GABRIELA BILÓ | ESTADÃO
Maria Fernanda fez transição de gênero quando atuava na GE GABRIELA BILÓ | ESTADÃO

O fator 'trans' na vida profissional

Aos poucos, transição de gênero deixa de ser tabu em grandes empresaS

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2017 | 05h00

SÃO PAULO - Fernando Rafael não tinha nem dez anos quando mencionou pela primeira vez aos pais que queria trocar de sexo. Na tradicional família de descendentes de japoneses, a notícia foi mal recebida. Um dos argumentos, lembra hoje Maria Fernanda Hashimoto, de 23 anos, foi econômico. Aos gritos, o pai proclamou: “Você quer virar prostituta, é isso?”.

A visão de que a transexualidade pode ser um entrave para a vida profissional não é, no entanto, descolada da realidade. Quem trabalha com o tema diz que a questão é grave. “Na GE, tivemos há dois anos o primeiro caso de um profissional fazendo a transição de gênero, em uma empresa de milhares de funcionários”, diz Bruno Eller Pitzer, gerente de recursos humanos da GE Oil & Gas. “Isso acontece porque os transexuais não conseguem chegar a uma multinacional. Muitos são expulsos de casa e acabam marginalizados, o que limita a escolha profissional.”

Contrariando a profecia paterna, no entanto, Maria Fernanda tornou-se justamente o primeiro profissional a fazer a transição de gênero dentro da multinacional americana. Ainda estagiário e identificando-se como Fernando, ganhou um prêmio interno da GE de processos administrativos. Mesmo assim, não se sentia feliz. “Quando não aguentei mais e falei com meu gestor, estava pronta para jogar tudo para o alto.”

Não foi preciso. Embora a transição de gênero fosse novidade, o grupo de direitos LGBT da GE estava solidificado. Por isso, foi montada uma força-tarefa para o caso que envolveu o departamento em que Fernanda trabalhava, o jurídico e o RH. Depois de um período de três meses de licença, a equipe que havia conhecido Fernando Rafael acolheu Maria Fernanda.

“A Fernanda, sem dúvida, é um caso privilegiado e não reflete a média do Brasil”, diz Pitzer, da GE. Só em plásticas, o gasto da transição foi de R$ 120 mil. Para pagar a conta, Fernanda vendeu um apartamento que ganhou dos pais. “É muito mais fácil fazer a transição com dinheiro, sem dúvida.”

A prova de que a mudança de gênero poderia ser separada da ascensão profissional veio quando, em um processo seletivo, Fernanda foi contratada pela BD, concorrente da GE, para ganhar o dobro do salário. No novo emprego, pela primeira vez, Fernanda se apresentou a novas pessoas no feminino, como sentiu que sempre deveria ter sido.

Transição. Acostumado ao silêncio sobre sua atração por mulheres no local de trabalho – “embora fosse muito óbvio desde sempre” –, Gustavo Gonzalez Prates só se descobriu transgênero há um ano, quando trabalhava havia quase dois anos dentro da multinacional americana IBM. “Foi uma colega de empresa que disse: ‘Você tem certeza de que não é transgênero?’ Isso me fez pensar no assunto.”

Quando decidiu que a resposta era sim, velhas apreensões voltaram à tona. Fazer uma transição silenciosa é difícil, já que a ideia é, justamente, que a mudança seja perceptível. “Fui conversar preparado para ter de ‘me virar’, achar outro emprego”, diz Gustavo, de 26 anos.

O analista de contratos acabou recebendo não só apoio, mas também acompanhamento da IBM. Para ele, a transição ainda é um caminho a ser percorrido, pois o tratamento hormonal está em fase inicial. Até agora, a principal mudança foi a liberdade de viver no masculino. “Na primeira sessão com a psicóloga, eu entendi: não tenho de explicar por que eu me sinto homem. Porque eu simplesmente sou homem.”

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'Todos os dias dou minha cara a tapa'

Marcelle Miguel, de 44 anos, sente na pele as dificuldades que um profissional transexual pode enfrentar

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2017 | 05h00

Marcelle não esconde sua condição de mulher trans. Pelo contrário: todos os dias, opera um caixa na movimentada loja do Carrefour no Shopping Eldorado, em São Paulo. Atende milhares de clientes por semana. Nos últimos dois anos, se expôs a julgamentos, palavras de apoio e alguns confrontos. Hoje, está preparada para qualquer reação: “Todos os dias eu dou a minha cara a tapa”.

Identificando-se como mulher trans há cerca de duas décadas, Marcelle Miguel, de 44 anos, sentiu na pele as dificuldades que um profissional transexual pode enfrentar. Antes técnica em eletrônica, Marcelle trabalhou em grandes empresas de tecnologia, mas acabou desempregada e sem dinheiro. 

Sem apoio da família, com a qual rompeu após a morte dos pais, acabou resgatando a autoestima ao voltar a estudar no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) para tentar uma recolocação na rede de varejo francesa. “Mudei a minha história. Eu sou uma filha de Deus, estou aqui me esforçando, tentando mostrar que pessoas são pessoas. Quero que o desconhecido se torne conhecido.”

Busca. O programa de contratação de transexuais existe no Carrefour há quase cinco anos. Coordenador do Fórum das Empresas e Direitos LGBT, Reinaldo Bulgarelli diz que a companhia busca ativamente trazer esse grupo marginalizado para o mercado de trabalho. Assim, pelo menos algumas dessas pessoas conseguem evitar ser empurradas para atividades como a prostituição.

De acordo com Paulo Pianez, diretor de responsabilidade social da varejista, a escolha do trabalho com o público trans se deu justamente por causa da carga maior de preconceito que ele enfrenta. Hoje, são cerca de 20 profissionais transexuais atuando na varejista, tanto em funções administrativas quanto no atendimento em loja.

A visibilidade, embora carregada de dificuldades, é vital, na visão de Marcelle. “Quero que essa minha atitude individual vire uma mudança coletiva sobre o transexual.”

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