O Marketing e a guerra dos mercados

Marcantes as conquistas brasileiras nas batalhas do algodão e do açúcar. O absurdo de cerca de U$ 1 bilhão diários, gastos em protecionismo agropecuário pelos países ricos é, no mínimo, aético.Entretanto é significativo lembrar que essas batalhas não terminarão. Existe uma notável lista de "produtos sensíveis" e protegidos, como as carnes, lácteos, alho, arroz, outros. A OMC informa que cerca de 636 linhas, dentre o total de 2.091 linhas tarifárias de produtos agrícolas, estão "blindadas", com tarifas superiores a 30%. Porém esse é o jogo. Esse é o teatro das operações.Essa guerra pelos mercados precisa, urgentemente, do conhecimento e do instrumental de marketing. Não conquistamos nada, enquanto não conquistamos a percepção do cliente. A mente das pessoas. No caso brasileiro, na verdade, temos um belo déficit de marketing. Somos conhecidos e percebidos muito mais pelas mazelas do que pelas virtudes. Culpa dos pecados que cometemos ou culpa da falta de sólidas pregações dos nossos vendedores? Sofremos dos dois males.Temos problemas, desorganização, brutais contrastes sociais, porém, quando falamos na excelência brasileira, soa como inacreditável ou arte dos "marqueteiros"!! Possuímos um extraordinário acervo de ações perante a preservação das florestas e ninguém sabe. Plantamos grãos com as melhores práticas conservacionistas do mundo, e isso passa a fazer parte do cenário. Como se produzir commoditty, hoje, não exigisse conhecimento e trabalho de altíssimo valor agregado! Tomamos o mercado mundial com carne bovina, em boi nascido e criado na origem da fotossíntese do capim tropical, porém não conseguimos traduzir essa proteína num conceito de valor especial para o cliente: a picanha do sol, ou o filé natural dos pampas gaúchos. Se deixar, não passaremos nunca de carne para fazer hambúrguer.Recheamos as embalagens das melhores marcas de café do planeta. Estamos "misturados" com a fina flor das melhores bebidas, porém, ninguém sabe, ou acredita, que ali vai café do Brasil. Até da nossa ?cachaça", sentimos vergonha. Que venham as tequilas, os conhaques, as champagnes. Salve o Presidente que toma a santa cachaçinha nacional!Remessas de "kit caipirinha" para todos os jornalistas internacionais. Envio de embalagens das ótimas cachaças para os Presidentes das nações amigas...e que todos possamos nos destilarmos nesse " spirit " tropical afro nacional.Já está indo embora o tempo em que o conceito de "agregar valor " havia somente no ângulo da transformação industrial. Na era dos serviços, invadindo o século do conhecimento, abrindo as porteiras do ser através do existir dentro do novo humano, a construção das diferenças, do especial, já nasce na origem.Não podemos mais separar as atividades à maneira clássica: agricultura, indústria, comércio e serviços. Nada disso se faz mais, sem conhecimento, habilidade e atitude. Para o setor industrial brasileiro, extraordinariamente mais urgente ainda é a conquista dos clientes locais e mundiais através das marcas e dos diferenciais dos seus produtos transformados.Caso contrário, poderão - ingenuamente, contribuir para evitar o progresso maior do agronegócio. Por exemplo, alegando que a contra-partida da diminuição das barreiras para os produtos agrícolas lá fora, viriam com a abertura do mercado para os seus processados e industrializados aqui dentro. Viva a Embraer, e que nos inspire a todos!O futuro do Brasil, com certeza continuará passando pelo agronegócio. É a continuidade do extraordinário conhecimento positivo aplicado ao solo e meio ambiente do País, por meio de técnicos, organizações de ciência, tecnologia, educação , e - principalmente, a raça forte do brasileiro que empreende e se rebela contra a parcela resignada da população. Intelectual ou não!Ganhar as batalhas anti-subsídios é caso sim para celebrar. Não significa vencer a guerra. Mas são os caminhos. A vitória nessa guerra, necessariamente passa por marketing. Aquele da ética e da inteligência, jamais o dos " espertos ". O nome da guerra é : "dignidade percebida" ao produto nacional. Não vendemos navios de soja, vendemos "vida protéica com alegria". Ninguém lá de fora fará isso por nós. A maior de todas as batalhas começa em casa.por José Luiz Tejon Megido** Presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (BMR&A), co-autor do livro Marketing & Agribusiness, professor MBA da ESPM e membro do conselho do PENSA/FEA/USP.

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