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Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
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O seu, o meu, o nosso - parte 1

O socialismo capitalista inventado pelos millennials

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2017 | 05h41

O conceito de posse é fundamental para o funcionamento da economia - você paga por um bem ou por um ativo, e este bem ou ativo passa a ser de sua propriedade. É uma ideia antiga, que no século I A.C. já era criticada por filósofos como Cícero ("não existe propriedade privada na Lei da Natureza, apenas na Lei dos Homens"). Cerca de dois mil anos depois, o inglês Ronald Coase – ganhador do Nobel de Economia em 1991 – afirmou que "a Lei da Propriedade determina quem possui algo, mas é o Mercado que determina como esse item será utilizado.".

Pois o Mercado tem se movido na direção de um novo conceito que relativiza a noção de propriedade. A economia "compartilhada" ou "colaborativa" pode ser definida, para nossos propósitos, como um ambiente no qual as pessoas ou companhias podem se conectar através de ferramentas on-line para oferecer recursos de qualquer natureza para aqueles que tenham interesse em utilizá-los.

Para os millennials – a geração nascida entre 1980 e 2000 – ser "dono" de algo é pouco relevante. Por diversos motivos – eficiência, minimalismo, conveniência – essa parte da população vem buscando os serviços à medida que encontram a necessidade para tanto. Precisa de um lugar para morar por alguns dias? Airbnb, FlipKey, HomeAway. Um local de trabalho, de preferência colaborativo, como a nova economia? WeWork ou Industrious, por exemplo. Um carro para levar você até um amigo? Lyft, Uber, Zipcar. Um vestido de um estilista famoso ou uma bolsa mais elegante para utilizar em uma ocasião especial? Rent the Runway, BoBags, Dress&Go. Tarefas como pintura, carpintaria, serviços gerais, aulas particulares? GetNinjas ou TaskRabbit.

Provavelmente o termo que deveria ser utilizado não é "economia compartilhada" e sim "economia do acesso" – a maioria dos negócios acima não possui os bens, apenas intermedeiam o acesso dos usuários aos mesmos. A Airbnb, por exemplo, não é dona dos imóveis que disponibiliza, mas ao realizar uma captação de recursos em setembro de 2016 tornou-se uma companhia – ao menos no papel – de US$ 30 bilhões. Esse é o mesmo valor que as redes Hilton e Hyatt - detentoras de centenas de hotéis espalhados pelo mundo todo - combinadas. Enquanto os negócios tradicionais operam e arcam com todas as despesas e logística, a Airbnb oferece o acesso e a interface com o cliente. Não é surpresa, portanto, que a rede Accor tenha adquirido em abril passado a Onefinestay – uma espécie de Airbnb de luxo.

É isso que empresas como Facebook e Google possuem de tão valioso: a conexão do consumidor com serviços ou produtos. Os custos e infraestrutura para criação desses itens são relevantes, mas não impactam as interfaces. Os grandes vencedores na economia compartilhada (ou economia do acesso) são exatamente os donos dessas interfaces. Quanto mais elegantes, simples e eficientes, melhor.

Semana que vem iremos prosseguir no tema, discutindo o papel de um consumidor cada vez mais poderoso justamente por ser capaz de influenciar de forma relevante o comportamento de outros consumidores – buscando conveniência, acesso e a mobilidade que marcas tradicionais necessariamente terão que oferecer para conquistá-lo. Até lá.

*Investidor em novas tecnologias, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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