Nos ombros de Gigantes

É através do esforço de múltiplas gerações de cientistas e pesquisadores que nosso mundo é formatado

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2018 | 05h00

Uma das maiores rivalidades da História da Ciência ocorreu entre os ingleses Isaac Newton e Robert Hooke, durante o século XVII. As correspondências trocadas entre ambos são um atestado que nem as mentes mais brilhantes que já viveram são imunes à vaidade ou à mesquinharia. O antagonismo era tamanho que quando Newton sucedeu Hooke na presidência da Royal Society - uma das mais tradicionais e respeitadas sociedades para o avanço da ciência, fundada na Inglaterra no final de 1660 - dizem que Newton ordenou que o único quadro com a imagem de seu antecessor fosse removido da parede da instituição. Ao longo do tempo, a reputação de Hooke continuou piorando - talvez com alguma razão, em função de seu temperamento - mas possivelmente de forma exagerada.

O fato é que, em uma das cartas enviadas por Newton para Hooke, datada 6 de fevereiro de 1675, ele escreve palavras que acabaram por entrar na História: "If I have seen further it is by standing on the shoulders of Giants." - que pode ser traduzido como "Se eu enxerguei mais longe foi por estar me apoiando nos ombros de Gigantes.". A exata origem desta expressão parece estar nos trabalhos do filósofo francês Bernard de Chartres, e refletem um conceito que já discutimos: avanços científicos e tecnológicos são cumulativos, exponenciais e inevitáveis.

A combinação única oferecida atualmente à comunidade científica e empreendedora mundial - utilização de processadores poderosos a um custo acessível, armazenamento praticamente ilimitado de dados, comunicação instantânea com virtualmente qualquer parte do mundo e acesso permanente ao somatório do conhecimento acumulado ao longo da História - acaba por criar uma era de potencial de inovação e renovação sem precedentes. Conforme vimos semana passada, a evolução da ciência dos materiais confunde-se com a própria evolução da Civilização - e o futuro já está em pleno desenvolvimento ao redor de laboratórios e centros de pesquisa espalhados por todos os continentes.

Falamos aqui sobre o grafeno, o mais notório dos chamados materiais bidimensionais até o momento. Composto por apenas uma camada de átomos, suas aplicações vão desde o armazenamento de energia até o desenvolvimento de componentes eletrônicos mais velozes, passando por novas técnicas de dessalinização e filtragem de água. Nanomateriais seguem como uma das mais interessantes áreas de desenvolvimento no segmento, abrindo caminho para roupas inteligentes e sensores que usaremos vinte e quatro horas por dia, todos os dias. Os monitores de cristal líquido de alta resolução, tipicamente iluminados com o uso de LEDs ("light-emitting diodes", ou diodos emissores de luz) e relativamente novos em nosso dia-a-dia, podem ser aprimorados no futuro pela tecnologia de "pontos quânticos" (quantum dots), que emitem luz em frequências específicas dependendo da carga elétrica aplicada.

A combinação de elementos tradicionais em formatos e tamanhos específicos abriu caminho para a área dos metamateriais, capazes de afetar ondas eletromagnéticas e eventualmente viabilizar produtos antes encontrados apenas na ficção científica, como dispositivos de invisibilidade. Já o aerogel - no qual a parte líquida de um gel tradicional é substituída por um gás - vem sendo pesquisado como um excelente isolante em função de sua baixa condutividade térmica, com impactos relevantes para as indústrias de construção e aeroespacial, por exemplo. A origem do aerogel, segundo diversas fontes, foi uma aposta entre o professor de química da Universidade de Illinois e engenheiro químico Samuel Kistler e seu colega, Charles Learned. O objetivo da aposta era retirar toda parte líquida de um gel, substituindo-a por um gás, sem que a estrutura do material fosse desfeita. Em 1931, Kistler ganhou a aposta.

Através do uso de programas de computador especializados, capazes de simular com precisão o comportamento de átomos, moléculas, compostos e materiais sujeitos a processos físicos e químicos diversos, o desenvolvimento de novos materiais torna-se ainda mais flexível e barato - só é necessário iniciar os experimentos práticos depois que um número suficientemente grande de experimentos virtuais tenham sido realizados. Da mesma maneira que grande parte da indústria farmacêutica utiliza simuladores para analisar o comportamento de novas drogas no organismo humano, graças aos avanços na área de Big Data - o campo que estuda o processamento de vastas quantidades de dados - novos materiais são criados dentro dos processadores dos computadores antes de se tornarem parte do mundo físico. Na semana que vem iremos iniciar a discussão a respeito das possibilidades e dos impactos nos negócios causados pela popularização das técnicas de Big Data em múltiplos segmentos. Até lá.

* Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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