O verdadeiro brilho do ouro

No mundo da nanotecnologia, nem tudo é o que parece

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

08 Março 2018 | 03h00

Quando elevamos a temperatura da água a valores superiores a 100° Celsius, observamos sua transformação do estado líquido para o estado gasoso. Se fizermos o processo oposto, reduzindo a temperatura abaixo de 0° Celsius, modificamos o estado inicial, desta vez de líquido para sólido. O conhecimento adquirido ao longo dos últimos séculos sobre as propriedades dos elementos químicos permite que sejamos capazes de prever e utilizar em nosso benefício o comportamento que grupos de átomos e moléculas apresentam.

No mundo da nanotecnologia - no qual as dimensões típicas são literalmente um milhão de vezes menores que uma formiga e dezenas de milhares de vezes menores que o diâmetro de um fio de cabelo ou que a espessura de uma folha de papel - a forma como os materiais reagem pode ser bastante diferente daquela com a qual estamos acostumados, apresentando propriedades físicas, químicas e biológicas únicas em estado gasoso, líquido ou sólido. Estas propriedades podem estar relacionadas com uma maior capacidade para conduzir eletricidade, maior força, emissão de diferentes campos eletromagnéticos, maior reatividade com outros elementos ou ainda novas formas de refletir a luz.

O estudo das propriedades de diversos tipos de materiais, combinado com a capacidade de manipulação e agrupamento de partículas em escala nanométrica abre novas possibilidades para múltiplas linhas de negócios. O ouro, por exemplo, é um metal cujas partículas nanométricas absorvem luz (ao contrário do que acontece com ele nas dimensões com as quais estamos acostumados) - e esta luz é transformada em calor o suficiente para eliminar células indesejadas no corpo. Esta tecnologia já pode ser encontrada em procedimentos de quimioterapia e radioterapia contra o câncer, nos quais as células cancerosas são atraídas pelas nanopartículas que também carregam a medicação a ser precisamente dispensada nos tumores, sem afetar células saudáveis.

No campo da manufatura, uma das estruturas mais utilizadas que foi derivada do mundo da nanotecnologia são os nanotubos de carbono, formados por um arranjo hexagonal de apenas uma camada de átomos deste elemento. Além de transparente, é um bom condutor de calor e eletricidade e, conforme a definição do Oxford Learner’s Dictionaries, é o mais fino e mais forte material conhecido pela ciência. Originalmente observado na década de 60, sua importância foi reconhecida com a entrega do Prêmio Nobel de Física em 2010 para os russos Andre Geim e Konstantin Novoselov pelos seus “experimentos revolucionários com o material bidimensional grafeno”. Os nanotubos já estão presentes em produtos que vão de bicicletas a pranchas de surf, passando por embarcações e turbinas. Pesquisas para combinar nanotubos de carbono com plásticos buscam substituir o aço por um composto mais leve e mais resistente, e diversos grupos já trabalham justamente com essas propriedades na área de bioengenharia, visando avanços em procedimentos de reconstrução e recuperação óssea.

A indústria têxtil também apresenta possibilidades para o uso das nanofibras, que podem se combinar com fibras comuns para trazer novas funcionalidades ao produto final, como roupas “superhidrofóbicas” - em outras palavras, tecidos que “repelem” a água, permanecendo secos em virtualmente qualquer circunstância. Outro exemplo são as roupas que impedem a formação de odores desagradáveis, através da aplicação de nanopartículas de sílica recobertas por cobre.

Estudos realizados pela National Science Foundation (Fundação Nacional de Ciências dos EUA) e pelo National Nanotechnology Coordination Office (Secretaria de Coordenação de Nanotecnologia, também dos EUA) estimaram em US$ 1 trilhão as receitas associadas a produtos com componentes nano globalmente. Semana que vem iremos prosseguir no tema, incluindo em nossa discussão alguns dos principais benefícios do uso da nanotecnologia na área de saúde e simultaneamente apresentando questões regulatórias bem como os riscos associados ao uso de produtos com elementos nanométricos em sua composição. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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