O socialismo francês e o abismo

O caráter delirante do episódio dá espaço para várias suposições, mas o fato é que o homem admirável quebrou a cara

Gilles Lapouge, correspondente em Paris de O Estado de S.Paulo,

18 de maio de 2011 | 13h24

O fim de semana de todos os franceses foi inteiramente consagrado aver e rever na TV as mesmas cenas que se repetiam e pareciam saídas dasérie americana Law & Order (Lei e Ordem). Mas o homem que estava nocentro desse balé televisivo não era um bandido americano nem um ator,mas um verdadeiro senhor, um francês. Um dos homens mais poderosos doplaneta.

Na direção do Fundo Monetário Internacional (FMI), DominiqueStrauss-Kahn distribuiu bilhões de dólares para salvar a Grécia,Portugal, Irlanda e a zona do euro. Na França, estava pronto para vencera próxima eleição presidencial contra o atual presidente NicolasSarkozy.

Vida fabulosa a de Strauss-Kahn. Homem impertinente, desenvolto esedutor, atravessou vários "desertos políticos" para sair sempre maisforte do que antes. Agora, no momento de sua escalada ao topo, surgemesses poucos minutos obscuros, em um quarto de hotel nova-iorquino, ondese encontrava uma camareira. Nesse ponto, a tela fica escura durantealguns minutos.

O que ocorre nessa sequência obscura só o homem todo poderoso e ahumilde camareira sabem. Não sabemos de nada. Só podemos medir seusefeitos: o fabuloso destino de Strauss-Kahn se desfez em pedaços. Ohomem admirável quebrou a cara.

Na realidade, não é verdade que não sabemos de nada sobre omisterioso encontro entre ele e a camareira: muitos internautasdescreveram esses breves minutos como se estivessem escondidos em umarmário da suíte. Curiosamente, nem todos presenciaram o mesmoespetáculo: alguns viram Strauss-Kahn nu, batendo na mulher, cercando-a,exigindo uma felação. Outros, com mais claridade, viram o contrário:que nada se passou.

Strauss-Kahn saiu tranquilamente do hotel e seguiu para o aeroporto,para tomar seu avião para Paris. Para esses internautas, o testemunho dacamareira se transforma num romance, nascido da sua mente doente, outalvez o elo de um vasto complô mundial, uma armadilha destinada acortar o pescoço de Strauss-Kahn. Os internautas dizem até quem armou acilada: Sarkozy, querendo se livrar de um rival temido.

Pode ser a CIA, desejando dar um golpe no diretor do FMI, culpado deenfraquecer o dólar com suas manobras para salvar o euro. Outrahipótese: terá sido um rival socialista procurando tirá-lo das eleições.Ou talvez um marciano. Ou ainda um cidadão da Mongólia que não gosta dejudeus.

Suposições. Uma observação foi aceita unanimemente: o comportamentode Strauss-Kahn foi tão absurdo, incompreensível, infantil e lastimávelque todos os raciocínios sérios escorregam em enigmas. Além disso, ocaráter delirante do episódio dá margem às suposições mais barrocas.Como nenhuma explicação lógica foi dada para aqueles minutos loucos nohotel, nos vemos tentados a aceitar elementos inteiramente irracionais.

Podemos imaginar que, durante alguns minutos, esse homem inteligentecedeu às forças "negras" do seu inconsciente. Ou que Strauss-Kahn, àsvésperas de se tornar presidente, enlouquecido com essa perspectiva epara escapar do seu brilhante destino, usou esse estratagema miserável:estuprar uma camareira.

Para o Partido Socialista francês é o desastre. Strauss-Kahn era oastro da galáxia socialista. Graças a ele, o velho partido, fatigado eum pouco anulado, conseguiu reconquistar o poder perdido após a morte doex-presidente François Mitterrand.

Para Sarkozy, trata-se de "uma divina surpresa". Ele vê cair diantede seus olhos o seu mais perigoso adversário, aquele que lhe roubaria ocetro. Para testemunhar o júbilo do campo governista, em público, oPalácio do Eliseu deu ordens estritas: nada de alarde. Deve-se falar da"presunção de inocência". Essas ordens, no geral, foram respeitadas.

Todos os amigos do presidente parecem entristecidos ao abordar osdissabores de Strauss-Kahn. Contêm as lágrimas. Na realidade, estãomuito contentes.

Talvez o mais grave seja a situação da UE e do euro. Strauss-Kahndeveria se reunir com líderes europeus esta semana para discutir umplano de socorro para a Grécia e tentar proteger o euro na tempestadeque se acerca da moeda com o risco de liquidá-la.

Strauss-Kahn será substituído nessas reuniões, mas nos meiosfinanceiros o que é se fala é que um espírito sutil e imaginativo como odele, como também a enorme autoridade que adquiriu na chefia no FMI,não poderão ser substituídos assim "de improviso".

(Tradução de Terezinha Martino)

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