. O euroceticismo vai desde os partidos de extrema direita, que detestam simultaneamente os imigrantes, o globalismo e Bruxelas, até os partidos governistas dos países mais bem sucedidos da Europa.

Uma União Europeia de 15 nações parecia coerente e administrável; a Europa dos 27, e logo 28, é quase ingovernável, até mesmo por uma burocracia profissional, não muito próxima do seu eleitorado, e cujas decisões causam crescentes ressentimentos, resumidos no "déficit democrático" de que a União Europeia hoje sofre.

As ironias históricas são significativas. A Alemanha, por exemplo, dividida e em ruínas depois da guerra por ela mesma deflagrada para dominar a Europa, hoje é uma só e domina a Europa, mas sem armas e com profunda relutância.

Nada se faz na União Europeia sem a consentimento, o compromisso e os recursos da Alemanha. Mas Angela Merkel é a líder desta Alemanha que se limita a reagir e pouco inspiradora, e seus parceiros da coalizão, os liberais, são cada vez mais irrelevantes. Sua atenção está voltada para a política interna da Alemanha, seu federalismo e seu governo de coalizão mais flexível, num vívido contraste com o Estado centralizado, quase monárquico da França.

A França, que outrora dominava a União Europeia, agora está atrás da Alemanha em forte expansão, um dos motivos pelos quais François Mitterrand temia a reunificação alemã. Nervosa com seu próprio endividamento, seus bancos e sua classificação de crédito nesta complicada campanha presidencial, a França está tendo dificuldade para seguir Berlim.

Ao mesmo tempo, os países da Europa Oriental são mais vibrantes do ponto de vista econômico do que muitos dos seus parceiros ocidentais. Eles compartilham em grande parte da visão alemã, holandesa e finlandesa quanto à necessidade de uma rígida disciplina fiscal, e relutam em aderir a um euro trôpego, e em tornar-se responsáveis pelos fracassos dos outros.

A Grã-Bretanha, sempre discrepando da União Europeia, parece prudente por rejeitar o euro, e agora a sua postura é provavelmente mais anti europeia do que na época de Margaret Thatcher.

TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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