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Odebrecht vai se reunir com bancos na segunda-feira para discutir caso Atvos. JF Diorio/ESTADÃO

Odebrecht negocia com bancos R$ 20 bi de garantias para evitar recuperação

Grupo já conversava com credores, quando sua controlada Atvos pediu recuperação judicial e Caixa ameaçou executar dívidas antecipadamente, colocando em risco controlador; reuniões com instituições financeiras acontecerão na segunda-feira

Cynthia Decloedt, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 04h00

Com risco de entrar em recuperação judicial, a Odebrecht S.A. está tentando evitar que os bancos cobrem R$ 20 bilhões dados por ela como garantia para empréstimos das companhias do conglomerado. A pressão aumentou com a ameaça da Caixa de exigir o pagamento antecipado de suas dívidas e o fim das negociações para a venda de sua controlada Braskem para a holandesa LyondellBasell. 

Além da Caixa, Banco do Brasil e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) têm grandes créditos a receber do grupo. Na outra ponta, as empresas do conglomerado que têm dívidas – e, portanto, comprometem a Odebrecht S.A. –, estão Atvos, Ocyan, OEC e Braskem. As negociações são individuais e uma das principais conversas deve acontecer segunda-feira, quando os bancos sentarão com a Atvos, em recuperação judicial.

O grupo já vinha trabalhando em um plano para renegociar os R$ 20 bilhões com os bancos, mas o pedido de recuperação da Atvos tornou tudo mais difícil.

Isso porque a Caixa e o Votorantim são os únicos credores que não têm papéis da Braskem, considerada a mais atraente empresa do grupo, como garantias para seus empréstimos. Essas ações foram dadas pela Odebrecht S.A., em 2016, para garantir um empréstimo de R$ 6 bilhões, majoritariamente concedido por BNDES e Banco do Brasil e que tiveram a antiga Odebrecht Agroindustrial, renomeada Atvos, como principal destino. Santander, Itaú e Bradesco também têm empréstimos garantidos com ações da Braskem. 

Com o pedido de recuperação judicial da Atvos, a Caixa passou a exigir da Odebrecht as mesmas condições em garantias, ou ações da Braskem, aos já detidos pelos demais bancos. 

Na segunda-feira, portanto, a conversa tende a envolver o compartilhamento das ações da Braskem com a Caixa. 

Segundo fontes, o esforço da Odebrecht é para convencer os bancos que, a exemplo do que ocorreu com a Atvos, apertar o gatilho pode tornar mais difícil recuperar os créditos. Pretende, assim, negociar prazo para prosseguir com seu plano de venda de ativos e reestruturação das dívidas das empresas.

Fontes disseram também que a companhia tentará mostrar aos bancos que as ações da Braskem podem ganhar valor e criar uma saída organizada para o problema. O argumento é de que o interesse da LyondellBasell provaria de que a companhia é um ativo atraente.

De toda a forma, interlocutores próximos à Odebrecht dizem que o grupo está ciente do risco. Ou seja, entende que o jogo está nas mãos dos bancos.

Renato Franco, sócio da Integra Associados, que reestrutura empresas, afirma que as instituições públicas enfrentam limitações com relação a prestação de contas e a responsabilização das pessoas físicas por decisões tomadas – o que deixa os executivos menos propensos a dar seu aval a operações que possam resultar em prejuízo. 

Ele diz, porém, que os bancos privados e até o próprio Banco do Brasil têm feito esforços para recuperar créditos e criado áreas para lidar com situações de crise. “A predisposição dos bancos têm sido de evitar a recuperação judicial”, afirma.

O especialista diz ainda que, em alguns casos, podem ser negociadas soluções alternativas entre bancos privados e públicos. Ele lembra, por exemplo, do caso da Eneva, ex-MPX, de Eike Batista no qual só as holdings entraram em recuperação judicial e as companhias operacionais foram preservadas. “O BNDES poderia ter colocado todo o grupo em recuperação judicial. Em acordo com bancos privados, esse desfecho foi evitado.” 

A Eneva tinha dívida de R$ 10,2 bilhões, mas apenas R$ 2,4 bilhões da holding entraram na recuperação. O restante foi renegociado fora da supervisão da Justiça. No caso da Odebrecht, fora a holding, correm renegociações em várias empresas do grupo, sendo as principais a construtora OEC, a empresa de incorporação imobiliária OR e a de logística OTP. Procurada, a Odebrecht não comentou.

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Frustração com Braskem pode ter ‘efeito cascata’ em outros negócios

Sem o dinheiro da venda da petroquímica, pressão de credores pode crescer e ‘empurrar’ a holding para recuperação judicial

Renée Pereira, Fernando Scheller e Luísa Marini, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 04h00

O fim oficial das negociações entre a holandesa LyondellBasell para compra da Braskem pode comprometer o projeto de recuperação do Grupo Odebrecht, um dos pivôs da Operação Lava Jato. O acordo, que era negociado há quase dois anos, poderia dar fôlego ao conglomerado em um momento em que todos os seus outros negócios enfrentam dificuldades no mercado.

Na semana passada, a Atvos (antiga Odebrecht Ambiental) entrou em recuperação judicial. Espera-se que, sem o alívio que seria trazido com a Braskem, a Odebrecht Realizações (do setor imobiliário) e a holding sigam o mesmo caminho. Hoje, apurou o Estado, a pressão dos credores vai além da Caixa e do Banco do Brasil.

Os ataques, definiu uma fonte, vêm de vários lados. Por isso, a empresa já está com o processo de recuperação judicial elaborado para ser protocolado caso a pressão dos credores pela execução de garantias não possa ser contornada. A recuperação garante seis meses de prazo para a empresa reorganizar seus débitos.

O cenário atingiu em cheio as ações da petroquímica brasileira: com retração de 17%, o papel liderou as quedas do Ibovespa – principal índice da Bolsa paulista –, encerrando o dia cotado a R$ 34,15.

O negócio enfrentava desafios havia meses, com problemas socioambientais relacionados à extração de sal-gema, em Alagoas, com a deslistagem no mercado americano e com a piora dos preços dos derivados do petróleo no mercado internacional. A recuperação judicial da Atvos, na semana passada, expôs ainda mais as dificuldades da Odebrecht, colaborando para a Lyondell sair de cena.

Nesse momento, a Odebrecht enfrenta uma “tempestade perfeita”, na visão de uma fonte de mercado. Uma pessoa próxima ao grupo diz que a empresa cometeu erros durante o processo de negociação com os holandeses, mostrando-se muito ávida para fechar negócio.

Outra pessoa próxima ao assunto diz que a companhia poderia ter iniciado as negociações com outras petroquímicas globais, em vez de se agarrar à Lyondell como tábua de salvação. A demora acabou por inviabilizar o negócio. “Isso compromete mais a Odebrecht do que a Braskem, que é uma empresa viável e tem condições de superar a crise”, definiu outra fonte ligada ao caso.

Ações

Segundo a Nord Research, sem a venda Braskem, os bancos podem ser mais agressivos em tomar as ações da petroquímica da Odebrecht, que foram dadas como garantia pelo grupo que está endividado. “A venda vem sendo negociada há anos e servia como uma baliza de preços para as ações”, diz a Nord, em relatório.

Segundo a empresa, chegou-se a falar de que, no processo de venda, a Braskem pudesse ser avaliada em até R$ 72 por ação, valor que agora “é um sonho distante”. Na terça-feira, o principal papel da Braskem fechou o dia valendo menos da metade disso.

Para o Santander, o efeito positivo gerado pelo interesse da Lyondell agora deixa de existir – e a empresa passa a ser avaliada pelo resultado que é capaz de gerar. O banco lembra, porém, que o momento é desafiador. As operações devem sofrer não só com o cenário internacional, mas também com problemas específicos no Brasil e no México, duas economias que enfrentam enfraquecimento nas perspectivas de crescimento.

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